Perdi alguns leitores europeus nos últimos dois dias. Acho que é por causa dos textos sobre o fenômeno televisivo Big Brother. Talvez eles tenham considerado tolices o que afirmei sobre o programa. Talvez tenham considerado tolice que um blog dado a comentar coisas tão profundas sobre a natureza humana estivesse tratando de um assunto menor. De fato, eu sabia que nada tem menos apelo intelectual que o Big Brother. Mas há algumas considerações importantes a fazer. Primeiro: como qualquer outra atividade humana, o Big Brother envolve nossas paixões, nosso modo de ser, nossa cultura. Segundo: no Brasil, o Big Brother é muitíssimo menos sacana que na Europa. Aqui o programa seria boicotado se houvesse nudez. Os raros palavrões são ocultados pelo som de um apito. Não se trata, pois, da mesma experiência: são coisas diferentes. Reconheço que se o Big Brother fosse no Brasil da mesma forma que é na Europa eu teria motivos fortíssimos para condená-lo da mesma forma que condeno as filosofias pseudo-científicas da segunda metade do séc. XIX.
O que não significa que eu não tenha motivos para condená-lo do jeito que é. Ou seja, apesar dos textos que escrevi, apesar de ser no Brasil muito menos indecente do que é na Europa, há motivos para não considerar o Big Brother um excelente programa. Ainda que a audiência seja um importante fator para avaliarmos a qualidade de uma apresentação televisiva, os programas que se preocupam somente com ela geralmente são muito inferiores àqueles que privilegiam a qualidade. Tenho tranquilidade para afirmá-lo porque meu programa de tv favorito é Sr. Brasil da TV Cultura. Passa quartas à noite. Recomendo. Só não posso deixar de reconhecer, pelas características já elencadas nos outros textos, que o Big Brother, ao menos na forma como é apresentado no Brasil, é uma janela para o entendimento da realidade social. Foi neste sentido que decidi abordá-lo. Não se tratou, pois, de recomendar que fosse assistido. É certo que não sou muito metido a intelectual, ao menos não tanto quanto os meus textos devem transparecer, mas ainda não cheguei a este ponto de leviandade.
Que os leitores do blog estejam, pois, informados que eu continuo apreciando as coisas certas: a alta cultura, a inteligência, a veracidade, a honestidade, etc. Isto apenas não significa que eu esteja fechado em um castelo de maravilhas enquanto a vida corre lá fora. Pelo contrário, é porque estou no meio da vida, familiarizado com os problemas contemporâneos, principalmente com as filosofias que desejam a destruição do homem, que escrevo. Meu desejo é denunciar as tentativas de desnaturalização da nossa essência imutável; aquilo que nos constitui. O que talvez tenha parecido a todos insólito e, de certa forma, até mesmo a mim, é que o Big Brother seria muito útil no diagnóstico desse problema. Com a solicitação de um Big Brother canino pretendi revelar como não podemos deixar de ser humanos em momento algum. Tanto é assim que um Big Brother animal seria ridículo - não teria nenhuma emoção. Abandonados à própria sorte os cães ficariam deitados o dia inteiro, esperando alguma máquina de comida alimentá-los. Não haveria aquela sorte de dispustas que torna o programa em questão emocionante.
São, pois, aquelas características muito humanas (a mentira, a politicagem, a sinceridade, o caráter, etc.) que tornam o programa atraente. Gostem ou não, estejam vocês convencidos ou não de que somos somente animais, fato é que só seres humanos possuem estas qualidades. Somos diferenciados em relação a todo o mais na natureza. A nossa natureza é ser humano. Essas características são partes indissociáveis da nossa essência. São partes constitutivas do nosso ser, daquilo que nos faz humanos. Pretender ignorá-las é um equívoco gigantesco, uma subversão, mau-caratismo ideológico. Portanto, não estejam achando que o nível do blog caiu. Apenas não me negarei a utilizar quaisquer argumentos que por ventura considere adequados à demonstração dessas verdades, ainda que seja algo da profundidade filosófica do Big Brother. Onde quer que haja uma pessoa lá estarão todas as características comuns a todos os homens.
sexta-feira, 29 de janeiro de 2010
O Big Brother como janela para o mundo
quarta-feira, 27 de janeiro de 2010
Big Brother Brasil - uma prova de caráter
Muitos intelectuais metidos a besta gostam de desdenhar do programa Big Brother Brasil. Para eles, somente pessoas muito desqualificadas intelectualmente se interessam por este programa. Gente inteligente como eles não assistiria tamanha bobagem. Admito que também já pensei assim. Enquanto estava na faculdade adorava desdenhar dos colegas que contavam as últimas novidades do BBB. Tanto é assim que só fui assiti-lo na sua quarta edição. Foi como um prazer secretíssimo, o qual jamais revelaria a ninguém, afinal, o que é que poderiam pensar de mim se soubessem que eu estava assistindo o Big Brother Brasil? Então, cresci. Hoje, estou me lixando para a opinião dos outros, especialmente dos intelectualóides de plantão: essa gente sórdida que vive de policiar o pensamento e a opinião dos outros. Tanto é assim que escrevo aqui o que me dá na veneta, e tenho especial predileção por desvendar os intentos totalitários das "pessoas inteligentes". Se fosse por eles teríamos muitas outras guerras mundiais. Por isso odeiam tanto a democracia, por que se há de ouvir a maioria quando somente a opinião dos "inteligentes" basta?
O Big Brother é um fenômeno democrático. As massas acompanham-no com grande interessante. Será que seus espectadores são mesmo uns inúteis a desperdiçar preciosos minutos que deveriam ser investidos em coisas mais úteis como as sinfonias de Mahler? Qual é, pois, o apelo do Big Brother Brasil? Já faz um tempo que gostaria de escrever a minha opinião. Sei, porém, que esta é uma seara complicada, pois muitos intelectuais de renome já procuraram explicá-lo. Sempre que li "textos sérios" a respeito do Big Brother notei que seus autores procuraram ressaltar o aspecto sórdido em preocupar-se conhecer a intimidade alheia. Eles afirmam que é pelo prazer mesquinho de ver os outros sem se saber visto que o Big Brother têm tanta audiência. Não acho em absoluto que seja este o seu maior apelo. Além do mais, que há de mesquinho em querer saber como os outros são? Não é assim que agimos a todo instante? Afinal, é através da observação dos outros que planejamos a forma com a qual agiremos no futuro. Ou somos todos grandes mestres da originalidade? Não há nada de mal em querer ver como outras pessoas agem em determinadas situações. Quem nunca achou graça em ver o que diz um marmanjo atrapalhado quando quer levar ao beijo uma mulher maravilhosa?
O charme do Big Brother se deve, na verdade, a um outro motivo. Antes de revelá-lo, preciso demonstrar que ocorre neste programa o surgimento de um herói. Através de provas e desafios o público vai conhecendo como são cada um de seus participantes. Através de um sistema de eleição, excluem-se aqueles que não são interessantes. O público valoriza características que são universalmente positivas: retidão de caráter, veracidade, honestidade, sinceridade, simplicidade, bom-humor, beleza, etc. Que mal há em se chamarem boas coisas que efetivamente o são? Há, porém um problema: para conhecermos alguém em profundidade, para sabermos se são mesmo boas pessoas, não basta vê-las quando estão alegres. Todo mundo é agradável nestes momentos. Para efetivamente vermos do que uma pessoa é capaz precisamos ver o que ela faz quando sofre. Chegamos ao ponto do real interesse do programa: para se eleger a pessoa mais interessente, aquela que possui os melhores atributos, é preciso que os todos os participantes sejam testados nas mais diversas situações. E que prova é mais complicada que a avaliação de como nos relacionamos com os outros? Não há desafio que melhor revele o caráter das pessoas do que aqueles onde se exige trabalho em equipe e negociação.
Portanto, não é à toa que sempre se procura levar os participantes do Big Brother ao confronto. O que pretendiam os produtores do programa quando obrigaram seus participantes a retirar xingamentos de uma tigela e atribui-los uns aos outros? É evidente que pretendiam levá-los à animosidade. Se quisessem levá-los a um estado de paz e harmonia dariam-lhes uma tigela com elogios carinhosos, mas que audiência isso daria? Será que estaríamos interessados em ver um monte de gente feliz se amando? O que de interessante poderíamos aprender com isso? Não é verdade que se o programa fosse um mar de rosas seria impossível conhecer o caráter dos participantes? É porque só conhecemos as pessoas no meio das dificuldades que o programa precisa incitá-las às disputas e aos confrontamentos. Todo mundo sorri diante de uma ocorrência feliz, porém é mais nobre aquele que sofre com dignidade as provações. É assim que o público toma conhecimento da fibra moral dos participantes do programa. Baseando-se, então, nessa impressão, seja ela falsa ou não, vota-se pela saída dos concorrentes chatos e protege-se os bacanas. A arte de fazer o Big Brother resume-se, portanto, em favorecer disputas e briguinhas entre tipos vaidosos, egocêntricos e estourados. O Big Brother é, de fato, uma janela para as mesquinharias de que o ser humano é capaz.
A estúpida presunção de um psicólogo determinista
Ouvi algumas vezes de um psicólogo que grande parte dos homens que frequentam seu consultório o fazem em razão de traumas ligados a abuso sexual. Para ele, recém-formado, aquilo era uma grande surpresa, pois nunca imaginou que as queixas de pacientes corriqueiros seriam tão dramáticas. Tivesse ele me dito apenas isso, ainda que muito tristes as razões que levam vários homens ao psicológo, suas frases não seriam mais que produto de uma óbvias constatações. Ocorre que geralmente os psicólogos gostam de exceder o óbvio, emitindo juízos espetaculares sobre a alma humana.
Pois aconteceu, alguns meses depois, de o mesmo profissional me dizer, desta vez de modo bastante apaixonado, que toda a vítima se torna agressor. E que a primeira fonte formadora de abusadores sexuais é o abuso na infância. Ainda que psicólogo, ele demonstra com essas afirmações ser adepto de uma matemática psiquíca um tanto simplista. Como pode um profissional que atende várias vítimas de abuso sexual na infância considerar que todos os abusados se tornam abusadores? Por acaso todos os seus pacientes estupram crianças e ele se esqueceu de me contar? Como é que pode um psicólogo não perceber o imenso absurdo destas afirmações? É óbvio que isso é verdade ainda que todos os abusadores tenham sido abusados, pois nem todos os abusados desenvolvem atração pela maldade. Ou seja, ainda que seja fundamental um histórico de violência sexual na criação de um abusador, nem todas as pessoas abusadas são más ao ponto de se permitirem realizar uma crueldade dessas quando adulto - tanto é assim que procuraram o auxílio de um psicólogo.
Imaginem a falta de generosidade, o raciocínio turvo, estúpido, de um psicólogo que, mesmo tendo vários clientes abusados, se permite a conclusão absurda de que todos os estuprados tornam-se estupradores. Não é de se surpreender que profissionais bem estabelecidos no mercado sejam capazes de dizer absurdos deste tamanho? Pior. Este profissional que estou mencionado é indicado por vários de seus ex-professores. Tivesse sido meu aluno, esse infeliz não receberia uma só indicação de clientes de mim.
