Este será um breve texto especulativo. Pretendo apenas ressaltar um questionamento de importância central para o reto entendimento do que é o homem segundo dois pensadores extremamente influentes da contemporaneidade: Freud e Foucault. Não entrarei agora em particularidades e detalhes. Apenas traçarei linhas gerais que me permitirão um aprofundamento posterior. O assunto que irei abordar é também de enorme importância para o pensamento de ambos. Trata-se da efetiva noção de liberdade individual.
Para Freud, estamos indefinidamente presos numa intricada trama de neuroses (somatizações de conflitos emocionais) decorrentes de nossos relacionamentos familiares mais próximos. Segundo o pai da psicanálise, estas neuroses aprofundam-se tanto que se tornam parte constitutiva do nosso ser, a tal ponto que não se pode mais separá-la de um eu pretensamente livre. Freud acreditava que não se podia dissociar a neurose do eu sem destruí-lo por completo. Atentem para o profundo pessimismo desta idéia, tão revelador de uma profunda descrença no homem.
Já Foucault era mais instruído em filosofia. Esse conhecimento poupou-o de algumas asneiras freudianas. Foucault sabia que o homem se faz a si mesmo como quiser, ou seja, não é determinado por nenhuma experiência anterior, pode-se construir como lhe parecer mais adequado. Através de profundas análises históricas, o francês demonstrou a evolução das idéias, o que revela o seu caráter de criação. Portanto, Foucault não caia na ingenuidade de achar que o homem é natural, ou seja, sabia que o homem é uma construção de si.
Pelo que disse até agora, parece que Freud é um determinista e Foucault é um radical mentalista. Isso não estaria propriamente correto, pois, ainda que estas breves frases revelem em síntese o que Foucault pensava, Freud está mal representado nelas, pois ele acreditava que o homem se pode transformar a si mesmo. Freud apenas não compartilhava da idéia de que há liberdade total no processo, por isso acreditava que o homem não consegue se libertar totalmente das neuroses. Uma pena, porque os filósofos clássicos já tinham demonstrado a liberdade total há milênios.
Por sua vez, Foucault também não está plenamente correto, pois a infância marca impressões profundas na mente humana. Pode-se demonstrá-lo através dos padrões de comportamento adquiridos, comprovados pelas neurociências. Caso uma pessoa seja educada de maneira muito disfuncional em sua infância, a reparação dos danos levará tempo e exigirá muita paciência e determinação. Porém, ao contrário do que Freud ensina, ainda que nunca nos tornemos perfeitos, é possível uma superação efetiva das neuroses, com evidente melhora na qualidade de vida.
Isso só é possível porque as interconexões entre nossos neurônios podem ser remodeladas conforme um treinamento que podemos nos impor. Aí se vê como a liberdade é total, pois podemos modificar absolutamente tudo em nossa personalidade. Não importa que tenhamos sido, por exemplo, educados dentro do protestantismo mais radical. Podemos nos fazer o mais corrosivo tipo de ateu, como Marx ou Nietzsche, ambos filhos de pastores. Tampouco importa a lascívia que tenhamos vivido. Podemos nos converter como Santo Agostinho ou São Francisco.
Portanto, percebam que estou bem mais próximo de Foucault do que de Freud, pois, como afirmado, não apenas a filosofia clássica afirma a completa construção das crenças humanas, mas também a medicina têm demonstrado que o homem pode se fazer como quiser. O interessante é que, mais uma vez, a melhor solução do problema parece estar no meio-termo. Só não se pode corroborar com o erro grosseiro de que o homem é determinado pelas suas experiências anteriores, pois nem Freud concordava com isso. Essa idéia é defendida apenas por pessoas ignorantes em filosofia e psicologia.
Tenho a sensação de que este texto simples e despretensioso me ajudará a organizar certos raciocínios. Pretendo desenvolver maiores detalhes aos poucos, entrando nas várias particularidades. Provavelmente a primeira delas será uma tentativa de compreensão do mecanismo com que elegemos nossas prioridades, pois o modo como escolhemos é, de fato, a melhor maneira para analisar o que somos, visto que muitos agem de maneira vergonhosamente oposta ao que dizem. O desvendamento desta imoralidade absurda (irei prová-la) é importantíssimo para se compreender o homem.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
Uma importante questão em Freud e Foucault
quinta-feira, 24 de junho de 2010
Pra vencer, você tem que se entregar
A gente não pode querer as coisas pela metade.
