sexta-feira, 28 de maio de 2010

O homem que se considera bicho: uma besta!

Já escrevi toda uma vasta gama de textos que demonstram, sem grandes dificuldades, que o homem não é um animal. Ainda que nossos fenômenos biológicos sejam extremamente semelhantes aos dos animais, o homem, diferentemente deles, significa o mundo ao seu redor, atribuindo às coisas um sentido que elas não possuem em si. Além do mais, o homem é capaz de atuar na natureza, sempre desenvolvendo modos de melhorar sua vida. Reconheço, porém, que para uma pessoa não iniciada em filosofia este é um conceito muito sofisticado, pois a maioria das pessoas simplesmente ignora que, no centro das suas decisões, elas estiveram absolutamente livres para escolher qualquer rumo. A maioria prefere responsabilizar os outros pelas suas decisões. Mantém-se escondidas, assim, muitas coisas que ela, a maioria, prefere que nunca vejam a luz do dia. São os famosos recalques, as sublimações de verdades muito profundas que, por sensibilidade, a maioria prefere não enfrentar, pois encarar-se de frente, com todos os seus defeitos, é um gesto de grandeza moral do qual somente pouquíssimos são corajosos o bastante para fazê-lo. A maioria é covarde, prefere a mentira à verdade.

Atribuindo, pois, a outros a responsabilidade por suas decisões livres, a maioria das pessoas mascara o assentimento que deram à escolhas de gosto extremamente duvidoso que fizeram. Recusando-se a ver a verdade simples de que foram elas mesmas as grandes responsáveis pelos eventos dramáticos de suas vidas, a maioria acaba achando-se refém de situações difíceis que, se não deveriam estar sob o seu controle, certamente sempre estiveram sob a sua responsabilidade imediata. Eis o nó central da questão. A maioria não quer reconhecer a responsabilidade de suas escolhas. É mais fácil, então, achar que tudo o que se fez é culpa de circunstâncias terríveis que a forçou a tomar decisões extremas. Qual a consequência mais funesta desse ponto de vista extremamente equivocado? Certamente, o maior desastre intelectual decorrente dessa irresponsabilidade ativa é achar que não se teve liberdade quando se decidiu tomar uma decisão questionável. Agindo desta forma, a maioria procura se eximir das consequências de seu atos medonhos. Sendo, portanto, mais fácil esconder a real responsabilidade de suas atitudes, a maioria acaba concluindo que não foi livre em muito do que fez ao longo de sua vida.

Então, a maioria logo acha que não costuma agir de maneira muito diferente dos animais, pois eles também não têm liberdade nenhuma. Eles também são reféns das coisas que outros decidiram por eles. Ora, esta é uma conclusão absurda! Ainda que não se possa fazer tudo o que se deseja fazer, é certo que se tem responsabilidade por tudo aquilo que se fez. Como negar a liberdade de que qualquer um está efetivamente presente em tudo de que participa? Seria, e é, uma mentira horrorosa. Estaria-se escondendo deliberadamente uma grande verdade: a de que o homem é capaz de dar às coisas a sua volta o sentido que bem entender, pois os significados que elas possuem não são uma consequência de sua natureza material, em si indistinta, mas uma propriedade das escolhas libérrimas do homem. Portanto, é somente através da negação deliberada de que o homem não é livre em sua atuação no mundo que se chega à conclusão absurda de que o homem é só mais um animal como outro qualquer. Ora, ao contrário dos animais, o homem é livre. Ele faz o que quer. Ele dá as coisas o sentido que bem desejar. Ainda que a natureza o influencie, é ele que lhe dá o sentido que ela tem, e não o contrário.

O homem está em tudo o que faz. É capaz de agir com premeditação. Um cachorro nunca premedita nada. Ele sempre decide o que fazer a cada momento através dos seus instintos. O homem, ainda que possua instintos, é capaz de dominá-los. Quem negue esta faculdade evidente e primária é apenas um ignorante. Mas não é somente isso. O homem é ainda capaz de inventar coisas que nunca existiram, pois, deformando os elementos naturais, o homem cria instrumentos que lhe permitem tornar sua vida mais fácil e conveniente. Mais uma vez, quem o negar está apenas negando verdades fundamentais, o que é sempre lamentável. Senão, como seria possível o fenômeno dos esportes? Ora, nada menos natural que preparar-se para uma competição desportiva. Contrariam-se todos os princípios biológicos fundamentais: come-se menos (ou mais), exercita-se de um modo evidentemente contrário ao metabolismo natural do organismo, contraem-se lesões gravíssimas o tempo todo. Ora, que animal atua desta forma contra si próprio? Nenhum! Não há sobre a terra um só animal capaz de comer menos (ou mais) que o indicado pelas suas faculdades instintivas, exercitar-se mais que suas necessidades imediatas ou ainda fazer deliberadamente algo que lhe cause dor.

Pois o homem é capaz de abraçar a dor! O homem é capaz de contrariar ativamente os impulsos mais primários e imediatos de seu sistema fisiológio. É capaz de ser monogâmico quando seu instinto de preservação da espécie parece recomendar-lhe o contrário. É capaz de ficar sem comer diante de um prato de sua comida favorita após muitas horas em jejum. É capaz de negar seu impulso sexual. É capaz de controlar seu esfíncter para não defecar em qualquer lugar, como, bem o sabemos, os animais sempre fazem. É capaz de ficar acordado após muitas horas sem dormir. Ora, tudo isso nos leva a concluir que o homem não é um ser natural, mas artificial, capaz de construir-se a si próprio como bem o quiser! É o homem que decide o que e quando fazer. Animais não tomam decisões alguma. Agem somente conforme seus impulsos naturais imediatos. O homem, ao contrário deles, é capaz de negar todos os seus impulsos naturais imediatos! Não é determinado, portanto, por nenhum deles, ainda que eles possam influenciá-lo bastante. É pelo contário, ele, homem, que os determina conforme seu livre juízo e sua inteligência.