Portanto, tomem muito cuidado com psicólogos. Esta história é só para demonstrar o grau de absurdo de que são capazes. Duvide, sim, do seu psicólogo. Questione-o. Procure saber as coisas nas quais ele acredita. Ponha-o à prova. É você que está pagando. Não tenha receio de procurar outro profissional se o que te atende no momento é estúpido. Não se sinta preso às opiniões de uma só pessoa. Quando efetivamente não estão comprometidos com o melhor dos seus pacientes, preocupando-se antes com as próprias opiniões, os psicólogos são capazes dos maiores absurdos. Não seja você vítima da falta de profissionalismo destes covardes que se aproveitam das fragilidades alheias.
Big Brother Brasil 11 - edição canina
A mídia impressa gosta de comentar o suposto grande apuro no qual se encontra o Boninho, diretor do Big Brother Brasil. Nunca a audiência está boa, o programa vive de uma fórmula esgotada, os participantes são antipáticos - sempre as mesmas críticas. Talvez esta gente se supreenda que o Big Brother esteja em sua décima edição. Afinal, se ele é tão ruim quanto dizem, já deveria ter sido cancelado. Porém, a fórmula que esses jornalistas de meia-tigela consideram batida continua hipnotizando os brasileiros, atraindo, assim, grandes e importantes anunciantes.
Mas imaginemos um cenário hipotético onde eles, os críticos, estivessem certos: o BBB 10 naufragando porque os espectadores já lhe desvendaram completamente a fórmula. Fosse esta a realidade gostaria de dar o seguinte conselho ao Boninho e sua equipe: façam uma edição canina do BBB 11. Isso mesmo. Substituam as saradas e os fortões por schnausers e pit-bulls. Coloquem alguns yorkshires para deixar o programa mais "colorido" e voilà! Imaginem o sucesso que este programa faria! Estou empolgado enquanto escrevo este texto. A edição canina do BBB seria um tremendo sucesso!
Imaginem as intrigas, as fofocas, os conluios, as traições e, sobretudo, a tristeza do pobre eliminado enquanto é conduzido para fora do canil mais famoso do Brasil por ter sido o mais votado no "paredão". Imaginem como o coitadinho uivará melancolicamente por ter perdido a empolgante disputa por um milhão de ossinhos. Realmente é uma tragédia que eu não tenha percebido antes como os cães são parecidos conosco. Só mesmo alguém tão retrógrado e reacionário como eu para não ter se dado conta antes de que um cachorro é quase um ser humano.
Agora sim estou convencido de que o ser humano é mesmo um animal como outro qualquer. Prova disso serão os estratosféricos índices de audiência do BBB 11 - edição canina. As famílias todas se colocarão diantes dos televisores. Os telefones não pararão de tocar. A adrenalina correrá a mil. Será o show mais empolgante da história da televisão brasileira. Imaginem a emoção de espiar em primeira mão aquela fungadinha esperta no rabo da coleguinha? Anotem aí o que estou falando. O BBB 11 - edição canina levará todos às lágrimas com seus grandes e eletrizantes acontecimentos. A TV mundial nunca mais será a mesma.
terça-feira, 26 de janeiro de 2010
A evolução de um personagem e o seu desmascaramento
Fiquei impressionado com a profundidade psicológica dos personagens da série House quando a conheci ano passado. Naquele momento, o Universal Channel Brasil transmitia os episódios da quinta temporada com um pequeno atraso em relação aos EUA. O texto escrito para House estava absolutamente impecável. Quando vi Hugh Laurie interpretando-o mal percebi o trabalho do ator. Quem já viu um set de filmagens sabe que há aparelhos de iluminação para todos os lados. Além disso, só ao redor dos aparatos de captação, ou seja, da câmera, costuma haver umas quinze pessoas. Isso em toda e qualquer filmagem. Imaginem uma grande série americana de orçamento de muitos milhões de dólares. Aquele hospital da série é montado todo em estúdio, nos mínimos detalhes. Nada ali é real. Ainda que médicos colaborem durante a redação dos roteiros, não há médico algum no momento das filmagens - pelo menos é o que se informa nos créditos finais. Para dificultar ainda mais o trabalho do ator (se é que sua performance já não fosse extremamente atrapalhada pela multidão que o cerca e pelo imenso aparato técnico) cada uma das cenas são feitas separadamente. Ou seja, de acordo com a disponibilidade de atores, figurantes, equipamentos, etc., filmam-se as cenas de modo não linear. Isso significa que é feita a gravação de cenas do fim do episódio junto a cenas do seu início. É impressionante que, apesar dessa grande confusão logística, certos atores consigam atingir as raias da genialidade em sua arte.
Porém, sempre sofri com a dúvida em relação à qualidade da primeira temporada. Como cineasta, soube perceber que aquela qualidade que eu estava observando na quinta temporada era resultado de um longo processo, ainda mais porque se trata de televisão. Para que a construção do personagem House estivesse tão afinada (utilizo o termo com quase o mesmo sentido com que é utilizado em música) foi necessário que o texto sofresse alterações EM FUNÇÃO DA INTERPRETAÇÃO DO ATOR, ou seja, em função do modo particular com que Hugh Laurie o encarava. Era evidente, portanto, que na primeira temporada os talentos ainda não estariam "azeitados" entre si: o texto não se encaixaria com perfeição à forma e ao tom que Laurie estava dando ao personagem. Estou dizendo que, por se tratar de uma série de longa duração, foi possível os seus produtores e roteiristas adaptarem-na de modo que a interpreção de Laurie fosse ainda mais verossímil - é o que se testemunha na quinta temporada da série. O mesmo ocorre nas telenovelas brasileiras: adapta-se o texto de um personagem conforme o tom que o ator lhe confere. No cinema as coisas se dão de forma completamente diversa: quando se iniciam as filmagens já se sabe com exatidão o que deverá ser captado para o início, meio e fim do filme. Ou seja, nunca se altera o texto de um personagem em função da interpretação do ator, salvo, evidentemente, as raríssimas excessões (geralmente comédias que, por serem mais leves, comportam mais improvisações).
Dito e feito. Tomei um grande susto quando assisti à primeira temporada da série. Hugh Laurie parece enrijecido. Apesar de ele ser um excelente ator, como sabemos com exatidão pela quinta temporada como é a personalidade de House, a sua depedência de um texto ainda pouco maleável faz com que sua interpretação fique endurecida - isto se revela até mesmo fisicamente: sua postura corporal, seus traquejos de mãos, seu pescoço, está tudo duro, como se ele ainda estivesse pouco à vontade no papel. Evidente que jamais perceberíamos isso se não houvesse a quinta temporada. É justamente porque a forma como se encarava o personagem House evoluiu que podemos perceber como ele ainda estava em fase embrionária durante as gravações da primeira temporada.
Percebi então uma coisa da mais alta importância enquanto assista à primeira temporada. Já que estava evidente como todos os personagens ainda não haviam chegado ao seu correto grau de maturação, ficou mais fácil a identificação de uma das mais sérias observações feitas pelos estudiosos das obras audio-visuais: a participação do público espectador na criação mesma da obra. Já escrevi isto em algum outro texto do qual não me lembro agora: sempre que assistimos um filme é como se ativamente mergulhássemos na ilusão que foi para nós preparada. O cineasta russo Serguei Eisenstein sempre gostava de ressaltar que, através da montagem, é possível criar a ilusão mental de um terceiro elemento que não está nem no primeiro plano, nem no plano seguinte. Ou seja, a mente do espectador cria um símbolo mental entre diferentes planos. Conforme as diferentes mentes, serão diferentes entre si as imagens mentais criadas por cada um. Portanto, quanto maior a profundidade da ilusão, maior o susto sentido quando a mesma é quebrada. Porque na quinta temporada tudo estava tão perfeito foi possível perceber melhor os truques utilizados quando a série ainda estava se estabelecendo. Em cinema e televisão nada é o parece.
domingo, 24 de janeiro de 2010
Nascimento e uso da hipérbole
Infelizmente este é um blog onde, de vez em quando, faz-se necessário o uso do dicionário. Imagino estar escrevendo para pessoas inteligentes. Que graça teria escrever para pessoas que mal pudessem compreender um vocábulo um pouco mais sofisticado? Utilizo palavras de maior erudição sem grandes preocupações, pois espero que os leitores sejam daquele tipo antigo de gente que ainda tem dicionário em casa. Tudo isso para justificar a escrita de uma palavra como hipérbole sem que me doa a consciência. Para os preguiçosos, desta vez farei uma exceção. Hipérbole, segundo a rubrica Estudos de Linguagem do Aurélio, é o seguinte: "Figura que engrandece ou diminui exageradamente a verdade das coisas; exageração, auxese." Conforme afirmado no texto anterior, até mesmo o tradutor de Nietzsche para a Companhia das Letras concorda que ele é um grande exagerado. Para mim, ele o é porque, tendo relativizado o conceito de verdade, acredita-se no poder de escrevê-la conforme bem lhe parecer. Recorre à hipérbole como alguém profundamente desesperado, possuído por um destempero e um desequilíbrio ímpares. Será que o fez porque sabia que argumentos eram inúteis para vencer a disputa que tanto procurou travar?
Parece-me que sim. Nietzsche sabia perfeitamente que seria impossível demolir mais de dois mil anos de filosofia com argumentos, simplesmente porque o edifício sobre o qual ela se assenta é deveras sólido. Portanto, ele não teria argumentos capazes de superar a questão metafísica, como ninguém mais os têm. Para se superá-la é preciso negá-la por completo. Portanto, ele foi extremamente esperto em refutar toda a razão e ciência. Dado que ambas são resultados dos questionamentos anteriores, negá-las era fundamental para a superação dos seus paradigmas. Não é à toa que pessoas razoáveis e sábias não sejam afetadas pela sua retórica. Ele fala aos desesperados que não podem suportar o mundo. De fato, seu discurso mirava a todos e a ninguém, como ele próprio admitiu. Aliás, não existe autor mais ressentido por ser ignorado que Nietzsche. Como ele mesmo escreveu, sua intenção era tornar-se um novo Cristo, fundador de uma nova humanidade, assentada somente sobre as necessidades imediatas e que refutasse qualquer premeditação e qualquer além. Muito contraditoriamente ele admitiu que o homem sofre porque está entre o animal e o além-homem.
Não sei bem se antecederam-se a Nietzsche muitos outros autores conhecidamente desequilibrados que se tornaram notáveis. De qualquer modo, parece-me que ele foi o melhor tradutor do espírito romântico decadente do fim do séc. XIX. Sua influência neste particular parece enorme. É da mente nietzschiana que parece ter saido o recente costume ocidental que considera gritinhos histéricos a mais eficaz arma retórica. Combatendo a filosofia da cabeça, Nietzsche inaugurou uma filosofia do estômago - não nos surpreende, pois, o seu "produto". Brota da sua mente o estilo que culmina nas análises bíblicas de Richard Dawkins. A este basta chamar o Deus do Antigo Testamento de assassino da pior espécie para considerar o seu ponto de vista bem defendido. Sim, ambos se encontram na superficialidade argumentativa do exagero desequilibrado e louco. Que mais se pode dizer de um estudioso que ignore por completo o que está dizendo? Oras, se não é louco é imbecil. Tanto Nietzsche quanto Dawkins são espíritos atormentados pelas verdades que desesperadamente tentam negar. Dawkins, porém, ainda tem um grande caminho a percorrer até atingir a "eficácia" nietzschiana. Por enquanto, ele só sabe imitar com perfeição os gritinhos afetados de horror.
