A julgar pelas fotos que a imprensa está repercutindo, a torcida argentina sofreu mais a desclassificação do seu time da Copa do Mundo do que a torcida brasileira. Minha atenção sentiu-se especialmente atraída pela foto acima, sugestiva de uma enorme desilução. Em primeiro plano, um trompetista que só consigo imaginar desafinado e melancólico. Atrás dele, um homem segura o nariz, como se estivesse contendo o choro, sugerindo o sangramento de uma ferida de guerra. Mais ao fundo está outra pessoa sentada no asfalto, acabrunhada e encolhida. Em ambos os lados passam transeuntes contra a luz, escuros como a morte, decapitados como figuras mal assombradas. Um cenário de pesadelo à luz do dia. Orgulhosamente dramáticos, os argentinos fizeram uma tragédia grega de sua derrota para a Alemanha. Inclue-se aí a fantástica intuição do fotográfo que percebeu a intensidade da cena e capturou-a para nós, imortalizando, assim, a dor deste momento.
Reparem como a rua transfigura-se em campo de guerra após uma batalha selvagem. Há pedaços de argentinos para todos os lados. Suas almas foram cruelmente despedaçadas, rasgadas pelo talento de um artilheiro genial ou, melhor dizendo, de um general talentosíssimo - Miroslav Klose - que, de alemão, só possui a camisa. Polaco de nascimento, Klose se aproxima a passos largos do recorde de Ronaldo que, se superado, fará dele o maior goleador das Copas do Mundo. Sob a firmeza de sua atuação impecável, a Argentina foi atropelada impiedosamente, para imensa satisfação de muitos brasileiros. Aqui na minha cidade, por exemplo, estouraram rojões a cada gol alemão. Da minha parte, pode parecer atentado de lesa-pátria, mas preferia uma nação sul-americana nas semi-finais no lugar de uma européia. Resta-me torcer pelo Uruguai, que se classificou ontem jogando contra Gana, ou ainda pelo Paraguai, que joga neste momento contra a Espanha.
De fato, considero notável o fenômeno da Copa do Mundo. Apesar disso, esperava que esta edição fosse menos agitada que as anteriores. Isto não apenas não aconteceu como ainda testemunhamos uma participação popular ainda maior em nações que tradicionalmente não se importam com esta competição, como os Estados Unidos, onde os índices de audiência dos jogos bateram todos os recordes. Seria difícil de acreditar que no mundo descentralizado do Twitter ainda haveria espaço para manifestações exageradas como as dos argentinos. Parece que se deu o oposto. As redes sociais serviram para ecoar com intensidade ainda maior os impulsos despertados pela atuação das diversas seleções. Testemunha-se, de fato, um momento de comunhão global, no qual a humanidade parece especialmente unida em torno da atuação daqueles jovens (e milionários) desportistas. Não deixa de surpreender que seja o futebol a prática sobre a qual se projetem todas estas expectativas.
Imaginem, então, a alegria do time campeão. Aquele que será, após o Brasil, o segundo a levantar a taça de campeão fora de seu continente, pois não há mais nenhuma nação africana participando do campeonato atual. O mundo acompanhará com inveja sem igual o momento de triunfo máximo: a elevação do troféu pelo capitão do time vencedor. Somente os torcedores desta equipe venturosa estarão radiantes, tomados pelo espírito oposto ao que arrasou Buenos Aires hoje. Serão deles os espólios da guerra, as heranças das nações. Pois cabe ao vencedor escolher o que lhe pertence após a destruição do adversário. A Copa do Mundo é, de certa forma, uma rifa da alma, um contrato em que se apostam a honra e o destino nacionais, ou seja, uma brincadeira muito séria, que somente loucos assinam, indiscutivelmente. O que estamos testemunhando é isto: a loucura alçada a estado de espírito planetário enquanto esta competição não acabar, e feridos pelas ruas, aos milhares.
sábado, 3 de julho de 2010
Os espólios da guerra
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