Tenho escrito continuamente que o pensamento é capaz de criar qualquer coisa. Também tenho dito que é o pensamento que cria a realidade objetiva e material à nossa volta, pois sem ele não saberiamos o que é um carro, o que é uma televisão, o que é barra de chocolate. Sem o pensamento não teríamos autonomia nenhuma. Sem o pensamento não poderíamos dizer não à comida quando temos fome. Com o pensamento somos capazes de jejuar por enormes períodos de tempo pelos mais variados motivos. Sem o pensamento defecaríamos e urinaríamos em qualquer lugar. Com o pensamento somos capazes de reconhecer as necessitades do nosso organismo e adequá-las aos nossos padrões culturais. Sem o pensamento não aceitaríamos tomar injeções, tampouco aceitaríamos tomar remédios, quanto mais na hora certa! Com o pensamento aceitamos a dor da injeção. Tomamos remédios na hora certa. Somos capazes até mesmo de permitir que nos amputem um membro sem anestesia caso isto se faça necessário para nos salvar a vida. É o pensamento, pois, que nos humaniza. O entendimento do mundo passa necessariamente pela razão. Sem ela seríamos animais e o mundo não existiria. O céu colorido não está lá porque pensamos, mas sem o pensamento não poderíamos apreciá-lo.
Nem só psicólogos e psiquiatras acham esta questão interessante. Também os artistas se dão a considerá-la, e não é de hoje. Com o advento da psicanálise, a arte ficou indelevelmente marcada pelos questionamentos sobre a mente e seu funcionamento. Afinal, ninguém melhor do que a arte para tentar desvendá-la. Neste particular, mesmo a medicina precisa reconhecer humildemente sua incapacidade, pois ela só é capaz de conhecer o quê os neurônios fazem, sendo a arte o campo que procura compreender os porquês dos neurônios pois, sendo autônomos e capazes de nos auto-determinarnos conforme a livre vontade, nossos movimentos não podem ser previstos. Somos capazes de nos convencer de que somos Napoleão Bonaparte. Somos capazes de, mesmos vestidos, sermos convencidos de que estamos nus. A elasticidade de nossa mente é tamanha que podemos nos induzir à crença de que somos um bule de chá. Um cachorro não é capaz disso. Extraem-se todas as capacidades dele com um pedaço de carne. Por nossa vez, podemos nos recusar a sair da cama ainda que tenhamos o mundo aos nossos pés, como a Imperatriz do Japão, a "princesa triste". Ou ainda, podemos acordar alegres e bem dispostos mesmo que não tenhamos nada.
De fato, o século XX foi riquíssimo de questionamentos sobre a mente humana nas artes. Também o cinema tem-na questionado desde o seu nascimento. Filmes como O Gabinete do Dr. Caligari, ou Limite, demonstram como os meandros das nossas faculdades mentais tanto intrigaram os artistas. Na atualidade, temos um cineasta talentosíssimo como Christopher Nolan dedicando-se à continuidade desta tradição. Nolan, inclusive, teve seu primeiro sucesso cinematográfico com Amnésia que versa sobre o mesmo tema. Com o extremo sucesso da nova franquia de Batman, Nolan habilitou-se a realizar filmes menos convencionais como o estranho, porém fascinante, A Origem, que estreiou sexta-feira passada nos Estados Unidos liderando as bilheterias deste seu primeiro fim de semana de exibição (reportagem aqui). Em sua mais nova empreitada, Nolan colocou Leonardo DiCaprio no curioso papel de "ladrão de pensamentos". Não sei o que isto significa. Tampouco souberam-no os críticos e a maioria dos espectadores que, apesar de não terem compreendido minimamente do que se trata o filme, consideraram-no uma grande realização cinematográfica. Nolan sabe aproveitar muito bem os mistérios da mente.
A mente é, de fato, um grande mistério a ser desvendado. Tudo que lhe diz respeito, ainda que muito difícil de compreender, fascina instantâneamente a todos, pois a todos é comum em sua estranheza e inexplicabilidade. Nada nos faz tão humanos quanto ela, pois somente seres que a possuem são capazes das operações da razão, mesmo as mais rudimentares. Aproveitá-la em obras de arte não apenas tem enriquecido a fruição que fazemos das criações inusitadas dos artistas, como também nos tem ajudado a depreender um pedaço de nós mesmos ao qual estávamos alheios. Isso é especialmente perceptível no cinema, que é uma janela instantânea para quaisquer universos que se podem imaginar. Portanto, revelar o que estava oculto não é objetivo apenas das ciências, pois tudo que torna o homem mais ciente de si próprio enriquece sua percepção da realidade, ampliando o escopo de sua visão. De fato, como somos capazes de criar a realidade através do pensamento, todas as atividades humanas são oportunidades para se conhecer mais a respeito de nós mesmos. As artes são um espaço privilegiado apenas porque este parece ser seu papel na sociedade organizada. Mas não esqueçamos que todos nós o temos feito, queiramos ou não.
domingo, 18 de julho de 2010
Os meandros da mente no cinema
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