Não importa, portanto, o que a maioria pensa. Ainda que em alguns casos ela possa estar certa, ela geralmente está errada. Como não se indignar diante de pessoas que, para justificar suas atitudes animalescas, afirmam-se semelhantes a animais irracionais? Como não considerar uma vileza sem comparação alguém que se faça equivalente a uma cadela no cio? Ora, o animal não pode fazer diferente. Ele é extremamente correto em todas as suas atitudes. Note que o animal é simplesmente incapaz de contrariar a própria natureza. O homem, porém, sendo capaz de afirmar-se como bem entender, é capaz de negar a sua própria natureza fazendo-se semelhante a um bicho sem razão. Ora, se o homem não for um ser racional, já o disse algumas vezes, pode-se descriminalizar imediatamente o estupro. Pode-se ainda recomendar a descriminalização da pedofilia e do homicídio, pois os animais que possuem estas coisas em seus instintos fazem-nas sem o menor constrangimento. Parece-me que o homem também as possuem, logo, se o homem é um animal qualquer, por que criminalizá-las? Ora, essas coisas são crimes porque assim o decidimos livremente. Se não quiséssemos criminalizá-las poderíamos fazê-lo sem problema algum.

Tanto é assim que as leis dos diferentes países são diferentes entre si. O que é crime nos EUA talvez não seja crime no Brasil, ou o contrário. Nos EUA, o Estado reserva-se o direito de condenar as pessoas à morte, prática que foi abolida no Brasil no fim do Império, mas que pode retornar assim que, conforme o sistema legal estabelecido, os brasileiros o decidirem. Será que vocês estão vendo que nós podemos nos inventar a nós mesmo conforme o desejarmos? Não são as circunstâncias que nos determimam, mas o contrário. Transformar o homem em um ser natural, refém das circunstâncias, não é somente vitimizá-lo, mas é construir sobre ele um saber que não é confirmado pelas evidências, pois, como demonstrado, o homem é diretamente responsável por tudo o que faz. Não somente! Ele é também irremediavelmente livre para fazer as coisas como lhe parecer melhor. Eximir-se das responsabilidades sobre os próprio atos é o primeiro passo para se considerar o homem um animal sem razão - uma grande injustiça com o animal que, como já afirmado, não contraria a própria natureza. Afirmo-o com todas as palavras: negar a própria natureza é uma indignidade, uma vilania terrível da qual só o homem é capaz.

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Agora a TV vai ser realmente livre!

Você conhece estes senhores acima? São os presidentes de diversas empresas de alta teconologia reunidos para o lançamento do Google TV, um sistema de TV on demand. O que isso é exatamente, e por que é tão importante? TV on demand pode ser traduzido como TV por encomenda. A ideia do que isso vem a ser é extremamente simples. Ao contrário do sistema atual de transmissão, no qual somos obrigados a assistir o que o programador decidiu exibir naquele horário, na TV on demand é o espectador que escolhe o que será exibido. Aprendi este conceito na faculdade, enquanto cursava a disciplina "tecnologia do vídeo", obrigatória para estudantes de cinema do terceiro semestre. Para minha surpresa, o professor afirmou que a tecnologia para a realização da TV on demand já existia, e que bastaria apenas que os grandes empresários se reunissem em consórcio para torná-la uma realidade. Isso só não acontecia por pressão dos operadores de canal, cujo poder está no fato de que são eles que escolhem o que será exibido e quando.

Pois foi justamente isso que o Google anunciou ter feito esta última sexta-feira. Em conjunto a Sony, Adobe, Intel, Logitech, Best Buy e Dish, o Google desenvolveu o seu projeto de TV on demand, que está sendo chamado Google TV. O espectador terá a possibilidade de escolher o que ver e quando. Não estará mais na dependência da grade de programação elaborada pelos executivos operadores dos canais. Haverá, é certo, o broadcasting de eventos ao vivo, mas se o espectador perdê-los, poderá assisti-los à hora que quiser, não mais dependendo dos reprises em horários incovenientes. Pensemos, por exemplo, na sua série favorita. Ela será exibida sempre em determinado horário, mas estará continuamente disponível após esta primeira exibição. Ou seja, o espectador não será mais refém do que escolheram para ele, pois ele mesmo terá o poder de escolher o que quiser. Se o Google TV for efetivamente o que promete, a TV nunca mais será a mesma.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

O espiritismo "científico" desmascarado

Estive em animada conversa com minha prima no blog dela. Neste texto, seu nome será Ângela. O assunto foi um só: o suposto caráter científico da crença em espíritos. Ângela sempre sustentou que a crença em espíritos não é um fenômeno religioso, mas científico. Portanto, segundo ela, pode-se acreditar em espíritos sem, com isso, incorrer em uma crença religiosa. Ângela demonstrou, ao longo da conversa, um absoluto horror à ideia de que a crença em espíritos seria apenas uma crença. Segundo ela, é possível se justificar a crença em espíritos unicamente pela via científica. Oras, através da aplicação correta do que o termo "ciência" significa, jamais se poderia afirmar que a crença em espíritos é científica. Pois, para algo ter caráter científico, este algo precisa ser demonstrado materialmente por um cientista. Ele deverá publicar um artigo em revista especializada disponibilizando suas colocações à crítica dos seus colegas. Isso nunca aconteceu em relação à crença em espíritos que, portanto, continua, em nossos dias, sendo apenas uma crença como outras. A crença de que espíritos existem é do campo da religião, e não do campo da ciência.