A hipérbole nasce, pois, de uma insatisfação muito grande, de uma repulsa a tudo o que existe ao redor daquele que a utiliza com frequência. Argumentos não servem a quem odeia tudo o que o circunda. O insatisfeito, o revoltado, precisa de gritos. Palavras não lhe são suficientes. Em seu desespero, seu desejo não é convencer alguém de coisa alguma. Antes deseja agarrar-nos pelo pescoço e sacudir-nos com o seu arrazoado sem juízo. Conforme afirmei no texto anterior, só caem nessa aqueles muito despreparados e ingênuos, cujas mentes fracas são facilmente moldadas pela gente mal-intencionada. O reflexo imediato da gente normal, bem formada, é dar um empurrão no infeliz que aperta nossa garganta. Infelizmente parece indício muito sério de desequílibrio de ideias a utilização excessiva desta figura de linguagem. Quanto mais ela é utilizada, e quanto maior for a intensidade de suas colocações, mais certos podemos estar do destempero de quem a utiliza. Neste particular, é evidente que Nietzsche é muito mais louco que Dawkins, mas isto não livra a cara do biólogo em absoluto. Falta-lhe o impossível para demonstrar estar certo: induzir todos a uma exegese irregular e incompleta dos textos bíblicos, coisa que nem Nietzsche pretendeu - só assim para se convencer de que o desejo de Deus é a guerra, a morte e a destruição.
A crítica nietzschiana aos textos sacros é radicalmente oposta a de Dawkins, pois considera faltar-lhe sangue e sobrar covardia da parte dos israelistas. Nietzsche odeia que David tenha orado pelo seu inimigo séculos antes de Cristo - o arrependimento do grande rei por ter assassinado um general do seu exército para desposar sua esposa, então, é considerado por ele o ato mais degenerado da Bíblia. Para Nietzsche esta é a maior degradação do ser humano: a preocupação com os outros - esta seria a maior forma de auto-destruição disponível. Ele só considera plenamente humanas as preocupações com a própria sobrevivência. Estranho é que, apesar disso, o cristianismo se tenha tornado o maior sistema religioso da humanidade - afinal, se é "contrário à vida", se tudo a que se presta é a "corrupção do humano" como é que possui tantos adeptos, e em seu interior se tenha gestado a mais avançada civilização já testemunhada por este mundo? Se era "contrário à vida" deveria, antes, ter destruído os seus seguidores. Como Nietzsche não tem resposta a isto, é forçado a dizer que o cristianismo mata o homem por dentro - se é que isso signifique alguma coisa. De fato, é triste perceber que o exagero e a afetação são as únicas armas linguísticas que restam àqueles que insistem em negar as verdades elementares.
A vaidade intelectual de um tradutor consciente
Caiu-me às mãos um exemplar de Além do bem e do mal, de Friedrich Nietzsche. Jamais gastaria meu precioso (e pouco) dinheiro numa besteira dessas, mas, de graça, até Código da Vinci já li. É que sou contra dar dinheiro à gente que fica disseminando estes enganos que tanto mal causam. Curioso que sou, comecei a ler o livro. Há na edição a que tive acesso diversas notas do tradutor, Paulo César de Souza, um professor doutorado pela USP, marcadas pelo conhecido recurso numerativo. Acabei considerando suas notas de tanto valor que logo li o seu posfácio, onde procura explicar o que o livro lhe parece. Suas colocações pareceram-me muito mais interessantes que o texto nietzschiano, a cujos recursos linguísticos e argumentativos já estou familiarizado. Com grande frieza, ele destrincha a principal figura de estilo utilizada por Nietzsche, a hipérbole:
Há uma certa distância - exemplificando - entre afirmar que viver implica necessariamente enxergar a realidade de uma perspectiva, privilegiando ou excluindo partes dela, e dizer que "fantasiamos a maior parte da vivência e [...] somos, até a medula e desde o começo, habituados a mentir". Uma coisa é enfatizar que afetos como ódio, inveja, cupidez e ânsia de domínio pertencem irrevogavelmente à vida psíquica, e outra concluir que devem ser realçados, "se a vida é para ser realçada".
Isso mesmo, o tradutor afirma que Nietzsche defende que o ódio, a inveja, a cupidez e a ânsia de domínio devam ser realçados pelo simples fato de que existem. Perdê-los seria como perder uma parte "importante" da vida. Por essas vocês podem começar a intuir como seria o mundo idealizado por este lunático. Para minha grande surpresa o tradutor faz afirmações ainda mais surpreendentes sobre o livro:
Certas páginas dele constituem o mais veemente libelo contra tudo o que nos habituamos a ver como privilégios e conquistas da modernidade: a democracia liberal, o senso histórico, a objetividade científica, a igualdade de direitos, a igualdade entre os sexos.
Nada muito diferente do que costuma aparecer nas páginas deste blog - estas são constatações apenas óbvias. O problema é que Nietzsche é tão romantizado pelos seus admiradores que geralmente os que não o compreendem acham se tratar de um gênio mal compreendido. Por conta disso, muitos são inocentemente induzidos à leitura de sua obra quando o sensato seria ignorá-la por completo. Procurar lê-lo sem iniciamento filosófico é, portanto, obra de imaturos e ingênuos, gente naif, cujas mentes são facilmente lideradas pelas doces palavras de efeito dos "formadores de opinião". Nietzsche é um homem terrível, uma pessoa que acreditava no mal, tanto é que procurava incentivá-lo nos outros. Não sem motivos, precisava induzir à falsa conclusão de que não há verdade alguma.
Sendo este o estado da situação, por que alguém se daria ao trabalho de traduzi-lo? Ainda mais alguém ciente de que se trata de obra puramente retórica? Desconfio que por prestígio. Quem não gosta de saber-se capaz de traduzir do alemão para o português alguns dos textos mais intricados disponíveis? Ou seja, a responsável é a vaidade intelectual. Fosse mais aguda a percepção do tradutor, estivesse ele mais ciente do mal que a leitura de Nietzsche costuma provocar não se dedicaria à tão árdua tarefa. Ao menos foi honesto em reconhecer que nada do que vai ali se baseia na sã razão ou mesmo em algum justo juízo da realidade, mas quê é isso diante da perspectiva de ganhar alguns trocados?
sábado, 23 de janeiro de 2010
Ainda sobre as tentações totalitárias
O texto imediatamente anterior a este, A maçã-do-amor e o cientista, é, provavelmente, o mais importante publicado até agora neste blog. Através de um pequeno exercício de futurismo (a suposição de que uma perfeita máquina medidora de emoções pudesse ser inventada) demonstrei que a importância que damos as coisas está um juízo da realidade que nada tem de material. São em atos de pura vontade, independentes de determinismos de quaisquer tipos, que o homem manifesta com maior propriedade as suas qualidades e idiossincrasias. Com ele, pretendi respondidas certas suposições levantadas em alguns círculos intelectuais de que a mente humana nada mais é que um subproduto da evolução das espécies. Assim fosse, é razoável supor que não haveria mais sobre a terra um só psicanalista, pois caso a mente humana fosse um apenas um emaranhado de interrelações cognitivas, a psicanálise como um todo estaria descartada - não somente não haveria o inconsciente tal como descrito por Freud, como também a vontade estaria determinada por experiências anteriores. Ou seja, aquele texto demonstra o equívoco em se negar a existência da mente, que, ao invés de conduzir nossas atitudes como uma intrincada resposta matemática independente de uma vontade, é operada livremente conforme a consciência e o juízo moral de cada um.
O ponto de vista de que a mente humana depende exclusivamente de estímulos anteriores em cada uma de suas resoluções é inconciliável com a psicanálise e as psicologias modernas, que acreditam em liberdade nas operações mentais. Analisando a questão específica da psicanálise, caso a ideologia de que a mente é apenas o resultado de uma conjungação de átomos prevaleça, não sobraria pedra sobre pedra do seu gigantesco edifício, pois um dos seus mais importantes pilares é a premissa de que, em nosso interior, há uma vontade libérrima, consciente e autônoma, dependente unica e exclusivamente de um eu solitário, insondável e absoluto. Tanto é assim que a única psicologia auto-proclamada científica, a comportamental, refuta as considerações freudianas chamando-as mentalistas, dado que ela sequer trabalha com a hipótese de que a mente exista. Para a psicologia comportal as sinapses e os neuro-transmissores sozinhos são capazes da criação de um intelecto, tanto é que um de seus fundadores, Watson, gostava de repetir a seguinte frase retórica: "Dê-me uma glândula, um músculo e um nervo, e eu te darei um espírito."
O problema é que não somente a psicanálise como também as várias outras psicologias mentalistas gozam de farta saúde no momento. Não convém nos esquecermos de que a psicanálise é o primeiro grande sistema científico para a compreensão da mente humana - não se baseia, portanto, em ideias religiosas e/ou supersticiosas infantis. Se todas as nossas operações são respostas imediatas e impulsivas aos estímulos baseados em experiências anteriores a vontade livre não existe. Há que se mencionar que nem a psicologia comportamental acredita nisto. De fato, o único grupo de intelectuais que considera a mente o resultado de certas configurações entre átomos é o dos darwinistas, para quem toda a experiência humana se resume a arranjos moleculares, como se isto já não fosse uma ideia, ou seja, algo imaterial criado pelo intelecto. Não estou pretendendo negar com estas afirmações que várias de nossas atitudes sejam reflexos menos complexos ligados, de certa forma, à padrões cerebrais menos evoluídos - ninguém faz o próprio coração bater. É certo que diversas das nossas atitudes são reflexos involuntários, ou seja, resquícios animalescos - mas não todas as nossas atitudes. Tanto é assim que nossos batimentos cardíacos podem ser acelerados com a emoção despertada por uma obra de arte.
Para existir plenamente, a vontade humana tem de ser livre para se contradizer, para contrariar os primeiros impulsos criando coisas originais, que jamais existiram - coisas que tiveram uma existência mental anterior ao seu posterior desenvolvimento material. Se não existissem antes na mente como é que poderiam ser desenvolvidas posteriormente? Oras, como algo pode surgir na mente? Por essas dificuldades todas não incorro em injustiça alguma ao dizer que aqueles que ignoram a mente humana não passam de charlatões ignorantes e prepotentes. Como já afirmei tantas vezes, ao se colocar o ser humano como objeto de um estudo é necessário levar em consideração todas as suas faculdades. Lembrar-se de algumas e esquecer outras não passa de estupidez, ou ser-vergonhice mesmo. Quando se privilegiam certos aspectos humanos em detrimento de outros o que geralmente se pretende é conduzir o leitor ao erro, empurrando-o na direção de uma ideologia incompleta. Trata-se, portante de uma coisa de gente mal-intencionada e, por que não dizê-lo?, cafajeste. Notem que posso afirmar tudo isso sem adicionar sequer um novo conceito em relação ao texto anterior. Estou me limitando a explicá-lo em toda a sua profundidade argumentativa.
