Lembra-se daquela grande decepção que você causou?
Aquela que entristeceu tanto os seus pais e,
Principalmente, você mesmo?
Aquela que você fez tanto esforço para esquecer,
Aquela que você odeia quando os outros mencionam,
Convulsionando, assim, secretamente o seu eu ferido que,
Impotente, não consegue superar por si só?
Acredite-me,
Você só não sabia.
Ninguém havia lhe dito que aquilo não se fazia,
Ou que se deveria fazê-lo de outra forma.
Como você saberia
Se, criança, não houvera alguém que lhe ensinasse?
A importância destes eventos é muito relativa.
Não vale a pena carregar o peso de coisas que já passaram.
Deixe-as para a ficção, esqueça-as.
Você precisa dar novo sentido ao que lhe ocorreu
Entendendo de fato a impossibilidade de outra forma.
Apesar de não gostar de respostas prontas, para você, farei exceção:
O que não tem remédio, remediado está.
Eu sei que é fácil falar para mim, que estou de fora,
Se você diz que dói tanto esta ferida, acredito,
Mas veja que você precisa prosseguir.
Tente levar a vida assim mesmo.
Veja como é possível viver apesar deste desconforto.
Se você ficar histericamente olhando a lesão,
Garanto que a dor será maior.
Você precisa focar em outras coisas
Arejando sua percepção do mundo.
Faça outras coisas!
Fechar-se não é solução,
Porque os horizontes são infinitos.
Esquecer não é apenas deixar de lembrar.
Esquecer é não sofrer quando lembrar.
Quem quer realizar, precisar olhar além,
Precisa ver que as dores do mundo não estão todas em si,
E decidir-se pelo melhor.
Tomar a firme decisão de fazer, de encarar, de batalhar.
Ficar o tempo todo remoendo dores passadas não ajuda.
Pelo contrário, atrapalha muito.
Deixar de avançar porque algo não aconteceu como se desejava
É uma atitude de derrota certa.
Caminhe, faça, encontre, vive.
Ficar ensimesmado não é solução.
Quem quer fazer crê.
Crê contra toda suposição, contra toda fofoca.
Crê contra todo preconceito, contra toda malícia.
Aceito que você não sabia, entendo perfeitamente.
Sei que as coisas teriam sido diferentes se você soubesse.
Respeito sua dor. Acredito sim que deve haver um tempo de luto,
Para chorar, para sofrer, para aceitar, para recusar.
Só não aceito dramalhão,
Pois há também um tempo de renascer e, assim, tornar a fazer.
Sei que você não sabia,
Mas, hoje, que você já sabe,
Depois de tantas lágrimas derramadas,
Depois de tanta energia gasta inutilmente,
Talvez tenha chegado a hora de se levantar.
Abrace a parte que lhe cabe, fazendo acontecer.
Seja o que tiver de ser.
Aceite apenas a vitória.
E se você perceber que vai precisar de uma força extraordinária
Saiba que está pelo caminho certo,
Pois você precisa mesmo de toda a ajuda que encontrar.
O que você talvez não saiba é que esta força já está dentro de você,
Agindo agora mesmo,
Impelindo seus pensamentos para uma terra nova,
Apontando para a coragem apenas,
Despertando o seu eu da sombra que lhe era estranhamente conveniente,
Sugerindo uma nova e absurda dimensão,
Oonde você pode e realiza tudo o que quiser,
Pois, lá, o impossível é ficção.
Creia e avance.
Está dentro de ti.
P.S. Você talvez esteja se perguntando exatamente o que é a tal resignificação. Como se poderiam superar eventos traumáticos com a simples força de vontade? Talvez minhas indicações pareçam um pouco exigentes demais frente à alguns problemas terríveis. Como se poderia dizer, por exemplo, a algum sobrevivente do Holocausto que resignifique a brutalidade vivida em um campo de concentração? Não é certo que um sobrevivente de um campo de extermínio está irremediavelmente ferido? Não é certo que ele, caso supere a dor sofrida, tera' sua superação limitada até certo ponto que ele jamais poderia ultrapassar? Ou seja, não é certo que uma dor profunda sempre continuará existindo? Não seria utopia demais da minha parte imaginar que é possível uma resignificação plena e completa de todos os traumas? Não será que penso assim apenas porque sou incorrigivelmente ingênuo? Ora, se a resposta a qualquer uma destas perguntas fosse positiva, tudo o que escrevi no texto acima seria a mais pura bobagem. De fato, seria necessário demonstrar que uma tal resignificação é efetivamente possível. Que tal, então, um videozinho que mostra um senhor sobrevivente de Auschwitz dançando "I Will Survive" em frente aos prédios onde mataram seus pais e amigos? Pois é. É possível resignificar até mesmo os mais traumáticos eventos, dando-lhes uma nova percepção, classificando-os em nossa mente de uma maneira que não nos paralize. À medida que se progride nesta arte inexata, percebe-se que é possível cada vez mais libertar-se de tudo de ruim que sofremos, seja a vergonha por nossos equívocos, seja o mal que nos fizeram. De fato, quem quiser ser verdadeiramente livre tem de tornar-se hábil na arte de resignificar os eventos, dando-lhes o melhor sentido possível. No caso de um sobrevivente do Holocausto, que sentido pode ser melhor do que dizer ao mundo, em alto som, que, apesar de todas as barbaridades sofridas, foi possível sobreviver e, assim, continuar permitindo-se ser exatamente quem se é? Aprendam com este velhinho e dancem diante das tragédias, pois é isto que elas mais odeiam: serem ridicularizadas. As tragédias esperam de você respeito e admiração. Mas se você quer superá-las você precisa desrespeitá-las com todas as suas forças, olhando-as no fundo dos seus olhos ardis e dizendo: "Não sigo suas ordens!"
quarta-feira, 14 de julho de 2010
Um terra nova para pensar
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