Vejam o caso do goleiro Bruno, do Flamengo, um dos maiores clubes de futebol do Brasil. Talentoso, ele tinha um futuro luminoso diante de si. Já se discutia há algum tempo sua venda para o futebol europeu. Agora, diante da ameaça bastante concreta de que ele teria colaborado diretamente no assassinato de uma amante, tudo se esvanece. A menos que surja algum fato novo a seu favor, de indiscutível valor jurídico, sua carreira está destruída. Alguns meses atrás, Bruno ganhou o noticiário por sua declaração absurda, em apoio a um colega em problemas conjugais, segundo a qual não haveria homem que nunca precisou agredir fisicamente sua parceira e que, portanto, ninguém deveria se meter em briga de marido e mulher. Vê-se hoje do que uma pessoa com tal mentalidade é capaz. A moça desaparecida, Eliza Samudio, estava com um processo contra Bruno, solicitando o reconhecimento da paternidade de seu primeiro filho, do qual, à época, estava grávida. Segundo ela, este processo enfureceu o goleiro do Flamengo, que passou a obrigá-la a fazer um aborto. Eliza chegou a fazer um boletim de ocorrência no qual acusa Bruno de forçá-la a beber um líquido amargo. Àquela ocasião, colheu-se urina para aferição do que ela havia ingerido. Com o resultado do exame, sabe-se hoje que era, de fato, um abortivo. Felizmente, ela não perdeu o bebê, que está hoje em poder do avô. Eliza chegou a alertar seus familiares e amigos de que corria perigo. Apesar disso, continou procurando Bruno, tentando conversar com ele. Essa inocência custou-lhe a vida.
De fato, trata-se de uma história horrível, tornada possível pela indiferença, ou mesmo insensibilidade, diante do mal. Quando se tem apenas o próprio umbigo para satisfazer, o ser humano é capaz de tudo. Bruno é um homem casado. Além de manter diversas amantes, promovia orgias para si próprio e seus camaradas no sítio onde, agora, a polícia procura o corpo de Eliza. Infelizmente, a serem reais os dados das delegacias das mulheres que os jornais repercutem com grande alarido, casos como este não são exceções. Além do mais, todos nós conhecemos homens que confundem virilidade com libertinagem, como se eles julgassem a própria masculinidade conforme o número de mulheres que possuíram. Ora, se eles precisam possuir muitas mulheres para se sentirem seguros de si, é certamente porque não se sentem viris por natureza. Ou seja, o homem desesperado por manter relações com o maior número possível de mulheres é um tipo pouco viril, porque, sentindo-se fraco e inferior aos demais homens, precisa provar a si e aos outros que é tão ou mais homem que eles. Ora, não é evidente que o homem naturalmente viril não se preocupa com o que hão de fofocar a seu respeito? Afinal de contas, ele há de se avaliar por parâmetros mais firmes e confiáveis que a opinião de quem se presta a falar dos outros pelas costas. Uma pessoa que se deixe pautar pela opinião alheia acaba por destruir sua auto-imagem, pois, ressentida do sucesso alheio, a maioria não economiza veneno para desvalorizar quem se destaca. Portanto, saibam disso, a pessoa bem constituída não se deixa guiar pelos comentários de comadres fofoqueiras que não têm mais o que fazer, sejam elas velhinhas interioranas à janela ou jogadores profissionais de futebol.
Quem deseja ser aceito a qualquer custo não é dono do próprio nariz. E este é o maior mal que um ser humano pode se fazer: trair sua vocação verdadeira, aquela que lhe aponta o caminho da luz e da beleza. Não podemos deixar de trilhar a estrada que nos leva à concretização dos nossos sonhos, senão nós perdemos nossa individualidade e nos tornamos meros objetos de vontades alheias. Deixar-se pautar por comentários baratos é sonegar-se a autonomia que deve constituir uma personalidade bem-formada. Ou seja, é algo que não cabe na vida de um adulto. Mesmo na adolescência, a dependência do que os outros irão pensar não é algo positivo. O jovem escravo da opinião de seus colegas nunca irá amadurecer. Aos poucos sua personalidade estará deformada de uma tal maneira que só caberá nela as ordens da maioria. Ou seja, onde deveria haver todo um universo pessoal intransferível de individualidade, haverá apenas uma alma desesperada por reconhecimento e atenção. Quem se entrega a este estilo de vida torna-se capaz dos feitos mais hediondos, pois não há limites para seu desejo de aceitação. Esta é uma sede verdadeiramente insaciável. O homem que não se permite ser ele mesmo para agradar os outros é capaz de se metamorfosear em qualquer coisa. E, já que a falta de autenticidade é uma algo verdadeiramente ruim, a maior parte de seus frutos terá de ser podre, pois não há semente ruim que dê fruto bom. Ou seja, à medida que a escravidão pela opinião alheia progride na personalidade imatura, mais e mais ela se torna dependente dos menores gestos de afeição. A pessoa entra em um redemoinho que a destrói por completo, sobrando apenas um rastro negro do egoísmo mais abjeto que se possa imaginar. Onde deveria haver um ser vocacionado para a luz, há somente uma vaga lembrança do que ele deveria ser. Seus traços se tornam indistinguíveis, pois sombras e vórtices infernais os devoraram por completo.