Somos nós os únicos a dar profundidade e sentido aos acontecimentos ao nosso redor, julgando-os, categorizando-os, explicando-os e, infelizmente, até mesmo negando-os, pois somos livres para utilizar o nosso pensamento com a intenção deliberada de negá-lo, diminuindo-nos, com isso, ao grau dos seres irracionais. O ponto de vista segundo o qual o homem não passa de uma animal qualquer é, portanto, ideologia barata pseudo-científica - já que procura explicar certos fenômenos ignorando todas as suas variáveis. Serão verdadeiramente científicas as tentativas que considerem todos os fenômenos humanos em toda a sua extensão. Afinal, que dizer de uma fórmula que ignore uma variável? Seu destino é merecidamente a lata do lixo. Só continua resistindo a tentativa de rebaixamento do homem ao grau animalesco porque se pretende, com isso, justificar o irracionalismo - como se não tivesse sido a razão a legar-nos o mundo espetacular em que vivemos. Não é de se surpreender que até mesmo a arte seja influenciada - bem o demonstram as maluquices do séc. XX que ainda hoje nos deixam perplexos. Ou seja, a arte moderna é reflexo do estado de confusão mental criado pelas ideologias que pretendem desumanizar o homem, reduzindo o verdadeiro alcance de todas as suas experiências.
Por tudo isso, imaginem, pois, a estupidez de um sujeito que, apesar de desconhecer por completo a psicologia, arvore-se em doutor da mente humana apenas porque aprendeu no ensino médio as pressupostos da seleção natural. Qualquer coisa que alguém com tão parca formação humana escreva sobre o pensamento será um arrazoado imbecil, lamentável e vergonhoso - um vexame do qual deveria ter se poupado. O problema é que os piores tipos, os mais virulentos e arrogantes, se aferram à teoria darwiniana como um modelo completo de compreensão da vida. Por tudo escrito neste e em outros textos, não nego que se possa aprender muitas coisas úteis com os escritos de Charles Darwin. O erro colossal está em querer utilizá-la na explicação de fenômenos que ela claramente não comporta. O que a mim mais impressiona é o ódio que essa gente destila por hábito. Nunca vi tipos piores que estes. Trata-se das pessoas mais abomináveis que jamais conheci - os tipos mais obtusos, estúpidos e odiosos. Portanto, não é coincidência que em nome de interpretações absurdas da teoria de Darwin se tenha pretendido a aniquilação completa de diversos grupos étnicos. Estou dizendo claramente que todos aqueles que negam o humano em toda a sua profundidade são assassinos potenciais, pois, relativizando a vida humana, diminuindo-a à condição animal, consideram possível se dispor dela como bem entender.
A ideia de que a vida humana é nobre e precisa, consequentemente, ser preservada, é privilégio de todos os que a analisam em toda a sua extensão. Não é, em absoluto, um fenômeno restrito àqueles que professam alguma fé religiosa. Essa é só mais uma das mentiras que os darwinistas contam para trazer para o seu lado da disputa os não-religiosos pois, estando a defesa da vida restrita aqueles que têm religião, todo o mais estaria obrigado a relativizar o ser humano aderindo, assim, à ideologia que pretende relativizá-lo dispondo dele conforme as necessidades de cada circunstância. É inevitável a percepção de que muitos dos leitores do biólogo Richard Dawkins se encaixam perfeitamente nesta descrição. Mais uma vez não é coincidência alguma que, em sua grande maioria, eles sejam adeptos da ideologia abortista e revolucionária. Quando não se acredita que o ser humano é importante, logo imagina-se poder se dispor dele de qualquer forma pois, anulando-se qualquer absoluto, restam-se apenas relativismos. Reafirmar, pois, a nobreza do homem, seu estado superior na natureza, faz-se extremamente necessário nos dias atuais. Ainda que não possamos compreender com exatidão o porquê somos diferentes de todo o mais não podemos negar este dado evidente. Trata-se de um grave insulto à verdade, uma desnaturalização, pois, se somos efetivamente humanos, reduzir-nos nada mais é que negar a nossa natureza.
Já escrevi isto tantas vezes neste blog que é decepcionante precisar repeti-lo até mesmo para seus leitores habituais (sim, há leitores que preferem se manifestar por e-mail do que por comentários): um animal não poder negar a sua própria natureza - um cão, por exemplo, não pode ser mais cão ou menos cão que o indicado pela sua natureza. Já o homem é o único ser que pode negar a própria natureza, seja reduzindo-a àquilo que ela não é ou elevando-a àquilo que ela nunca poderá ser. De fato, há maleabilidade no homem, como bem o demonstram as variadas culturas. Apenas continua sendo um erro colossal negar que o homem tem uma própria natureza segundo a qual estão estabelecidas as suas faculdades. O grande erro dos sistemas ideológicos do fim do séc. XIX é a pretensão de ter descoberto efetivamente o que o homem é, como se tudo o que fora afirmado até então estivesse errado, ou como se ainda não houvesse muito por descobrir. É contra essas tentativas ridículas de negar ou subverter a natureza humana que eu gosto de escrever - para que possamos começar a entrever o homem real em sua totalidade, ainda que muitas sejam as dificuldades em se tentar fazê-lo: essa é, de fato, uma proposição verdadeiramente científica, inclusiva e justa.
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
A maçã-do-amor e o cientista
Existe uma forte tendência no pensamento contemporâneo em achar que o homem é um animal como um outro qualquer. Já escrevi várias vezes neste blog que apesar de nossos corpos serem reféns do universo físico-químico a experiência humana como um todo o transcende. Para justificar este ponto de vista disse, àquelas ocasiões, que a dor é algo que não pode ser quantificada. À ela unem-se todas as outras emoções: alegria, medo, felicidade, senso de justiça, desespero, etc., nenhuma delas pode ser quantificada. O que, para uma pessoa materialista, não deixa de ser esquisito, afinal, pensam elas que todas as coisas do mundo podem ser medidas. Como pode existir algo que não pode ser medido? Uma mente que se gabe de ser exclusivamente científica terá problemas em responder esta pergunta. Essa gente não gosta de reconhecer que há uma infinidade de assuntos que a ciência nunca poderá estudar porque é incapaz de medi-los, pois a ciência se limita a ser a faculdade humana de medir. Se não pode ser mesurado não pode ser objeto de estudo científico.
A tudo isto um "amante da ciência" (como se toda a humanidade não o fosse) poderá reclamar: "Você está equivocado e é simples demonstrar. Sua suposição se baseia numa premissa falsa, dado que você não pode afirmar que a ciência jamais será capaz de produzir um medidor de emoções. Talvez seja criado, no futuro, um aparelho que seja capaz de ler nossas sinapses e toda a nossa bioquímica cerebral e, com base em um padrão a ser determinado, ele emitiria um resuldado matemático que permitiria, por exemplo, a comparação da dor de diferentes indivíduos. A sua hipótese é, portanto, facilmente refutável." Dito assim, o raciocínio pareceria muito bonito, afinal, se tal equipamento for mesmo criado algum dia existirá, de fato, uma forma de aferir numericamente as emoções.
Porém, uma tal máquina terá certos problemas insolúveis, infelizmente, pois as emoções se misturam. Ninguém fica somente triste, ou somente alegre. O medo despertado por um conto aterrorizante pode ser menor em alguém que é naturalmente mais feliz que a média das pessoas, por exemplo. O problema de subtrair uma emoção da outra para que não sejam medidas juntas parece insolúvel. Para que fosse possível medir e comparar a dor de duas pessoas seria necessário que ambas tivessem eliminado de todo o seu aparelho psíquico todas as outras emoções no momento da medição. Só assim não se poderá confundi-la com o medo, por exemplo, que pode ser maior em uma delas - afinal, dor e medo estão relativamente próximas na escala de sentimos negativos. Tendo essa dificuldade em vista, o máximo que talvez seja possível desenvolver seria um medidor de apenas dois sentimentos: o positivo, e o negativo. Esse aparelho congregaria em seus pólos todas as emoções contraditórias. Tanto a dor quanto o desespero estariam no lado dos sentimentos negativos, ainda que sejam bastantes diferentes entre si. Da mesma forma, seriam agregadas como emoções positivas movimentos psíquicos tão diversos quanto a felicidade e o alívio.
Para demonstrar como meu ponto de vista continua justificado ainda que tal aparelho seja inventado com perfeição proponho que negligenciemos a dificuldade em se separar os sentimentos. Imaginemos um aparelho ideal que consiga separar com exatidão milimétrica a dor sentida por uma pessoa razoavelmente feliz que por ventura tenha sofrido um procedimento cirúrgico urgente sem anestesia. Logo percebemos que a dor sentida será tremenda, praticamente incomparável a qualquer outra dor. No entanto, como a pessoa do nosso exercício é bastante feliz no demais, a sua dor pode ser menor do que aquela sentida por uma pessoa costumeiramente infeliz. Ou seja, muito provavelmente a dor da pessoa que é naturalmente menos feliz será maior que a dor da pessoa que costuma estar muito bem. É de se imaginar que a atitude da pessoa perante as dificuldades será bastante influente na "quantidade de dor" que o aparelho irá marcar. Portanto, ainda que haja um aparelho que meça as emoções perfeitamente, o juízo ou opinião de alguém, impulsos psíquicos absolutamente subjetivos, irá influenciar como o organismo físico-químico irá reagir. Ou seja, a atitude moral da pessoa continuará a determinar a quantidade de neurotransmissores que seu cérebro irá descarregar.
Mas eu gosto de problemas ainda mais difíceis. Imaginemos, por exemplo, um sujeito muito feliz com uma doença crônica que lhe cause dores terríveis, capazes de atingir os ápices normativos para dor de nosso aparelho ideal. Ou seja, apesar da sua tremenda dor, capaz de desafiar os padrões medidores, ele é muito feliz. Argumentarão vários que, de fato, ainda que a dor dele seja tremenda, como o aparelho ideal demonstra com perfeição., ela é, em verdade, bem menor que a dor aferida em uma mãe que acaba de perder seu filho. Não importará, portanto, que o aparelho demonstre que dor do sujeito chegue a 100 unidades enquanto a dor da mãe chegue a 60 unidades. Apesar dessa verdade numérica, dado o fato de nosso sujeito hipotético ser feliz apesar de sua dor tremenda, a dor da mãe será considerada maior. Portanto, não adianta querer reduzir a experiência humana a quantificações científicas, pois sempre se chegará ao momento em que elas desfalecerão diante de juízos morais, que são, no fundo, o que realmente importa, e que realmente determinam a nossa maneira de interagir com o mundo.
