É muito interessante a distinção que se percebe entre céticos e ateus; pois ainda que próximos, são grupos muito diferentes. Os primeiros, apesar de em alguns casos serem tão descrentes quanto os segundos, em se tratando de inteligência, são, no geral, muito superiores. Já os ateus são, em sua maioria, pessoas tolíssimas, irrazoáveis ao extremo. Esta percepção não é algo de que me dei conta subitamente; foi através do conhecimento de várias pessoas das duas categorias que cheguei a esta conclusão. Recentemente, tive mais uma ocasião que a confirmasse. Em minha faculdade, no curso de Medicina, há dois professores céticos. Coincidentemente, são ambos neurocientistas; e isso deve ter feito toda a diferença para eles. Ao contrário dos ateus, nenhum deles é dado às típicas frases de efeito estúpidas, como aquela que diz ser a oração somente um meio muito eficaz de fazer nada e achar que está ajudando. Talvez a neurociência tenha ajudado meus professores a ver que, em se tratando de religião, o melhor mesmo é ser comedido. Felizmente, acho que eles deram até mesmo o passo seguinte, reconhecendo as diversas virtudes de crer apesar de terem se mantido céticos. Ouvindo o coordenador atual do meu período, um dos céticos mencionados, pude constatar seu forte senso de realidade. Sem que eu direcionasse minimamente a conversa, ele discorreu sobre certas áreas do córtex pré-frontal, a região do nosso cérebro que recebe fibras de todas as outras áreas e as associa, estabelecendo, nada mais nada menos que a nossa inteligência. Aqueles famosos 1,1 % de diferença entre o nosso DNA e o dos chimpanzés são diretamente responsáveis pela construção deste magnífico edifício de razão e sentido. Pois bem, nesta região há várias outras subdivisões, incluindo uma responsável pelo pensamento altamente abstrato, justamente aquela que mais se acende no cérebro durante um exame de ressonância magnética quando a pessoa está em oração. Essa mesma área anatômica não é por nós utilizada nas superficiais preocupações quotidianas, como escovar os dentes ou assistir televisão. É uma região específica para a oração; está lá no cérebro de todo ser humano, e nenhum macaco, nem o mais inteligente deles, possui algo minimamente semelhante.
Ao contrário do que possa parecer, encontrar um propósito inteiramente biológico para a existência desta área não é minimamente difícil. Precisamos apenas nos lembrar, antes, de que nosso cérebro é um oceano de células secretoras de transmissores dos mais variados tipos: excitatórios, inibitórios ou modulatórios. Também a constituição molecular de cada um deles é bastante variada, havendo desde simples aminoácidos, como o glutamato ou a glicina, como também moléculas protéicas de enorme estrutura como o neuropeptídio Y. Para completar, também os modos de atuação de cada um deles é extremamente variado: alguns abrem canais iônicos para determinados elementos químicos, outros alteram o metabolismo de infinitas maneiras diferentes através dos diversos tipos de proteínas G. Tanto a felicidade quanto a infelicidade são processos psicológicos que dependem completamente dos neurotransmissores. A ausência ou diminuição de serotonina, um transmissor que estimula a sensação de prazer ou satisfação, acarretará em depressão, tanto que para se vencer esta doença o médico receita um medicamento que restaura a bioquímica cerebral do paciente, fazendo com que seus neurônios secretem mais ou aproveitem melhor o transmissor em falta. Da mesma forma, o excesso de um transmissor excitatório poderá levar a um episódio de mania, e assim por diante. Porém, ao contrário do que pode parecer, nós temos uma imensa capacidade de influenciar nossa bioquímica cerebral. Mesmo alguém muito feliz hoje pode se tornar alguém muito miserável em pouco tempo: basta que esta pessoa comece a supervalorizar toda ocorrência negativa de sua vida. Da mesma forma, praticar exercícios físicos é uma excelente maneira de combater qualquer distúrbio mental. E também a oração, porque através dela pode-se induzir a secreção de neurotransmissores causadores de prazer e realização. Ela é como que uma pausa estratégica na loucura quotidiana para a revisão dos nossos objetivos. Melhor ainda, ela dá sentido aos sofrimentos que inevitavelmente vivemos. Imagine uma estação de saúde futurista onde a conexão de um simples eletrodo em nosso cérebro fosse capaz de modificar toda a sua bioquímica positivamente – isto já existe: é a oração.