Toda essa conversa surgiu por um motivo um tanto curioso. Eu estava aqui em casa trocando de canais na televisão - o famoso "zapping". Eis que me deparo, num canal regional, com uma antiga professora de redação minha. Ela estava em um programa de doutrina espírita. Para minha surpresa, ela afirmou que a crença em espíritos é justificável cientificamente, pois, segundo ela, a ciência já demonstrou que os espíritos se comunicam com os homens através da glândula pineal, que está no centro geográfico do nosso cérebro. É evidente que não pude concordar. Essa afirmação é absurda. A ciência não comprovou que os espíritos podem se comunicar conosco através da glândula pineal. O que a ciência comprovou é que a glândula pineal calcifica no início da puberdade, não tendo, portanto, função alguma na manutenção do organismo adulto. Essa é a opinião científica a respeito deste pequeníssimo órgão. Não é verdade, portanto, que a ciência tenha corroborado com a ideia de que os espíritos podem se comunicar conosco através dela.

Por conta da conversa que mantive com a Ângela no Twitter, sobre este assunto, publiquei aqui os seguintes textos: Abaixo o pensamento pseudo-científico, A bárbara negação do eu, A ciência não significa nada e Um físico tremendo e a mente sem fronteiras. Em todos eles afirmei com clareza o que é de matéria científica e o que não é de matéria científica. Ora, é certo que a ciência não pode estudar o fígado de gnomos, pois nunca um gnomo foi encontrado. Tampouco pode curar os calos dos pés de Papai Noel, porque este também nunca foi encontrado. Também não dá para entrevistar Deus e exibir os melhores momentos no Jornal Nacional, porque também Deus nunca teve sua existência material comprovada. O mesmo vale para os espíritos, cuja materialidade jamais foi comprovada. Conclui-se, então, que gnomos, Papai Noel, Deus e espíritos são seres que estão, por definição, fora do alcance científico. Pois a ciência só pode estudar seres que tenham existência material, ou seja, seres que possuam matéria.

Qual não foi a minha surpresa quando a Ângela resolveu dizer que eu estava errado. Segundo ela, é um "grande avanço" uma religião que se denomine "Ciência, Filosofia e Religião", como o espiritismo, segundo ela, se denomina. Mas é evidente que eu trepliquei dizendo que o espiritismo não é ciência. Seguiu-se, então, uma discussão com dois resultados possíveis: ou a Ângela concordaria comigo, ou discordaria, mantendo sua posição extremamente equivocada, porque eu não mudaria de opinião a menos que algo extraordinariamente correto e novo fosse demonstrado. O problema foi que este algo extraordinariamente correto e novo não apareceu. Nas suas várias tréplicas, a Ângela tão somente lutou o máximo que pôde para sustentar seu ponto de vista, segundo o qual, como já disse, a crença em espíritos é de natureza científica e não religiosa. Esta conversa durou quase um mês e só terminou hoje. Ângela resolveu finalmente concordar que a existência de espíritos não foi cientificamente demonstrada e é, portanto, "apenas uma crença". Ela repetiu o que eu estava dizendo em suas próprias palavras e segundo sua visão de mundo:

Acredito em espíritos, mas não afirmo que eles existem. A mediunidade é um fenômeno que nos leva a crer na existência de espíritos, mas de forma alguma é uma evidência científica dos mesmos. Para ser evidência científica, precisa ser testada pela ciência, coisa que não aconteceu até o momento. (grifo meu)

Ora, isto é o exato oposto do que ela estava dizendo antes. Ao que alguns poderão comentar: "Henrique! Você não tem o direito de tecer juízos a respeito da religião dos outros!" E não tenho mesmo! Mas não estive fazendo isso. Critiquei apenas e tão somente a proposição de que as verdades do espiritismo foram confirmadas cientificamente, o que não aconteceu! Em toda a sua defesa, Ângela sempre sustentou que seu pensamento não possuía nenhum elemento religioso. Segundo ela, seu pensamento era apenas do campo "da ciência, da lógica e da razão". Ora, da lógica e da razão ele pode até ser, mas não da ciência, pois espíritos nunca foram cientificamente demonstrados. Portanto, se alguém acredita em espíritos o faz por força exclusivamente religiosa e não científica. Aí estava minha grande discordância. Eu não estava disposto a admitir que espíritos foram cientificamente demonstrados. E só comprei a briga porque a opinião da Ângela sempre foi muito importante para mim. Digo mais, este blog só começou porque ela me incentivou a fazê-lo. Digamos que a Ângela tem certos privilégios comigo.

Se fosse outra pessoa sustentando as mesmas ideias eu não teria dado a menor bola. Mas era a Ângela. E doía-me muito vê-la dizendo aquelas coisas profundamente equivocadas. Infelizmente, logo após admitir que eu sempre estive correto, ela decretou: - "Este post acaba aqui," e está impedindo a publicação de novos comentários, mesmo que seja para elogiá-la. Ora, não há problema algum com a mediação de comentários. Ela é muito útil e necessária para impedir os trolls de dizerem as asneiras passionais de sempre. Mas ela é terrível se utilizada para impedir o livre trânsito de ideias. Portanto, não deixa de ser uma lástima que a situação tenha terminado desta forma autoritária e intransigente. Sempre fiz questão de deixar bastante claro que, em momento algum, estava criticando os pressupostos do espiritismo. Acho que as pessoas devem ser livres para acreditar que há espíritos zanzando por aí, que a reencarnação é uma realidade, que a glândula pineal fala com o além, etc.