As coisas que de fato importam não poderão jamais ser medidas. Como demonstrado, ainda que se invente um aparelho que consiga separar perfeitamente as diferentes emoções entre si, sempre se chegará a um momento em que a decisão da vontade se fará mais importante. A verdade numérica desaparece diante da verdade moral que é, de fato, muito superior, dado que é ela que verdadeiramente determina o que se pensa e o que se vive. Portanto, o mundo não verá o dia em que a ciência será mais importante que a livre e espontânea decisão dos sujeitos. A vontade da criança de experimentar uma simples maçã-do-amor num parque de diversões é algo que diz respeito a ela somente: a única pessoa no mundo que verdadeiramente conhece a intensidade desse desejo é ela mesma. Qualquer evento acontecido na cabeça de qualquer pessoa é algo que só ela experimenta em totalidade.
As experiências sentidas por se estar vivo, todavia, não são algo que não possa ser transmitido. De fato, o gênio humano já inventou algo muito mais eficaz que qualquer aparelho científico jamais será capaz de fazer: a palavra. Apegam-se à um racionalismo excessivo, infrutífero e frio somente as pessoas incapazes de compreender um simples poema de colegial. Por isso a humanidade jamais descambará inteira na direção do cientificismo pois, para se sentir plena e realizada, ela precisa de coração, de verdade - precisa experimetar uma resposta existencial. Precisa sentir a sua razão correspondida, ou seja, uma resposta àquilo tudo que ela viveu. Um encontro de experiências verdadeiramente satisfatório - uma retribuição completa: algo para o qual faltam palavras, pois, de tão verdeiro, excede-as, transcende-as, supera-as. Algo mais forte que a morte. O momento em que se vive mais plenamente pois se respira o universo em toda a sua imensidão.
Sem dúvida alguma, esse sentimento transcendental é algo que somente pessoas insensíveis podem negar. Sou extremamente crítico, porém, em admitir que haja alguém de fato insensível. Não acredito, portanto, que essa dimensão transcendental possa ser negada. Ela de fato existe, e os que se dizem insensíveis são provavelmente os tipos mais sensíveis que existem. Apenas se fecham numa atitude ranzinza e desafiadora porque não se sentem correspondidos. Não viveram a experiência de se sentir amado. O que se afirma insensível é apenas um rabugento infeliz que não gosta de admitir ter sentimentos como qualquer outra pessoa. No fundo, são pessoas que se tornam viciadas em negar as coisas positivas da vida. Apaixonam-se por desgraças. Têm aos olhos lentes que aumentam os desastres e diminuem os amores. Perdoem-me a sinceridade: só sabem olhar para o próprio vômito. Não digeriram o mundo, se recusam a fazê-lo. Se não lhes aparece alguém que os ajude, alguém com quem possam de fato se identificar, viverão a mais triste das condições humanas, que aparelho algum jamais será capaz de descrever.
terça-feira, 19 de janeiro de 2010
Aletheia - da construção da verdade à sua implosão
Convém aprofundar-nos um pouco mais na questão da diferença entre verdade universal e falsas verdades particulares. Não é recente a crítica ao conceito de verdade universal. Sem muito equívoco, pode-se atribuir a Immanuel Kant o título de primeiro relativizador da verdade. Ele não concluiu, porém, que ela não existisse, mas sua crítica é de que seria muito difícil, quase impossível, verificá-la. Começou assim o relativismo que levou ao cataclismo dos dias atuais. Seguiram-se a Kant toda uma sorte de relativistas, dentre os quais deve-se destacar o alemão Friedrich Nietzsche. Já escrevi sobre essa mentesinha perturbada neste blog antes. Recomenda-se aos que o desconhecem a leitura do texto, disponível neste link. Hoje, porém, falarei dele mais superficialmente. Ocorre que Nietzsche é o maior crítico de tudo o que existe. Ninguém teve a mesma influência que ele sobre as gerações seguintes. Como demonstrado no texto supra-citado, a obra de Nietzsche foi muito mais retórica do que efetivamente argumentativa. A História acabou sendo cruel com Nietzsche. Seu prestígio minguou enormemente durante o séc. XX. Os seus admiradores inquietaram-se diante do eminente desaparecimento do mestre. Então, empenharam-se em fundamentar as suas loucuras. Tem-se tentado demonstrar, caso a caso, como Nietzsche estava certo em sua crítica.
A tentativa de reavivamento mais interessante que conheci foi a de Marcel Detienne, autor de Os mestres da verdade na Grécia Arcaica. Nesta obra, o autor faz uma historiografia do termo verdade na Grécia Antiga. Para tanto, ele compara o conceito de verdade disponível na Ilíada, de Homero, e o sentido que o termo ganhou até o século de Péricles, na academia de Platão. No primeiro caso, Detienne procura demonstrar que o conceito de verdade era muito próximo da mitologia grega. O sentido do termo confunde-se com a própria noção da divindade que o nomeia: Aletheia. Acreditava-se, naquela época, que a verdade era um privilégio da deusa. Os que a desconsideravam, estavam, portanto, destratando a divindade. Ainda não havia o conceito de apuração da verdade ao nível humano. Detienne demonstra, através da narrativa da Ilíada, como isso pareceria tolice aos contemporâneos de Homero, a quem deveria-se apelar diretamente a divindade caso a verdade estivesse em questão. Desse período da Grécia chamada Arcaica até o período Clássico houve uma transformação no sentido da palavra. De mero conceito religioso, verdade passou a designar o resuldado de uma apuração humana, ou seja, a verdade deixa de ser privilégio divino e passa a ser uma característica humana. Ocorre algo que pode se chamar de incorporação do conceito, que antes estava restrito à esfera mitológica. Esse processo de transição ocorreu com o advento da ciência. Os que gostam de relativizar a verdade devem saber que essa atitude é anti-científica, pois é com o nascimento da ciência que surge a compreensão de que a verdade é algo que pode ser verificada pelos seres humanos através de provas e contra-provas. A ideia de verdade está, portanto, desde o seu nascimento, ligada à ideia de ciência, ou seja, de apuração da verdade. Notem que esse sentido do termo verdade inexistia antes dos gregos o criarem. A verdade é, portanto, uma ideia, uma invenção humana. Algo que pode ser rastreado ao longo da história.
Todo este esforço é decorrência da necessidade de se justificar a ridícula crítica nietzchiana à metafísica platônica. Nietzsche abominava Platão assim como abominava São Paulo. Para combatê-los, ao invés de argumentos, Nietzsche se utilizava de uma retórica apaixonada que se orgulha de ser irracionalista. Quem lê-lo poderá verificar por si próprio. Nietszche odiava a razão. Para ele a razão é uma excrecência platônico-cristã que precisa ser combatida. Consequentemente, Nietzsche abominava também a ciência. Ele a considerava uma excrecência burguesa. No lugar do ocidente cristão, segundo o "filósofo", deve ser instaurado algo que se pode chamar de Reino de Loucura, já que se limita à licensa de se fazer sempre o que quiser como bem entender, se utilizando de quaisquer meios para tanto. O que não fosse exatamente isso precisaria ser duramente combatido. Nietzsche advoga o tempo todo a favor da destruição completa do Ocidente. Tudo era ruim para ele porque tudo está assentado sobre esse conceito, para ele ridículo, da razão. Em seu texto, Nietzsche se utiliza de ataques infantis e xingamentos baratos, como muitos outros "autores" contemporâneos. Como já disse, sua argumentação é paupérrima. Por conta disso, a preocupação máxima de seus admiradores é resgatar a sua obra demonstrando que, por detrás da aparente loucura, existe supostamente um grande pensador. A historiografia da verdade da Grécia Clássica foi feita por Marcel Detienne exatamente com este intuito: impedir que o prestígio de Friedrich Nietzsche se desfizesse por completo através da demonstração de que a verdade é um conceito criado pelos homens e, como tal, pode ser remodelado com se bem entender.
Oras, ainda que o conceito de verdade tenha a sua História, afinal, a humanidade também a possuiu, isso não significa que as conclusões a que chegaram os primeiros cientistas pré-socráticos e os filósofos clássicos estejam erradas. Como já demonstrei diversas vezes neste blog tudo tem História, porque tudo é entendido pelo ser humano, um ser histórico, ao contrário dos animais, que não a possuem. A tentativa de manutenção do prestígio Nietzschiano não é obra de um só autor. Detienne nem é o mais célebre deles. O acadêmico niezschiano mais notável é o francês Michel Foucault que, em seu tremendo esforço pelo resgate de Nietzsche, acabou sendo, pelo menos na minha opinião, muito mais inteligente e perspicaz que o mestre. Foucault não é um bebezão neurótico, suas ideias são muito mais respeitáveis. Nem é por acaso que ele é o acadêmico mais citado mundialmente nas pesquisas das áreas humanas. Não pretendo, porém, ser tomado como grande admirador do francês. Apenos quero deixar claro que ele é razoável. Muitos de seus argumentos são válidos e evidentes. A crítica foucaultiana ao marxismo e a psicanálise parecem-me de enorme qualidade. Ele é também um observador muito inteligente da realidade contemporânea. Com grande propriedade ele demonstra como o puritanismo da Era Vitoriana foi incorporado pela burguesia ocidental. Para ele, esse é o grande movimento fundador da contemporaneidade. Concordo com isso. Só tenho minhas reservas quanto à licenciosidade que ele toma em relação à verdade, pois ele também é um sofista - o que, no seu caso, parece-me contraditório pois como podem ser verdadeiras as suas colocações a respeito da Era Vitoriana se ele próprio não acredita em verdade? Pena que ele não foi intelectualmente honesto em admitir que há sim verdade e que se pode sim atingi-la através do estudo da realidade ao nosso redor. Nietzchiano que é, não poderia deixar de ter sua cota de bobagens a preencher.
Doxa, a grande inimiga da verdade
Já ouviu o termo doxa? É o grego antigo para "opinião". Os filósofos antigos questionavam a validade da opinião das pessoas. Será mesmo que só porque a maioria acredita em alguma coisa isso está correto? Não nos esqueçamos que filósofo é o grego antigo para "amante do saber". A eles contrapunham-se os sofistas, burocratas profissionais que acreditavam ser tudo relativo. Parece-me que esta briga tão antiga, do séc. IV antes de Cristo!, de filósofos contra sofistas nunca foi tão atual. O problema é que os grandes sofistas de hoje são professores doutores de filosofia das grandes universidades. Saber separar um do outro é tarefa fundamental para a compreensão do que se passa na contemporaneidade.
Os sofistas de hoje acreditam que a verdade, ao invés de universal e, portanto, aplicável a todos, é particular. Cada um pode, segundo eles, construir a sua própria verdade, como se, assim, a verdade em si não fosse vilipendiada. Oras, não há verdade alguma se qualquer coisa pode estar certa. Esse raciocínio não é complicado. Dois pensamentos contrários entre si não podem estar certos ao mesmo tempo. É evidente que há verdades universais, imutáveis, que dizem respeito à natureza humana. O problema é que a crença em verdades é a maior inimiga da particularização de verdades, ou seja, da opinião, a tal doxa com a qual eu comecei o texto.