Percebam então a tolice incomparável de dizer que orar é só uma maneira de fazer nada achando que está ajudando bastante. Ora, o único bem que se pode efetivamente fazer é aquele ao nosso alcance. Deste modo, fazer-se uma pessoa melhor, menos insatisfeita e mais conformada, é o melhor bem que alguém pode fazer ao mundo. E a oração é precisamente este momento privilegiado em que nos fazemos pessoas melhores. A religião é, neste sentido, apenas o conjunto de crenças que leva ao estabelecimento da rede interneural de secreção de neurotransmissores de satisfação e relaxamento. E percebam que estou comentando apenas os benefícios biológicos e mundanos da oração – todo o bem que ela nos causa pela modulação do nosso ambiente cerebral. Havendo, como acredito, um Deus que a escute, então só se pode concluir que a oração é a coisa mais sábia que um ser humano pode fazer sobre a terra, pois todo este bem que realizamos a nós mesmos não seria apenas um fim em si; ele seria estendido ao infinito, participando, dessa forma, de uma rede universal de apoio, consolo e amor. Mas, a julgar apenas pelos grandes benefícios que a oração proporciona a nível individual somente, já seremos obrigados, como pessoas minimamente sensatas, a reconhecer que se trata de algo utilíssimo para cada um de nós individualmente e a nós todos como espécie, pois diversos indivíduos orantes são diversos indivíduos satisfeitos, ao menos consigo mesmos. No que voltamos às diferenças entre as pessoas que se declaram céticas, e as que se declaram atéias. Céticos como meus professores, ainda que não compartilhem dos benefícios de crer, ou ao menos de crer em profundidade, não estão cegos para os benefícios que a crença em Deus traz, pois eles são simplesmente óbvios. Basta olhar para o assunto com um mínimo de objetividade e honestidade intelectual, coisa que os ateus voluntariamente não fazem. O que é fantástico em se tratando de combater as mentiras dos ateus é que fazê-lo é facílimo. Basta desmascarar a ignorância mais superficial e preconceituosa. Tanto que já disse várias vezes, nos textos do marcador ‘Richard Dawkins’ que ateus e religiosos fundamentalistas são apenas faces diferentes de uma mesma moeda de fanatismo, intolerância, desrespeito, preconceito, loucura e, sobretudo, burrice.

5 comentários:
Muito bom henrique! Gostei muito do teu post!
Priscila
Sou ateu e nunca discordei do poder da fé, da oração, da meditação, etc. Mas percebam que ao tentar explicar o poder da fé e da oração os próprios pesquisadores recorrem às causas biológicas e acreditam que essa capacidade humana está ligada a sua evolução. É nesse ponto que quero tocar, o poder da fé e da oração como propriedade humana, não comprova que o objeto da fé, o alvo metafísico da crença realmente exista, vide a diversidade de credos que produzem o mesmo efeito. Como diria Rita Lee: Não acredito em nada não, só não duvido da fé. Abraços!
Isso mesmo Drückgeister. É exatamente isso. Mas qual o problema em explicar o poder da fé e da oração pelas causas biológicas? Se não for por esse método, a outra (única) alternativa seria a experiência psicológica que, por definição, não pode ser comprovada. De fato, sempre achei as alternativas reais mais interessantes, pois não haveria graça alguma em se negar a Deus se ele pudesse ser comprovado. De modo que há liberdade efetiva nesta questão. E isto me parece ótimo!
"Tanto que já disse várias vezes, nos textos do marcador ‘Richard Dawkins’ que ateus e religiosos fundamentalistas são apenas faces diferentes de uma mesma moeda de fanatismo, intolerância, desrespeito, preconceito, loucura e, sobretudo, burrice. "
Essa é a maior retardadice que eu já li. Ateus ajustam seus pontos de vista de acordo com o que é observado, se você, digamos, me apresentar um experimento em circunstâncias controladas que ateste a eficácia da homeopatia, eu vou mudar totalmente minha opinião sobre o assunto. Vou ficar extremamente envergonhado, e vou sair pelas ruas gritando "É UM MILAGRE, A ÁGUA TEM MEMÓRIA", pra quem quiser ouvir.
Religiosos IGNORAM as provas observadas, de modo que a crença possa ser preservada.
João Vitor,
Vejamos se ainda é possível apelar à sua racionalidade...
A questão da religião ocorre em várias esferas do discurso, ou seja, é um problema com diversas dimensões. Se Deus existe ou não é apenas uma das dimensões do problema. De fato, nem considero a mais interessante delas.
Uma dimensão muito mais interessante ao problema da religião é a questão da tolerância e respeito pela diferença. Para mim, a capacidade de um indivíduo aceitar alguém que pensa diferentemente dele revela uma atitude humanista efetiva, de alguém que, conseguindo se colocar no lugar do outro, ainda que incapaz de entender suas razões, faz a opção pelo respeito integral às liberdades alheias.
Neste sentido, não acredito que se possa considerar o neo-ateísmo, liderado por pessoas como Richard Dawkins, um movimento de respeito e tolerância. Pelo contrário, é um movimento extremamente desrespeitoso e intolerante. Agora, perceba, isso não tem absolutamente nada a ver com o fato de se acreditar em Deus ou não. No centro do debate nunca esteve a possível existência de um Deus extra-temporal, mas a capacidade de certos elementos da sociedade contemporânea de praticar a tolerância.
É nisto que ateus e céticos (ou agnósticos) diferem. Pouco importa o que de fato acreditam a respeito de Deus. Importa mesmo o que acreditam serem os direitos individuais e coletivos. É neste ponto do discurso que é possível fazer uma distinção clara entre pessoas verdadeiramente tolerantes e outras, que se valem de seus princípios para semear continuamente o ódio e o desrespeito.
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