Só não venha me dizer que estas coisas foram confirmadas pela ciência, porque elas não foram! Não podemos afimar que a crença em espíritos, em reencarnação e em propriedades extra-corpóreas da glândula pineal é científica, porque não é! A crença nestas coisas configura os ideais espíritas como religiosos, goste-se ou não disso. A atitude de acreditar nestas coisas não é científica, mas religiosa! Não há evidências científicas que justifiquem nenhuma destas proposições. Todas elas são de natureza exclusivamente religiosa. Portanto, o espiritismo congrega, em suas proposições, assuntos de natureza religiosa que devem ser respeitados como tais, mas que devem ser refutados quando se afirmam científicos. A questão não é, em absoluto, complicada. Trata-se apenas de fazer a verdade prevalecer. Não há problema algum em acreditar nas ideias espíritas. As pessoas devem ser livres para fazê-lo. Apenas não podem afirmar que seus pressupostos são científicos. Pelo menos deste mal a Ângela não sofre mais, eu acho.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Um carro para o aventureiro metrossexual

Pickups são carros que têm certo apelo junto ao pessoal que gosta de aventuras, certo? É razoável, portanto, que se anunciem pickups apelando para o lado aventureiro dos consumidores pois, assim, estaria-se atingindo o público alvo, aquele que curte aventuras. O que dizer, então, de um comercial de pickup direcionado ao aventureiro que nunca viveu nenhuma aventura? Isso mesmo. Que tal vender uma pickup para sujeitos que nunca saltaram de paraquedas, nunca fizeram rappel em cachoeira, nunca mergulharam com tubarões, nunca montaram em um cavalo selvagem, mas que são especialistas em risoto? Ora, essa campanha só poderia ser um piada, né? E de mal gosto.

Mas é isso que a Peugeot acaba de fazer com a esdrúxula campanha do Hoogar, sua pickup baseada no 206. Acho que há certo erro de conceito aí. O comprador do Hoogar pode até nunca ter vivido nenhuma aventura. Pode até ser fã da Hello Kitty. Mas não se vai jogar isso na cara dele, certo? Quer dizer, você não vai xingar seu potencial comprador aventureiro de mariquinha especialista em risoto, né? Faça-me o favor! Quer dizer, ao mesmo tempo em que as campanhas de produtos femininos apelam cada vez mais para a femilidade das moças desalinhadas com o feminismo, as campanhas de produtos masculinos apelam cada vez mais para o lado "delicado" dos marmanjos. Quer dizer, nem todas as campanhas, né? Algumas gostam de incentivar as vendas dos produtos anunciados.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Você abraçaria estes monstrengos?

Mas que figuras horríveis! Quem haveria de deixar pessoas vestidas como perfeitos monstros na companhia de crianças indefesas? Será que conseguirão dormim bem à noite? Não sei se crianças ajuízadas gostariam de abraça-las, bem o demonstram as desconfiadas menininhas. Já o moleque demonstra que há gosto pra tudo. De fato, se as criancinhas inglesas não parecem muito interessadas em abraçar estas verdadeiras monstruosidades o comitê organizador dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 estará em problemas, pois estas aberrações são os mascotes da próxima olimpíada. Elas foram divulgadas hoje junto a um farto material promocional. Ao contrário das pobres mascotes mortais que lhes antecederam, Wemlock e Manderville têm "história". Nasceram de um pequeno acidente durante a construção do estádio olímpico. Um funcionário da obra percebeu dois pedaços de metal caídos no chão e levou-os para casa, onde, à noite, ganharam forma e vida.

Definitivamente os jogos de Londres serão, ao menos do ponto de vista estético, os mais esquisitos da história. Ao contrário de Pequim que, apesar dos prédios maravilhosos, foi esteticamente conservadora, as olimpíadas londrinas estarão cercadas de objetos de gosto muito, muito duvidoso mesmo! Já escrevi aqui no blog um pequeno texto sobre as monstruosas torres que se erguerão do lado do estádio olímpico (link aqui). O Ariel disse, com muita razão, que parecem tripas de alienígena. Outro aspecto altamente controverso foi o logotipo dos jogos que, segundo as más linguas, parece a personagem Lisa Simpson em felação com um adulto. Isso mesmo que você leu. Infelizmente, neste caso, as más línguas estão certas! Veja você mesmo e tire suas próprias conclusões.

E, para finalizar, gostaria de mostrar mais duas fotografias feitas hoje pela imprensa britânica. A julgar pela reação de desconfiança das crianças o comitê olímpico terá alguns problemas em convencê-las a comprar o farto material de merchandising que eles estão planejando vender. A feiúra estará à solta em Londres 2012! Tomara que o mundo acabe antes deste vexame. Não é sempre chato quando alguém faz uma imposição unidirecional estética sem se basear no mercado? Parece que estão confundindo a transmissão da ideia de arrojo e modernidade com a mais pura e simples esquisitice. Ou será que os ingleses já são naturalmente esquisitos? Seria a explicação mais simples para tantos desastres.

"Oi. Você me dá um pedaço da sua carne?"

terça-feira, 11 de maio de 2010

A beleza - mistificação ou realidade?