Se podemos ter certezas a respeito das coisas, então a doxa, caso seja contrária à verdade, ainda que compartilhada por muitas pessoas, está errada. Em consequência disso, precisa ser combatida, caso contrário, poderá persistir, levando os homens ao erro e à injustiça. Por sinal que, se não há verdade, também não há justiça. Sendo tudo relativo, o sistema judiciário como um todo pode deixar de existir. Deve ser substítuido por um sistema de juízo tribal, onde a vontade do chefe, ou da maioria, é suficiente para lidar com as disputas. Seria um retrocesso de mais de dois mil anos. E para que isso ocorra trabalham ativamente os sofistas de hoje, que tão ardentemente desejam substituir o sistema legal vigente por um conselho revolucionário, tão autoritário quanto anti-democrático.
É praticamente infinito o imbrólio mental que o homem ocidental está criando com esta relativização absurda. Sem certeza nenhuma em que acreditar, ele fica correndo atrás do próprio rabo como um cão desnorteado - é patético. É este tipo de gente que divulga os sofismos que tenho combatido. O pior é que essas falsas verdades, posto que relativas, dominam o imaginário contemporâneo dado o enorme deserviço prestado pela maioria dos meios de comunicação, totalmente dominados por essas filosofias contemporâneas que de filosofia não mereciam nem o nome. São sofismas, relativizações baratas de princípios eternos, que precisam ser desmascaradas e combatidas uma a uma.
As pessoas de bem não podem concordar com a destruição da verdade. Aos poucos isso fará ruir todo o enorme edifício legal construído ao longo de milênios. Por isso é tão importante lutar pelos direitos universais do homem. Parte do plano dos sofistas é substituir a carta promulgada pela ONU em 1948 por uma que relativize todos os princípios. Poderemos assistir abusos desse tipo calados? Afinal, são poucas as vozes na imprensa e nas universidades que os têm combatido. A verdade precisa ser sempre difundida. A tentação sofista parece ser inerente à condição humana - quantas vezes tentou-se, ao longo da História, substituir a noção de verdade por sofismos atormentados e indecisos? Ergamos, portanto, nossa voz contra o engano e a mentira.
Esperança na ciência: recurso religioso
É enorme a proliferação de blogs onde se exalta a ciência tal e qual uma religião. Como esses sites são geralmente obra de ateus, seus autores negariam tal afirmação dizendo que ter esperança de que a ciência irá resolver os problemas da humanidade é mais verossímil que esperar uma reencarnação do Buda. O problema óbvio que essa gente não enxerga é que não se sabe o quê poderá ser descoberto. É, portanto, uma experiência religiosa extremamente dolorosa, pois não se sabe sequer o que esperar. Exalta-se a ciência de uma forma infantil não em função do que se pode esperar dela - visto que não se sabe o quê esperar! - mas em função de uma falsa esperança que é constantemente retro-alimentada que, como se pode facilmente observar, é muito semelhante ao pensamento religioso. A religião, porém, afirma explicitamente esperar no sobrenatural. Percebem a dura condição da pessoa que espera na ciência? Ela deposita a sua confiança em algo do que não se sabe o que esperar, já que a ciência parece ser mais eficaz em elaborar perguntas do que respostas.
Não nego os enormes avanços científicos. Louvo-os todos. São eles em grande parte responsáveis pelo enorme aumento na qualidade de vida de toda a humanidade. O problema é que, transformando a ciência em religião, o homem engana-se com um fé que nunca poderá satisfazer seu coração. Ao contrário do que muitas dessas pessoas afirmam, a ciência não possui receitas para tornar o homem mais feliz, pois o que leva o homem a encarar a vida com uma atitude positiva está no campo da filosofia e da religião, não da ciência. Muita gente se surpreende quando descobre que a ciência tem muito mais dúvidas que certezas. O pensamento, por exemplo, algo tão fundamental e imediato, não é minimamente explicado pela via científica. Seria de se esperar que a mais nobre faculdade humana estivesse amplamente conhecida em pleno séc. XXI. Ocorre, todavia, que sabemos muito mais sobre articulações e antibióticos. E se o pensamento nunca for explicado? Como ficará a fé dos que esperam tudo da ciência? É razoável supor que muitas coisas ficarão sem explicação alguma. A imensa maioria dos cientistas é unânime em afirmar que a ciência jamais explicará o fenômeno da existência, por exemplo. Não há, portanto, um grande erro da parte das pessoas que, desvirtuando seu natural espírito religioso, depositam suas esperanças em algo que só promete incertezas? Não é à toa que essa gente soe sempre confusa e desnorteada, pois um norte é justamente o que lhes falta. Parecem um barquinho de papel vagando na correnteza de um rio: sem vontade alguma, ele é tristemente carregado pelas águas.
A incerteza é uma maravilha para o intelecto: alimenta a imaginação, o raciocínio lógico, a inteligência como um todo. Para o coração ela é uma droga mais devastadora que o crack. Todas as vezes que debati esse assunto com "amantes da ciência" (como se resto da humanidade não o fosse) percebi um profundo rancor pelo fato de eu ser religioso e ter, sim, minhas certezas. Se há alguma coisa que irrite alguém com a cabeça recheada de dúvidas é a convicção. Não há como evitar a lembrança daquele famoso ditado: "Em terra de cegos, quem tem olho é rei". Num mundo governado pela dúvida e pela inquietação, a certeza reluz como metal precioso, ainda que odiado.
O que não deixa de surpreender é que, ao contrário do que veiculam os meios de comunicação, não vivemos uma era de tolerância e respeito. Como bem o demonstra o fato de um autor como Richard Dawkins vender muitos livros, essa é uma era de ódio às liberdades individuais. Existe uma forte tendência totalitária da parte das pessoas que a tudo querem relativizar. O fato de pessoas com crenças religiosas questionarem certos "princípios inegociáveis da modernidade", como o aborto, a eutanásia e o casamento gay, é algo que desperta a fúria das pessoas que acham que a ciência é capaz de explicar todos os fenômenos, quando, na verdade, uma coisa não tem nada a ver com a outra. Afinal, conheço diversas pessoas que não são minimamente religiosas e que, apesar disso, opõem-se duramente ao aborto.
Talvez a parte mais dolorosa disso tudo é perceber que os meios de comunicação são operados por esses agentes da modernidade. Infelizmente, inoculam-se mentiras descaradas na opinião pública a todo o tempo. Desmascarar cada uma dessas iniciativas hediondas é coisa que tenho feito desde que comecei este blog. Os novos leitores poderão encontrar no aquivo destas páginas diversos textos a este respeito. Também poderão ler diversos comentários enfurecidos da gente que odeia certezas. O triste é justamente podermos reduzir essa disputa à constantação de que se trata uma briga entre as pessoas que têm certezas e as pessoas que não tem certeza nenhuma. A gente que diz nada saber acha tudo bonito: aborto, terrorismo islâmico, governos totálitários, como se não fosse evidente que somos governados a todo instante por uma ética e uma moral naturais a todos os seres humanos. Em todo o lugar o assassinato, o roubo, a traição, a mentira são condenados.
Não deixa de surpreender, portanto, que justamente a civilização mais avançada do mundo, a Ocidental, seja justamente a que esteja relativizando valores inquestionáveis, como a vida humana. A dúvida parece corroer o espírito humano, reduzindo-o à uma expressão inferior das suas reais potencialidades. Nunca foi tão importante combater a mentira e o engano. O problema, parece-me, é que as pessoas de bem são covardes. Para não serem contrariadas, preferem calar-se diante das dispustas atuais. Preferem abster-se de uma luta da qual não se pode fugir. Assim, não surpreende que, cada dia mais, a modernidade avance sobre a sociedade, destruindo tudo o que encontra em seu caminho. Se pensarmos bem, veremos que esse resultado final não é nada injusto. É perfeitamente razoável que o mal avance a largos passos quando as pessoas de bem preferem o silêncio.
Leucemia e células-tronco - revolução na medicina
Já estive diante de uma pessoa agonizando de leucemia. Era um rapaz de uns 22 anos, amante do futebol, morador de uma favela de Niterói. Quando o vi deitado no leito, auxiliado por uma prima, imaginei que estivesse com lepra. Toda a sua pele estava uma chaga viva, aberta, como se a sua camada mais superficial tivesse sido removida. Infelizmente não estou exagerando. Como ainda não estou fazendo medicina não sei porque a leucemia causa este efeito desastroso. Só não tenho dúvida alguma de que este é um tipo de cancêr crudelíssimo, que destrói a pessoa viva. Uma semana depois o rapaz havia morrido. Foi mesmo muito triste.
Mas existe algo para qual não há cura? O Jornal Nacional noticia que pesquisadores americanos desenvolveram um tratamento revolucionário no tratamento da leucemia através de células-tronco obtidas do cordão umbilical de recém-nascidos, tornando obsoleta a espera por um transplante de medula óssea. Apoio incondicionalmente este tipo de revolução, realmente capaz de transformar a vida das pessoas, e refuto falsas revoluções cujo único intento verdadeiro é fazer pilhas de cadáveres.
Alguns de vocês devem estar se perguntando: "Mas o Henrique é tão católico. Como pode estar aprovando o uso de células-tronco em pesquisas?" É que existe uma diferença fundamental entre células-tronco adultas, como estas obtidas a partir do cordão umbilical de recém-nascidos, e as chamadas células-tronco embrionárias, que não passam de seres vivos como nós, que merecem todo o nosso respeito. Por sinal que chamar embriões de "células-tronco" é um dos eufemismos mais cafagestes que existem. Procura-se, assim, retirar do embrião plenamente humano a sua dignidade própria, reduzindo-o à condição de mera célula. Os cafagestes que assim agem, fazem-no para distrair a opinião pública, afinal, quem é a favor do extermínio de seres humanos para fins científicos? Ninguém. No entanto, quem se opõe ao uso de meras células em pesquisas? Trata-se de um ato imoral, com o qual muitas vezes jornalistas irresponsáveis têm corroborado.
Não há problema algum em se trabalhar com células-tronco, qualquer que seja a sua procedência. A imoralidade está em se pretender reduzir um embrião humano, cujo código genético já contém toda as especifidades de qualquer pessoa adulta, em mera célula, como se fosse coisa da qual se pode dispor ao bel-prazer conforme as conveniências. Testemunhamos uma profunda involução nos valores humanos da sociedade contemporânea. Aos poucos reduz-se a noção da dignidade humana, transformando-se o homem em objeto de comércio. Como podem as pessoas não perceber que agindo de modo indiferente estão colaborando com este projeto nazista de coisificação do ser humano?
Haiti - imunidade impossível
Não somente blogueiros "cabeça" estão sofrendo com o desastre haitiano. O maior blog de humor do Brasil, o Kibe Loco, também acaba de demonstrar grande constrangimento com a tragédia. Sendo um site de humor, meio difícil que falasse no terremoto haitiano, mas houve meios. Um adjunto da embaixada do Haiti no Brasil disse ao SBT que a tragédia era boa para o seu país. Não ficou nisso. Bobalhões nunca ficam em uma só frase estúpida. Parece que a estupidez é algo do que nunca se fartarão. O mesmo sujeito disse que o desastre é culpa da religiosidade africana que, talvez por castigo divino, atrai desgraças por onde passa. Para fundamentar sua argumentação, concluiu dizendo que todo lugar onde há africanos está em desgraça.