Os que gostam de referências poéticas poderão se lembrar da Odisséia, de Homero, na qual o rei de Ítaca, Ulisses, no retorno à sua pátria após a guerra de Tróia, ao navegar por certos mares, é avisado da presença de sereias devoradoras de homens, cujo canto maravilhoso os atrai para a desgraça. Ulisses e seus acompanhantes deveriam usar uma cera mágica no ouvido para não serem atraiçoados pelos seres de encanto diabólico. Impressionado pelo aviso, e muito curioso por conhecer o canto das sereis, Ulisses recusou-se a usar a proteção e, para prevenir-se da destruição, pediu para ter seu corpo inteiro amarrado ao mastro central do navio. Avisou seus companheiros para não soltá-lo em hipótese alguma enquanto atravessassem aquelas águas traiçoeiras. Assim que adentraram na região de perigo, Ulisses começou a ouvir o canto das sereias. Imediatamente ele se põs a gritar em desespero, exigindo que fosse libertado. E neste estado ele continou até que tivessem saído daquela região e não fosse mais possível escutar o canto de beleza incomparável. Só mesmo completamente imobilizado para não sucumbir à sedução que o mundo exerce sobre nós. Se não nos guiamos a nós mesmos como pessoas autônomas, se não estamos surdos para o canto sedutor das coisas deste mundo, em pouco estaremos como Ulisses, gritando pela própria ruína, pois são muitas as armadilhas com que o mal pretende nos aniquilar. Ser livre exige, pois, um constante exercício de auto-domínio. Se não nos dedicarmos a este objetivo, jamais iremos incorporá-lo, pois, ao contrário dos animais, que nascem sabendo o que fazer, nós precisamos de um esforço constante para aprender qualquer coisa que seja, pois nascemos completamente incapazes. Tanto o conhecimento do que é bom quanto a sua prática necessitam de uma abnegação constante. Só assim podemos nos tornar verdadeiramente livres.
Se nós nos permitirmos a concretização de todas as nossas vontades, especialmente as mais superficiais e irrelevantes, não teremos liberdade alguma. Para nos tornarmos pessoas capazes de realizar alguma coisa, precisamos de um esforço contínuo de autonomia. Não podemos ser pessoas que se deixam guiar pelas sensações que momentaneamente acometem qualquer um. Se quisermos ser pessoas de princípios precisamos cultivá-los. Caso contrário, seremos como borboletas arrastadas para cá e para lá pelo vento, sem nenhuma constância, sem nenhuma segurança, sem nenhuma regularidade. Por fim, se não formos minimamente capazes de nos disciplinarmos, podemos nos tornar escravos dos piores instintos, pois os caminhos frequentes deste mundo não parecem ser os melhores. Recusar o mal não é apenas evitá-lo. A pessoa fiel à sua vocação original para o bem deve incentivar-se no caminho das coisas boas, constantes por natureza e disciplinadoras das nossas vontades arredias. Para concluir, relembro a alegoria do cavaleiro na biga, de Platão. Não podemos ser, segundo este filósofo, libertinos enlouquecidos que conduzem sua carruagem de maneira violenta, seguindo apenas os impulsos imediatos, pois acabaríamos por nos acidentar. Tampouco devemos nos ensimesmar em nossos objetivos (o que seria apenas uma outra face do egoísmo) agindo como o cavaleiro que puxa o cabresto do cavalo violentamente, impendindo-o de sair de seu lugar, pois a covardia, ainda que menos daninha, é só a outra face da libertinagem. O correto é avançar com moderação e auto-domínio, coisas um tanto fora de moda num mundo que prega todo tipo de excesso. Não se enganem. Este é o caminho dos que fogem do canto da sereia e, agindo assim, preservam-se das ameaças das paixões. O caminho bom está no centro, como sempre. Se nos dedicarmos com afinco à nossa vocação de seres de luz, o mal não terá poder algum sobre nós.
terça-feira, 6 de julho de 2010
O vórtice maldito e o goleiro do Flamengo
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2 comentários:
Eu costumo afirmar tanto na escrita quanto no dialogo:
- Bandido burro é TODO aquele que nada faz, nada consegue, a não ser por meio da violência.
Pessoas assim, não pensa no obvio:
- Se esta pessoa sumir, alguém vai procurar.
Outros no entanto, conversam, fazem acordo, fazem estratégia para poder ter uma vida dupla, etc e tal.
Concordo plenamente!
Em Brasília, por exemplo, são pouquíssimos os bandidos burros. Por lá, a maioria é inteligente. Como você especificou, os bandidos de lá "conversam, fazem acordo, fazem estratégia para poder ter uma vida dupla, etc e tal".
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