Será que não consideramos, todos nós, que algumas coisas são belas? Será que não notaremos um dramático contraste ao compararmos algo que consideramos belo a outra coisa a qual sejamos indiferente? Não se destacará o belo diante dos nossos olhos? Ao compararmos, por exemplo, um carro da última geração, desenhado pelo mais conceituado estúdio europeu, a um carro ordinário projetado por engenheiros do terceiro mundo não teremos diante de nós uma brutal diferença estética? Não é no mínimo curioso que automaticamente consigamos atribuir a este ou aquele design algumas características? Este é moderno, este é ultrapassado, este apela aos jovens, este apela às mulheres, este apela aos homens de meia-idade, este apela ao jovem adulto rico. Como pode se dar isso? Que estranho fenômeno de comunicação permite esta identificação tão rápida entre traço e intenção? E pensar que isto ocorre em absolutamente tudo que está ao nosso alcance. Atribuimos características não somente aos carros, mas também às roupas, aos objetos de uso doméstico, aos aspectos urbanísticos das cidades, etc. Simplesmente a tudo o que foi criado pelo homem podemos desvendar as intenções de autor.

Curiosamente, é tamanho o nosso expansionismo psicológico, que até mesmo às coisas que não foram criadas por nós atribuímos características psicológicas. Quem não sabe reconhecer facilmente a mulher mais bonita dentre um grupo de donzelas? É claro que ocorrem algumas discordâncias neste ponto, mas geralmente há um consenso bastante claro entre quais são as moças mais belas. E pensar que não ficamos apenas atrelados a estes aspectos físicos. Também atribuímos valores nossos a todo o resto da natureza. Categorizamos e simbolizamos todos os tipos de flores, por exemplo. Algumas são usadas para presentear alguém nos momentos de dor. Já outras são mais adequadas aos momentos alegres. Presentar uma mulher com flores inadequadas à circunstância momentânea pode render certo desconforto nas moças mais sensíveis. E, é evidente, não paramos nas flores. Até mesmo aos conjuntos de nebulosas interestelares podemos atribuir diferentes valores. Esta transmite paz, esta outra transmite inquietação e desconforto, etc. Notem que, ainda que ocorram algumas discordâncias por questões culturais, o consenso sobre quais coisas são mais belas em relação a outras parece bem estabelecido e, por que não dizê-lo?, natural.

Sim, sabemos diferenciar coisas belas de coisas menos belas sem problema algum. E só o fazemos porque podemos compará-las a um padrão, algo objetivo, que contém em si as características belas. Algo que é o belo por natureza. Ao que muito poderão argumentar: "Isto não existe! O belo é tão somente uma construção individual e/ou coletiva e, como tal, histórica, não sendo algo que tenha uma efetiva existência independente". De modo algum afirmaria que não há profundos aspectos históricos na nossa percepção estética. Conforme afirmei no texto Aletheia - da construção da verdade à sua implosão, o homem é fundamentalmente histórico. O tema principal daquele texto é a relação do homem com a noção de verdade, mas também lhe cabe a discussão da beleza, pois ambas têm aspectos históricos. Em ambos os casos, a compreensão do que é verdadeiro ou, neste caso, belo, sofre variações. Mas tanto lá quanto cá sou obrigado a afirmar que, além destas pequenas distorções históricas, paira sobre o homem a necessidade da verdade e da beleza que, caso fossem unicamente construções nossas, não poderiam em absoluto ser nem verdade e nem beleza. Seriam tão somente fantasias ou, melhor dizendo, pequenas mentiras que contaríamos a nós mesmos para nos agradar.

Em verdade, não é isso que experimentamos ao nosso redor. Se não houver uma verdade efetiva, nada pode ser efetivamente verdadeiro, o que legitimaria e validaria quaisquer atos já praticados. Sacrifícios humanos, por exemplo, não seriam naturalmente maus. Seriam apenas mais um modo de expressão cultural dentre vários. Bastaria que um determinado povo voltasse a praticá-lo para que eles se tornasse mais uma vez correntes entre os homens. Na questão da verdade, é evidente, se não há verdade absoluta, pode-se extinguir todo e qualquer sistema jurídico, pois todas as leis seriam apenas instrumentos de dominação através dos quais alguns homens impediriam outros de possuirem seus bens (aos que desejarem aprofundar-se nesta questão da verdade, recomenda-se a leitura do texto Doxa, a grande inimiga da verdade). Ora, não estamos verdadeiramente convencidos de que é o sistema legal que garante a institucionalidade estatal mínima sem a qual nenhum agrupamento social seria possível? Arrisco dizer que, assim como é evidente que há verdades absolutas objetivas, que podem ser conhecidas racionalmente, também há padrões estéticos fundamentais, com os quais qualificamos todas as coisas. Pode-se chamar o seu mínimo denominador comum de beleza, algo que, assim como a verdade, tem uma existência objetiva e está ao alcance dos homens em todos os momentos históricos, por mais diferentes que os agrupamentos humanos tenham sido entre si.

Portanto, assim como não podemos emitir nenhum juízo sobre o que é certo ou errado sem apelarmos ao conjunto de preceitos universais que devem reger a vida humana (a verdade), não podemos emitir nenhum juízo estético sobre o que é belo ou feio sem apelarmos ao conjunto de preceitos universais que regem nossa valoração da realidade (a beleza). Notem que todas estas colocações versam apenas sobre a existência efetiva destas qualidades. Não fiz até agora uma só afirmação sobre o tipo de existência que elas possuem. Não afirmei, por exemplo, se são apenas produto da seleção natural de nossa espécie após milhões de anos de evolução. Tampouco afirmei se são ideias imateriais a que somente o homem, por virtude da sua razão, é capaz de atingir. Afirmo-o deliberadamente que sou muito mais favorável à segunda hipótese, mas não estou escrevendo sobre a natureza da beleza ou da verdade. Essa discussão demandaria um texto muito maior. Percebam que apenas a constatação simples de que verdades e padrões estéticos universais já é absolutamente radical. O mundo contemporâneo advoga o relativismo completo fazendo dele uma verdade indiscutível. Mas, como tantas vezes perguntei, como se pode afirmar que algo é correto ao mesmo tempo em que se nega que qualquer coisa pode estar correta?