Bem, Antonio Tabet, autor do Kibe Loco, parece também estar sofrendo de certo bloqueio criativo. Depois do post onde publicou o vídeo do infeliz dizendo as barbaridades já mencionadas, o seu site ficou em silêncio. Alguns dias depois postou uma piada boba sobre a sala comercial de um edifício cujo piso ruiu porque lá se praticava uma reunião de gordinhos. E ficou nisso. O detalhe curioso é que ele retirou a piada dos gordinhos do ar por uns dois dias. Acabo de ver que ele decidiu-se em pô-la de volta. Ou seja, tal como eu, ele decidiu continuar o trabalho, mesmo que imperfeito, tamanha a confusão mental diante da tragédia haitiana. Pelo visto é isto o que se deve fazer depois da indigestão emocional causada por desastres: sacudir a poeira e continuar.
Apesar de gostar muito de blogs de humor, não incluo o Kibe Loco na lista de minhas indicações porque diversas vezes Antonio Tabet descambou para imoralidades imbecis. É certo que o campo do humor tem suas próprias dificuldades, dentre os quais se destaca o difícil equilíbrio entre o ridículo, o patético e o imbecil. O problema é que o Kibe Loco apequenou-se demais nesses vários episódios lamentáveis. Muito melhor que ele é o Comentando, que já está listado entre as minhas recomendações pela excelente qualidade há muito tempo. Seu único defeito é não publicar com frequência. Apesar disso, o Comentando é excelente - o melhor blog de humor do Brasil, sem sombra de dúvidas. Pena que seu autor, Beto Santos, não publique sempre. Mas em todas as vezes que o faz é muito superior ao Kibe Loco, que volta e meia confunde humor com escatalogia infantil e retardada.
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
Misturas publicitárias explosivas
Blá blá blá, terremoto, blá blá blá, Haiti. Minha irmã psicóloga diz que não faz bem só ficar vendo notícias de desgraças. Num guento mais sofrer com essa história. O pior é que ela não sai de mim. Vejamos se um vídeo de publicidade altamente explosiva ajuda a esquecer o cataclisma extraordinário.
O que nos deixa a pergunta: no que será que ficam pensando esses diretores de marketing de grandes empresas? O que será que a tia da limpeza coloca no cafézinho deles? É muita viagem pra um comercial só. Até a jogadora de futebol David Beckham aparece, de sombrancelha tosadinha e tudo. Apesar disso, não se pode dizer que não é um comercial de impacto, o que, de fato, é elogiá-lo tremendamente. Palmas aos malucos que o fizeram. Mas como é mesmo que está o Haiti? Ai, caramba!
Quão longo terá sido o terremoto haitiano?
Ai, ai. Eu, que queria tanto fugir desse assunto, acabo voltando a ele para comentar um dos aspectos curiosos da tragédia: o tempo de duração do terremoto. A imprensa andou publicando que durou apenas alguns segundos. Vários militares brasileiros confundiram-no com a explosão de uma bomba. Será mesmo que algo com tal poder destrutivo tenha durado tão pouco?
Acabo de encontrar no site da CNN um video que mostra o terremoto inteiro e, infelizmente, sugere alguns dos seus resultados desastrosos. Gostaria de compartilhá-lo com vocês. Para minha miséria, não tenho conseguido me afastar desse assunto nos últimos dias. Infelizmente, tanto mais procuro afastar-me do terremoto haitiano mais próximo ele se me parece.
As montanhas que Zilda Arns removeu
Vamos logo combater a crise criativa despertada com a infinidade de desgraças que vêm, no momento, do Haiti. Se eu pudesse ajudar os haitianos fazendo alguma coisa já teria feito. De nada me adianta ficar estressado: não somente não os ajudo como me atrapalho.
Já faz alguns dias que quero escrever um texto sobre certos aspectos da trajetória da dra. Zilda Arns, morta na grande tragédia haitiana. É que ela contornou brilhantemente o problema central para instalar a Pastoral da Criança: a indiferença das pessoas. Sim, esse é o grande problema do mundo, o maior de todos - incomparavelmente maior que um terremoto de 9 graus na escala Hischter. Sempre que alguém que fazer algo bom (e muitas vezes dramaticamente necessário) aparece algum indiferente no caminho para atrapalhar. Essa figura simbólica da pessoa que atrapalha o caminho do herói, impedindo-lhe o avanço, é tão clássica que os interessados podem procurar explicação excelente nos escritos do grande antropólogo americano Joseph Campbell, cuja obra foi fundamental no estabelecimento dos modernos parâmetros para os contadores de histórias.
O infeliz que fica "embaçando" no caminho do herói chama-se guardião de limiar. Notem que o caminho do herói envolve a travessia de limiares quando ele sai do território que lhe é familiar (aquele do qual ele provém) na direção do território novo (aquele onde ele há de operar maravilhas). Como esse problema apareceu na trajetória da dra. Zilda? Para ela, o universo comum era o eclesiástico: vários de seus irmãos são padres e freiras, um deles, em particular, era somente o Arcebispo de São Paulo, que foi justamente o que lhe chamou à fundação da Pastoral. O universo novo era o da miséria terrível. Os guardiões de limiares eram todos aqueles que consideraram seu projeto quixotesco: "A sra. sozinha não conseguirá transformar a realidade brasileira". Se eu conheço um pouco o ser humano afirmo que ela deve ter ouvido essa frase milhares de vezes e, no entanto, nenhum desses espíritos de porco atrapalhou sua invejável jornada. Segundo os jornalistas, ela é responsável pela vida de, nada mais, nada menos, que 1 milhão e 200 mil brasileiros. Isso mesmo. Você e eu coçando o saco na internet enquanto ela salvava a vida de milhares através da educação.
Sim, a vida destes brasileiros todos foi salva com educação básica sobre saúde. O trabalho da pastoral era informar as mães como evitar a desidratação com o soro caseiro e a fome com o tal farinhão, cuja receita variava conforme a disponibilidade de sobras das diferentes localidades. Ou seja, desenvolveu-se uma receita de farinhão para cada lugar miserável, conforme os poucos gêneros alimentícios disponíveis.
Mas não me refiro somente à burocracia das pequenas prefeituras quando falei nos guardiões de limiar. Também entre a gente da Igreja deve ter havido muito indiferença. Até mesmo inveja: "Quem é esta paranaense para nos ensinar como devemos viver nossa vida?" No entanto, Zilda irradiava sempre uma alegria e um charme pessoal tão grandes que nenhuma dificuldade lhe parecia intransponível. Foi uma mulher que efetivamente cumpriu aquelas dificílimas palavras de Cristo: "Se tivésseis fé do tamanho de um grão de mostarda, diríeis a esta montanha 'Arranca-te e lança-te no fundo do mar' e ela vos obedeceria." Zilda foi um gigante que dava ordens às montanhas e elas a obedeciam. À sua palavra recuaram a diarréia e a desnutrição de milhares.
Voltemos à questão central da sua obra: como superar a indiferença alheia. De fato, cada herói constrói para si um caminho único, fazendo uso de atalhos dificílimos e custosos, afinal, trilhar o caminho da maioria é escolher uma via sem grandes dificuldades e sacrifícios. Multidões caminham por estradas seguras. As iniciativas pessoais ousadas requerem caminhos especiais, para que em tempo menor se resolvam grandes problemas para os quais os caminhos tradicionais nada servem. Imaginemos se não tivesse existido a Pastoral da Criança: nosso índice de mortalidade infantil estaria muitíssimo mais alto do que hoje. Revoluções exigem sacrifícios humanos. Os heróis se entregam à morte, para que os outros possam viver. De fato, os que lerem os estudos de Campbell verão que essa é uma constante universal na antropologia: todos os povos contam histórias de grandes heróis que entregaram a própria vida pela causa da maioria. É como se, por suas grandes peripécias, os heróis renunciassem ao direito de terem uma vida própria e passassem a viver em função das necessidades alheias. Somente pessoas de grande generosidade agem desta forma.
Então como transpor os guardiões de limiar? Eles estão estragicamente colocados na entrada do mundo novo para testar a fidelidade de princípios do herói. Será verdade mesmo isto que ele está dizendo? Zilda Arns escolheu a via do amor. Dentre tudo o que se andou dizendo a seu respeito nos últimos dias, destacou-se, para mim, o depoimento de um publicitário que trabalhou com ela. Em entrevista à Globo News ele relatou o seguinte episódio. Ao fim de uma sessão onde se exibiram vídeos amadores produzidos por agentes da pastoral, a dra. Zilda conduziu uma grande salva de palmas dizendo: "Vamos aplaudir". Ela, então, voltou sua atenção ao publicitário e, com grande delicadeza, perguntou: "Como podemos melhorar a qualidade dos vídeos?" Notem, os vídeos deveriam ser muitos simples. Melhorá-los parecia ser algo relevante naquele momento. Qual a primeira reação da grande mestra? Aplaudir o esforço daqueles que os haviam realizado. Num segundo momento procurou-se auxílio para melhorá-los, mas a primeira iniciativa foi aplaudi-los. Essa é a via do amor: aquela que procura ver tudo de positivo que existe nas iniciativas individuais. As pessoas egoístas e pouco generosas não agem assim. Para elas sempre saltam-lhe a vista os defeitos de qualquer iniciativa. Logo apontam todos os mínimos problemas e imperfeições da empreitada. A reação óbvia da pessoa que tanto investiu no projeto criticado é sentir-se ofendida e fechar-se às críticas, que talvez fossem até um tanto justas e até mesmo necessárias. Esta é a questão central: como criticar sem ofender. Como entusiasmar as pessoas com um projeto que unisse uma nação inteira do tamanho do Brasil? Essa é a obra-prima indiscutível da dra. Zilda.
Por certo, muitas vezes a dra. Zilda teve diversos motivos para se zangar e perder a paciência com gente estúpida. Claro, quem não encontra imbecis no caminho? Porém, ela soube trazer essas pessoas incovenientes para o seu projeto. Ela soube criticar sem tirar o estímulo das pessoas, porque o amor estava no alto das suas prioridades. Assim agiu a dra. Zilda: amou até mesmo as pessoas que lhe atrapalhavam a vida. Somente assim ela pôde convencê-las que o seu caminho era o melhor. Que grande exemplo, não? Quantas vezes somos extremamente ágeis em criticar os outros e como somos lerdos para elogiar suas boas iniciativas. É que nos corrói a inveja pelos poucos sucessos alheios. Gostaríamos que todo o sucesso disponível fosse nosso. Assim nunca deixaremos de coçar o saco na internet. Para ganhar o mundo é preciso amar, é preciso dar a própria vida. Assim agiram todos os que o conquistaram. Portanto, pense bem se você quer mesmo fama e reconhecimento. Será que você está disposto a entregar-se todo, seja numa cruz, ou num país em ruínas? Não é outro o caminho do herói. Já o caminho dos inúteis bem o conhecemos, pois nunca o deixamos de trilhar.