Temos de lutar por elas desde o primeiro instante.
Lembra da seleção italiana de 2010?
Aquela que foi eliminada na primeira fase da Copa?
Era a atual campeã.
Mas não entrou em campo na África com vontade de vencer.
Empatou os dois primeiros jogos.
E começou a lutar aos quarenta minutos do terceiro,
Quando já perdia por dois a um.
Assim não dá, como não deu.
Seus jogadores quiseram tarde demais.
Ao contrário deles, os vencedores querem a vitória no primeiro instante.
Acreditam contra toda suposição.
Não lutar desde o início da disputa é começar derrotado,
É entregar para o inimigo o bem mais importante da batalha:
A determinação,
Que é quem vai definir o campeão.
Quem quer as coisas pela metade, recebe pela metade.
Quem deixa tudo pra depois é superado,
Porque vai existir alguém que queira mais do que ele,
Que tenha mais raça que ele,
Alguém que, mesmo mais fraco e incapaz,
Por nunca deixar de acreditar em si vence,
Pode até perder algumas batalhas antes, mas vence a guerra.
Se você quer vencer, não pode entrar no jogo aos quarenta do segundo tempo.
Senão a vitória premia o adversário.
O mundo é cruel com quem faz as coisas pela metade,
Porque tem de ser justo com quem se entrega por inteiro,
Como foi justo com os eslovacos.
Por isso, nunca se deixe vencer pelo seu maior inimigo:
A sua indiferença.
Porque o único responsável pela sua derrota é você mesmo.
Então, decida-se logo em entregar-se todo na disputa.
Não tenha medo de cara feia, nem de xingamento.
Você vai ter que ser mais forte que isso.
Vai tomar falta e vai cair de cara no chão,
Mas vai levantar.
Vai dar passes errados e se lamentar,
Mas não vai perder a coragem de tentar mais uma vez.
Porque só assim você não vai desperdiçar o passe preciso do companheiro,
E mandar a bola pro fundo da rede, pra comemorar, e chorar como os campeões,
Porque agora você é tão vitorioso quanto eles.
Porque agora você é um deles.
Porque o impossível é uma mentira que só os derrotados aceitam.
Porque você sabe que o infinito começa no coração de quem acredita,
E porque acredita, faz.
quarta-feira, 23 de junho de 2010
Um amanhã mais bonito
Todo mundo acha o que faz muito importante, não é?
Parece que não existe nada sem pretensão.
A humanidade esqueceu como é viver sem relógio.
Será que não existe mais ninguém que se considere comum?
É tanto excesso hoje em dia. A gente acaba acreditando!
Mas não precisa ser assim!
Nem tudo é urgente! Nem tudo é "pra ontem"!
A gente tem que escolher melhor as prioridades!
Pra que tanta cara fechada? Tanta rabugice?
A vida precisa de palhaçada!
A gente não precisa virar criança. A gente tem de ser leve!
E esquecer um pouco a ambição de ser a última bolacha do pacotinho.
A gente é importante sim. Mas não porque a gente saiba de tudo.
Gestos de carinho valem mais do que palavras inteligentes.
O mundo precisa resgatar o que é bom.
Já tem gente demais achando que vale tudo por dinheiro.
É muita correria pra cá e pra lá.
O mundo precisa de gente que saiba o valor de um abraço, de um sorriso,
De um aperto de mão sincero.
Se você tem coração, precisa de tempo pra ser você mesmo,
Pra ouvir um CD legal, pra curtir um livro interessante,
Pra passear pelo parque, pra caminhar no calçadão.
O corre-corre faz a gente esquecer.
Mas a gente tem que lembrar!
A nossa vida não pode ficar para o amanhã que a gente nunca viu.
Nós só temos um dia para sermos nós mesmos.
E esse dia é hoje,
porque se você não for feliz hoje, você não vai ser feliz nunca.
Nem precisa muito.
Pra ser feliz a gente precisa apenas respeitar e ser respeitado,
Precisa valorizar o que é bom!
Caramba!! Tem gente que diz não saber o que é bom!
Como é que pode ser feliz alguém assim?
Alguém que não ache bom um passeio no entardecer, um capuccino bem cremoso,
Ou uma pizza com os amigos!
Pessoal! O mundo não pode esquecer o que é bom!
Será que a gente aguentaria viver num mundo sem bondade?
Um mundo sem Mozart, sem Fernando Pessoa, sem Cartola?