O mundo vive, portanto, uma contradição terrível, pois o pensamento de muitas pessoas de destaque na sociedade contemporânea foge da constatação simples e honesta de que há universais. Essas pessoas pretendem viver como lhes parece melhor, e têm horror à ideia de que o modo como vivem é objetivamente incorreto. Que alguém se arvore a desmascarar seus intentos e apontar-lhes sua incorreção é algo que elas não podem em absoluto admitir, mas muitas vezes isso é necessário. Como se negar a desmascarar a delinquência editorial do jornal O Estado de São Paulo conforme apontado no texto anterior? Certamente eu preferiria não precisar dizer que alguém está errado, mas se este alguém começa a advogar a destruição de virtudes que eu tenho como universalmente boas como poderei me calar? Infelizmente me vejo várias vezes na desconfortável posição de precisar apontar às pessoas os seus equívocos, mas nunca o faço quando elas agem mal na esfera pessoal. Manifesto-me apenas no momento em que elas começam a pregar a destruição das qualidades positivas do mundo que nos cerca. Nestas cirscunsâncias, ainda que muitas vezes eu sofra duras e injustas represálias, não me calarei, nunca foi do meu feitio agir de modo covarde.

De fato, não compreendo porque várias pessoas têm tanta má vontade em perceber a verdade e a beleza objetiva que nos cercam. Será que não conseguem perceber o conforto imenso que esta constatação proporciona? Senão, digam-me, qual situação é mais confortável? Saber-se movido por princípios fundamentalmente verdadeiros e belos ou, através da negação ativa dos mesmos, ver-se desprovido de qualquer certeza? Não é evidente que ao negar-se a verdade e a beleza universais tudo o que se têm são dúvidas? É certo que não se deve acreditar em nada apenas porque a maioria o faz, mas também não é sincero furtar-se ao estudo dos clássicos que nos legaram tamanho patrimônio cultural. Em ciência, seria o equivalente a negar-se a receber o remédio que nos salvaria a vida. Ora, negar-se a aprender as estupendas descobertas morais que nos antecederam é tão estúpido quanto negar-se a receber a medicação adequada para uma determinada doença. Em ambos os casos estaríamos diante de uma situação infeliz, onde a pessoa não se permite mover pela razão. Tanto que, conforme escrevi em muitos outros textos, as "filosofias" que negam verdades fundamentais pretendem-se deliberadamente irracionais. De fato, a constatação mesma da nossa razão permite-nos conclusões fantásticas.

Assim, é somente através da negação ativa da razão humana que se pode afirmar a inexistência de padrões de beleza e verdade. Somente seres irracionais não alcaçam o certo ou o errado. Logo, toda e qualquer conclusão racional feita a partir da realidade é negada por essas "filosofias" perturbadas. Elas advogam tão somente a bestialização do homem. Todo o resto deve ser combatido. Mas, perdoem-me a astúcia, como pode a bestialização do homem ser o correto se nada mais poderá sê-lo? Note que está vetada ao homem a negação de sua razão pois, mesmo quando pretendemos negá-la, só o fazemos afirmá-la! Portanto, dizer que não devemos viver segundo a razão não apenas está incorreto, como é também uma mentira intelectualmente desonesta. A razão nos precede, ela é uma faculdade fundamental do ser humano. Infelizmente, a sua negação surge como produto de equívocos fenomenais a que as pessoas se sujeitam quando se oferecem à desonestidade ativa destes autores inescrupulosos que querem fazer do homem só mais um animal. Notem como a verdade e a beleza são eficazes antídotos à essas armadilhas mal-intencionadas. O reconhecimento honesto da existência inequívoca destes universais favorece a inteligência, oxigenando sua atividade. O mais continua o que sempre foi: tormentos de pessoas que correm atrás do próprio rabo.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

Pequena nota sobre a psicose da mente moderna

Já faz alguns dias que estou meditando certos aspectos psicóticos da cabecinha dos modernos. Como o raciocínio final será um tanto complexo, convém adiantar alguns pormenores, como a inspiração aconselha. Não sei se todos estão a par desta informação fundamental, mas a mente moderna é marcada por uma profunda sensação de derrotismo: o tempo todo o moderno afirma que é impossível ser feliz, que há um grande mal-estar na contemporaneidade, que o sistema é opressor, terrível e, assim, impede qualquer liberdade. Acabam concluindo que, na falta de coisa melhor, o correto é viver uma vida de excessos hedonistas, satisfazendo o estômago, fugindo de todas as verdades inquietantes que a eles assaltam a consciência. Essas são as soluções propostas a nível individual. Como limitam-se às vidas deles, não as considero ameaças a ninguém. O problema está nas regras que, discretamente, eles estão impondo ao resto da sociedade através da sua atuação quotidiana.