Culto à melancia
Nas outras duas vezes em que me faltou inspiração, acabei recorrendo ao texto de algum outro autor para quebrar o gelo criativo. Desta vez é o texto de um humilde padre da mínuscula Rio Claro. O cara disse tudo a respeito dessa recente questão de se requerer o banimento de símbolos religiosos de locais públicos. Com vocês, o texto do padre Otto Dana (extraído do Jornal Cidade de Rio Claro - original aqui):
Culto à melancia
Agora estão pegando no pé de Jesus Cristo. Sim, do próprio. Aquele lá do Calvário. Aliás, não só no pé, mas ele inteiro. Não querem vê-lo nem pelas costas. Querem bani-lo de todos os espaços ditos públicos, tipo tribunais, fóruns, escolas do estado e do município, casas legislativas, repartições públicas em geral.
Dizem que Ele incomoda, constrange os cidadãos não crentes. Fere o direito constitucional à laicidade e impessoalidade do Estado. Daí: crucifixos, Bíblia, galinha preta, São Jorge e seu cavalo, estrela de Davi, tudo lixo pro lixo.
Antigamente era só o diabo que tinha medo da cruz e da água benta e fugia em disparada. Agora, até os Procuradores da República se borram ao vê-lo quieto numa parede.
No final de julho, a Procuradoria Regional dos direitos do cidadão em São Paulo ajuizou uma ação civil pública pedindo à Justiça que obrigue a União a retirar símbolos religiosos das áreas públicas de órgãos federais. O argumento é que tais objetos ofendem a liberdade de crença e sua permanência fere o princípio do Estado laico.
Bem acertado o ministro Gilmar Mendes, presidente do Supremo Tribunal Federal, ao perguntar, com uma ponta de ironia, se o Ministério Público Federal não teria tarefas bem mais importantes e urgentes com que se preocupar: "Eu tenho a impressão de que há mais o que fazer", desabafa a Excelência. Por exemplo: os presídios superlotados, a montanha de processos proscrevendo, a falta de respeito aos direitos humanos...
Dizem que a exposição de símbolos religiosos constrange os agnósticos e ateus que têm direito de entrar nesses locais livres de qualquer imposição ou insinuação religiosa. Ora, um ateu que se sente ameaçado por um simples crucifixo ou por uma Bíblia pode ser tudo, menos um ateu. Ninguém teme o que não existe. A não ser, claro, um Cristo Redentor. Daquele tamanho, se desabar sobre um ateu ou um cristão, não vai sobrar nem um dedo para fazer o último em nome do Pai.
Nisso tudo, cabe muito bem a fala de Dom Odilo Scherer, arcebispo de São Paulo: "Ter um Estado laico não significa passar por cima da cultura de um povo." Aí está a confusão dos senhores Procuradores: a confusão entre expressão religiosa legítima e expressão cultural-simbólica. Muito daquilo que nasceu como exclusiva manifestação religiosa foi incorporado à cultura geral do povo. O domingo, por exemplo, surgiu como dia religioso cristão.
Hoje ateus e agnósticos, cristãos e não cristãos arrumam a mochila e descansam no domingo e dias santos. A divisão Antes e Depois de Cristo é levada em conta nas folhinhas do mundo inteiro, sem distinção. Ateus e crentes ouvem os corais de Bach e os executam em seus templos ou recitais profanos. Eliminem-se os símbolos religiosos do Brasil e o que restará dele? Em cada esquina, uma igreja, um oratório, a estátua de um santo, um monumento à Bíblia, um terreiro de umbanda. Em cada estrada, cruzes fincadas no acostamento, sinalizando as vítimas do trânsito. A própria Constituição brasileira se abre invocando o nome de Deus.
Agora, pensando bem, do Congresso Nacional, dos tribunais, das casas legislativas do Brasil inteiro, nada a opor à retirada dos crucifixos. Assim se evitará expor Jesus ao mesmo vexame da primeira vez, com o agravante de que hoje já não são apenas dois os ladrões que o acompanham. E não terá o mesmo êxito de ganhá-los para si como aconteceu com São Dimas.
Se os senhores Procuradores da República do Ministério Federal de São Paulo quiserem tirar uma prova da força cultural dos símbolos religiosos junto ao povo brasileiro, retirem a imagem do Cristo Redentor lá do Corcovado e, em seu lugar, coloquem uma gigantesca melancia com os nomes ostensivos de todos os que assinaram a ação civil pública. Encimando a placa, o nome do Procurador Regional dos Direitos do Cidadão em São Paulo, Jefferson Aparecido Dias, que a encabeça.
quarta-feira, 13 de janeiro de 2010
Haiti - desastre inenarrável
Amontoam-se corpos nas ruas de Porto Príncipe, capital do Haiti, devastada ontem por um terremoto de 7 graus na escala Hischter. Estimam-se mais de 100 mil mortos. Dentre eles há vários brasileiros, especialmente militares, que trabalhavam na campanha de paz da ONU. Faleceu também a criadora da Pastoral da Criança, a médica pediatra e sanitarista Zilda Arns. Estou extremamente consternado pela dimensão da tragédia e, especialmente, pelo que toca a nós, brasileiros. Tanto os militares quanto a dra. Zilda morreram enquanto trabalhavam pelo povo paupérrimo do Haiti, a maior vítima da enorme tragédia. Enquanto esquerdopatas profissionais tramam a revolução nos seus confortáveis gabinetes, brasileiros como estes que morreram no terremoto deram suas vidas à causas reais que efetivamente revolucionavam a sociedade. Quantos não terão sido salvos pela Pastoral da Criança de Zilda Arns? E quantos não têm as suas vidas em perigo pela contínua ameaça de implantação do aborto no Brasil pelo PT? De que adiantam, pois, as notas de pesar do presidente e do ministro da saúde pela morte da dra. Zilda? Sabemos que ela, fiel católica coerente, era uma das maiores opositoras ao aborto. Que tipo cruel de aproveitamento político não farão os petistas da morte dessa grande mulher? Falta-me palavras para descrever o que estou sentindo com esta tragédia e com o uso absurdo que os petistas já demonstraram que farão da morte da dra. Zilda. Resta-me apegar-me às palavras do seu irmão, arcebispo emérito de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Cardeal Arns, que lamentou a morte da irmã, louvando seu trabalho e sua bela morte, ao lado dos pobres que ela sempre defendeu. Enquanto nós morreremos de forma patética, cercados de cuidados hospitalares, com tubos nas nossas narinas, alimentação intra-venosa, acesso à uma infinidade de medicamentos, e imensas fraldas geriátricas nos quadris, dra. Zilda Arns teve a morte da gente gloriosa, junto ao seu trabalho, à sua causa, junto aos pobres pelos quais continuamente lutava. Tomara, caro leitor, que eu esteja errado, e que tenhamos ambos uma morte heróica como a da dra. Zilda, com as mãos na enchada, os pés na estrada e os olhos no horizonte longínquo.
segunda-feira, 11 de janeiro de 2010
Lula, O Filho do Brasil morre na praia
De Lauro Jardim, do Radar on-line:
Lula, o filme, não engrenou
Entre segunda-feira e ontem, Lula, o Filho do Brasil continuou decepcionando quem acreditou (como os seus produtores) que o filme bateria todos os recordes de público no país. Desde sua estreia, na sexta-feira passada, a fita de Fábio Barreto levou 361 000 pessoas aos cinemas.
Só para efeito de comparação, Se Eu Fosse Você 2, este, sim, um recordista de público, atraiu cerca de 800 000 em também seis dias de exibição.
E para que supõe que por ter estreado no primeiro dia do ano o filme de Lula foi prejudicado, é bom lembrar que a comédia de Daniel Filho também estreou na mesma data, 1º de janeiro.
Comento:
Forçaram o quanto puderam para tornar este filmeco um sucesso de bilheteira. O bombardeio foi tão intenso que até eu mesmo estava me convencendo de que o filme poderia ser um sucesso, mas quê? Parece que aquela ideia de mobilizar sindicatos e projeções a meia-entrada simplesmente não surtiu o efeito desejado. Nem o povão, nem o espectador de cinema quiseram pagar para ver Lula ser heroicizado. Os que desconhecem cinema provavelmente não sabem que é justamente a primeira semana de exibição que determina a carreira de um filme, ou seja, Lula - O Filho do Brasil não terá uma carreira brilhante. Ainda que o filme não vá extremamente mal nas bilheterias, o que importa é que todas as previsões irreais e extremamente otimistas desse povo deu com os burros n'água. Será um presságio das eleições vindouras?
Modéstia à parte, mais uma previsão cinematográfica acertada: texto anterior aqui. Também acertei nas outras duas previsões: 2012 e Avatar.
sexta-feira, 8 de janeiro de 2010
Fiat e Google Street View - um caso exemplar de mídia espontânea
Para você entender este texto é necessário saber o que é o Google Street View. Esta famosa empresa disponibiliza no seu site de mapas as imagens das ruas que se deseja percorrer. Ou seja, se você esté em Paris e deseja ver o caminho do seu hotel até o Louvre, basta acessar o Google Maps e ativar a opção Street View: você visualizará todo o caminho desejado como se estivesse lá. Será que preciso dizer que é uma ferramenta fantástica? Até agora está disponível apenas nos países de primeiro mundo. Cientes disso, os marketeiros da Fiat, gente nada boba, propôs uma parceria com o Google para a implantação do Street View no Brasil. A empresa entraria com mais de 30 Fiats Stilo e o Google digitalizaria as ruas das principais cidades do Brasil. Qual o efeito disso?
Além da disponibilidade de um dos serviços mais fantásticos do séc. XXI para o público brasileiro, a Fiat está ganhando farta mídia espontânea em toda a imprensa. Mais um conceito que você precisa aprender. Mídia espontânea é como os publicitários chamam a propaganda gratuita que um produto qualquer ganha por estar envolvido com algo que é notícia. Ou seja, a Fiat está tendo a sua marca e seu Stilo divulgados por toda a imprensa sem pagar um tostão, pois é necessário noticiar que o Google estenderá ao Brasil o seu serviço Street View em função da parceria com a montadora. O que é mais caro, 30 Fiats Stilo ou várias inserções em rede nacional? Garanto que a Fiat fez um excelente negócio.
Imaginem a surpresa de ver o Fiat Stilo do projeto passando ao seu lado. Do jeito que somos, quando as imagens digitalizadas estiverem disponíveis, garanto que haverá fartas e calorosas saudações aos usuários do Street View brasileiro. Já começou a captura de imagens de São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte. Estima-se que esta etapa demorará 4 meses. Depois de concluídas estas cidades, os mesmos veículos colherão imagens das outras cidades brasileiras que sediarão jogos da Copa do Mundo de 2014. Pena que eles apagam os rostos de todas as pessoas fotografadas. Se não o fizessem, garanto que o nosso seria o Street View mais sorridente do mundo. Parabéns à Fiat por ter percebido o valor que sua marca agrega participando de uma das iniciativas tecnológicas disponíveis mais interessantes.