Conforme explicitado em vários textos elencados ao fim deste, os modernos propõem um regime de elogio da loucura. Segundo eles, as forças sociais não serão transformadas por indivíduos ajustados, pois estes adequam-se às situações, permitindo-se transformar pelo sistema. A salvação estaria, pois, nos indivíduos que não se permitem adequadar. Portanto, a modernidade considera os doentes mentais os melhores agentes de transformação da sociedade. Pregam, assim, um regime de instabilidade completa onde todas as certezas não seriam apenas questionadas, mas efetivamente combatidas ao custo de muitas vidas pela via terrorista, conforme muitos professores advogam aos seus alunos nas principais universidades do Brasil. Parece muito fantasioso, por isso é sempre pertinente relembrar os vários textos sobre o "sociólogo" Slavoj Zizek que o jornal O Estado de S. Paulo permitiu-se publicar (exemplo desta insanidade institucional aqui).

Meu desejo é tão somente tornar estas coisas conhecidas. Penso que a maioria das pessoas tem o direito de saber o que se tem tramado contra elas. A modernidade considera-se tão derrotada que não está mais pregando a via institucional. Como estão convencidos da sua absoluta falta de alternativas, advogam a favor dos atos mais insanos que se possa imaginar. Conforme se vê no texto linkado acima, por autoria de um prof. do departamento de filosofia da USP, qualquer solução eficaz só é viável através do extremismo mais irracional e desumano. Ao contrário dos belos valores humanistas com que justificam seus atos terríveis, esta gente planeja a destruição de muitas vidas humanas pois, somente assim, o surgimento da "humanidade verdadeira" seria possível. Não é difícil perceber que esta humanidade feita de virtudes é somente aquela que eles imaginam. Qualquer outra coisa deve ser destruída.

Será difícil perceber o real desapreço que essa gente tem pela liberdade efetiva? Afinal, aceitam apenas o próprio ideal do que deva ser o ser humano. O resto não somente pode como deve ser destruído. Como não ficar chocado com o apoio direto que O Estado de S. Paulo lhes proporciona? Na sua carta de intenções, este jornal não afirma que entre os seus valores fundamentais estão a democracia e a liberdade? Quem é, pois, o Estadão para questionar a "censura" que lhe foi recentemente imposta pelo filho do José Sarney através do Judiciário? Um veículo de informação que se presta ao papel de defender a tirania mais explícita não somente não representa os valores da sociedade brasileira como se declara contra eles. Vejam a que ponto chega a mentira instituicional de um dos nossos maiores jornais. Como não se interessar em tornar estes fatos sombrios conhecidos pelas pessoas?

Textos relacionados:
- As aberrações da modernidade e a luta anti-psiquiatria
- Qual é a cara da modernidade?

sábado, 8 de maio de 2010

Um físico tremendo e a mente sem fronteiras

Stephen Hawking é um físico conceituado. Você provavelmente já o viu. Nos últimos anos, ele vive preso à uma cadeira de rodas devido à uma doença chamada esclerose lateral amiotrófica, diagnosticada quando ainda tinha 20 anos de idade. Apesar de estar praticamente paralisado, necessitando do auxílio de um computador para se comunicar, suas faculdades mentais não foram afetadas. Sua cognição e inteligência permanecem intactas. Mas ele não se martirizou pela sua tragédia pessoal, nunca se tornou um sujeito recluso. Ele teve participações especiais em dezenas de filmes e programas de TV. A última das suas investidas na comunicação é o especial, pelo Discovery Channel, chamado Into The Universe With Stephen Hawking.

Não tinha ouvido falar neste programa até ver sua propaganda no próprio Discovery Channel. Mas, como o vi aqui no Brasil, não tive acesso à propaganda americana. Curiosamente, a redação em português ficou muito mais interessante e sugestiva que o texto original em inglês - o único que encontrei no YouTube para compartilhar com vocês. A edição de imagens é rigosamente a mesma, mas a versão brasileira sugere aspectos mais interessantes da vida de Hawking como, por exemplo, a afirmação de que, apesar da delicada constituição física, este renomado cientista tem a mente ocupada com muitas coisas da mais alta importância.

Vejam, portanto, o mérito enorme dele. Ao contrário do sentimento derrotista e trágico que se abateria sobre a maioria de nós, Hawking não se permitiu abalar ou, caso não o tenha podido evitar, procurou resolver-se de modo que sua vida intelectual pudesse continuar como se ele jamais tivesse recebido aquele diagnóstico tão fatídico. Ou seja, ele se colocou acima da situação tão difícil. Ele não deixou de prosseguir seus avançados estudos em física teórica apenas porque não tinha como se alimentar por si mesmo. Para mim, este é um exemplo extremo da grandeza moral e psicológica do ser humano. E pensar que há tantos outros!

São tantos elogios merecidos a quem consegue superar adversidades deste tipo que é uma pena meu objetivo hoje ser apenas comentar a dimensão intelectual do fenômeno. A mim, em virtude dos textos que andei escrevendo ultimamente, interessa no momento chamar a atenção de vocês para como Hawking conseguiu impedir sua cognição de desmoronar diante dos terríveis entraves que seu corpo começava a impor-lhe. Primeiro, percebam que estou fazendo uma distinção entre as faculdade cognitivas e as faculdades orgânicas. Apesar de precisar de alguém que o limpe após suas necessidades, a mente de Hawking dedica-se ao estudo dos mistérios do Universo.

Ou seja, tendo superado emocionalmente sua contínua deterioração física, Hawking continou se entregando quotidianamente àquilo que realmente lhe interessava. Bastou equacionar os meios para se manter na ativa, ele não hesitou em continuar sua agitada vida intelectual. Percebam que, não tendo a doença afetado sua mente, ao invés de entregá-la ao derrotismo, Hawking permitiu-se viver como se fosse uma pessoa normal, sem nenhuma deficiência. Ainda que estivesse preso à cadeira de rodas, este fato não impedia sua mente de raciocinar as mais difíceis proposições da física teórica contemporânea.

Hawking não se permitiu o abandono dos estudos. Já que sua mente estava intacta, ocupou-a com as coisas que considerou mais importantes. Notem que foi ele que determinou o que aconteceria em sua vida. Ele não permitiu que a doença assumisse o controle. Enquanto a enfermeira preocupava-se com suas necessidades fisiológicas, ele se preocupava com os problemas do Universo. Não foi a situação que o determinou. Foi ele que determinou a situação. Aí está sua grandeza moral: ele prova para nós todos que a mente é indeterminada. Com seu exemplo de vida fica demonstrado que todas as vezes que fugimos dos problemas da vida, nós o fazemos por covardia ou fraqueza, nunca porque esta é a melhor alternativa.

Nós escolhemos ativamente onde estamos e o que fazemos! As circunstâncias não têm esse poder sobre nós. Caso nos vejamos refém de uma situação, é porque não fomos moralmente fortes para encará-la de frente e combatê-la. São fracos os que se entregam, tornando-se, assim, reclamões infelizes. Somos livres para nos colocar onde bem desejarmos. Nosso corpo pode estar na mais árida prisão enquanto nossa mente repousa tranquila na mais doce consolação. Isso só é possível porque a realidade ao nosso redor é uma invenção nossa! Ou seja, ela não é dada. Somos nós que interpretamos os eventos da maneira que nos parece mais correta! A ciência os descrevem em seus aspectos materiais, mas somos nós que lhes atribuimos o sentido que possuem.

Nada é, em si, o que é. As coisas são conforme nós as explicamos. É através das nossas determinações internas que colorimos o mundo ao nosso redor. O que ele é materialmente interessa somente à ciência. A imensa maioria das pessoas anima a realidade que a circunda atribuindo-lhe qualidades positivas ou negativas. Para uma pessoa urbanizada, o mangue fedorento é algo que provoca asco. Para a pessoa que tira dele o seu sustento e que não conhece mais nada, ele é uma benção! Todos os turistas que visitam o Rio de Janeiro consideram a baía da Guanabara um cenário de beleza incomparável, mas para o famoso antropólogo Levi Strauss ela pareceu feia como "uma boca sem dentes". São muitas as evidências a favor da ideia de que não existe faculdade humana em que o pensamento não venha antes das conclusões materiais.

Que o diga Stephen Hawking! Como já afirmado, ele nos ensina que o pensamento vem antes dos acontecimentos naturais. Através de uma determinação muito forte somos capazes de resignificar até mesmo as maiores tragédias, colocando-as ao nosso favor! Já que não as podemos reduzir a pó, somos capazes de dar a elas uma nova dimensão. Enquanto nossa inteligência estiver desperta, podemos fazer o que bem entendemos da nossa vida. O corpo é como que um burro de carga a nosso serviço. É a mente que o comanda, não o contrário. Hoje isso é mal percebido por uma simples razão: vivemos em um tempo onde se aconselha a escravização da mente pelos caprichos do corpo. Ao contrário do mundo, eu prefiro elogiar a luz da razão e do reto entendimento. Não me preocupo com a opinião da maioria porque estou bem acompanhado, não é Hawking?

sábado, 1 de maio de 2010

James Cameron, quem diria?, estava errado

Avatar é um dos filmes mais tendenciosos que existiu. Seu diretor, James Cameron, pretendeu retratar os avanços civilizatórios como naturalmente maus. Os agentes do progresso são, em seu filme estúpido, tipos obtusos, rasteiros, preconceituosos, manipuladores, interesseiros, em suma, a escória. Ao mesmo tempo, as populações autóctones são retratadas como detentoras de todo o bem e verdade. Seus indivíduos são autênticos, honestos, honrados, ecológicos, em suma, o retrato mais completo da virtude moral. O problema é que, com sua habilidade cinematográfica, Cameron talvez tenha enganado muitas pessoas. Só mesmo através da arte cinematográfica extremamente bem elaborada para se confundir as pessoas em matéria tão simples e fundamental, pois todos sabemos muito bem que este retrato maniqueísta da realidade é incorreto. Nem todos os nativos são santos, nem todos os defensores da civilização são exploradores insensíveis. Essa é uma leitura marxista muito simplista, ao gosto das preocupações ecológicas atuais. As ocorrências verdadeiras são muito mais complexas que isso.

Bem o demonstram o recente vídeo produzido por militares americanos sediados no Afeganistão. Ao invés da disciplina insensível e desumana que deles se espera, fizeram um vídeo onde parodiam as músicas de Lady Gaga e Beyoncé. Fizeram-no dançando escandalosamente como essas senhoras costumam fazer para chamar a atenção e vender discos. O vídeo virou hit na internet e mereceu reportagem do Jornal da Globo, que segue abaixo. Ao contrário da surpresa que muitos terão com este vídeo, eu não me surpreendi nem um pouco. Bem sei que nossos pensamentos não são determinados por nada. Nem a mais rígida disciplina é capaz de impedir-nos de fazer o que bem entendermos. Além do mais, não sou maniqueísta. Não separo o mundo em um nós composto apenas de bondade e de misericórdia e em um eles feito apenas de vilania e maldade. O ser humano é o que quer. Consideramo-nos corretos sempre que entramos em uma disputa. A redução da multiplicidade de saberes à um mínimo denominador reducionista e incompleto é obra de pessoas mal-intencionadas e mentirosas.



ps. Veja também estes outros dois textos escritos sobre Avatar:
- O rabo vistoso no Na'vi inocente e feliz.
- Avatar, de James Cameron: um elogio à delinquência.