Sem encanto, sem magia e sem milk-shake de chocolate gelado?
Não dá, né?!
A gente é importante sim, e muito!
Não porque a gente conhece os mistérios da filosofia ou da física,
Mas porque a gente não deixa esquecer o que é bom!
Porque a gente sabe o que importa.
E porque a gente não se importa de explicar mil-vezes a mesma coisa.
Para o mundo ficar mais feliz você precisa tomar uma atitude hoje.
Faça feliz quem está do seu lado.
Sorrie mais. Perdoe mais. Ame mais.
Seja mais feliz, pois só assim o mundo vai ser mais feliz.
A gente não pode esquecer que o mundo começa dentro da gente.
É lá que se constrói um amanhã mais bonito.
Você não precisa de muita coisa,
Mas você precisa de tudo o que importa.
segunda-feira, 21 de junho de 2010
O que faz você feliz também faz alguém feliz?
Poema de supermercado. Criatividade de publicitário. Opinião da maioria, comunhão. Gosto pelas coisas pequenas.
Sabor da manhã, fruta macia, cheiro de terra molhada. Um sorriso inocente, um abraço contente.
Despreocupado ao vento, a bicicleta, a praia, o calçadão.
Milho cozido, bolo de fubá, mandioquinha frita, água de coco.
O telefone tocando, os amigos, o churrasco, a Seleção. Gol do Brasil, gol de mão, estouro de rojão.
Calor de Ubatuba, friozinho de Campos, serração.
O chato que não importa mais. A sinceridade, a verdade, a libertação.
O pijama gostoso, o edredon surrado, um livro na mão.
A Mantiqueira, o Pão de Açúcar, o Corcovado. O próprio limite ultrapassado.
O respeito, a gentileza, a honestidade, o compromisso, a honradez, a mansidão.
A humanidade respeitada, a criança valorizada, a opinião do ancião.
O otimista, o corajoso, o arrependido, o esforçado.
A palavra dada, a TV desligada, a cabeça pacificada, a praça lotada.
Pipoca fresca, doce ou salgada.
A escola de samba, a orquestra ensaiada, a fanfarra amadora, a criança danada.
Um beijo da mulher amada, o tanque cheio, a estrada.
O talento, a inteligência, o mérito. A aposentadoria do mal-humorado.
O fim do supérfluo, do desnecessário. O alívio. A malandragem inofensiva, a risada levada.
A maldade censurada. A bondade encorajada.
A flor que encanta, o sol que levanta, a louça lavada.
A gratidão, a gratuidade, a leveza, a presteza, a oração.
Poema barato, palavra cruzada, a perna esticada.
Me diz se um publicitário não pode fazer alguém feliz.
quarta-feira, 16 de junho de 2010
Escravos da liberdade e da verdade
Nos meus últimos dois textos extensos, dei continuidade à discussão sobre a suposta animalidade do ser humano. Os que tiveram a chance de lê-los viram que não faltam excelentes argumentos para se demonstrar com firmeza a hipótese de que o homem não é um animal. Ainda que seja muito semelhante a eles do ponto de vista material, o homem possui faculdades que o diferencia sobremaneira dos mesmos. Os que leram estes textos viram a que requintes argumentativos se pode chegar. De fato, esta é uma questão onde se pode aprofundar muito sem se incorrer em equívocos. Porém, esse aprofundamento leva à diversas complicações de comunicação. Especialmente os dois últimos textos mais aprofundados sobre este tema acabaram muito extensos e, infelizmente, enquanto eu os escrevia, não foi possível tornar a linguagem mais acessível. Prejudicou-se, portanto, o pleno conhecimento de uma das idéias que me são mais caras aparecida pela primeira vez, desde que mantenho o blog, no último deles, imediatamente interior a este, resumida na frase: "como convencer as pessoas a modificar o modo com o qual já estão acostumadas a agir se já estão confortavelmente adaptadas aos equívocos consagrados pelo hábito?"
Esta pergunta explicita, segundo a opinião da maioria dos sábios, a questão principal da vida sobre este mundo. Para demonstrá-lo, evoquei os questinamentos feitos pelos principais filósofos e pelas religiões majoritárias que concordam maravilhosamente neste tema: é muito difícil se convencer o homem a fazer o que é certo quando ele já esta acostumado a fazer o que é errado. O hábito reiterado rouba a inteligência do homem tornando-o incapaz de julgar corretamente as questões importantes. Por isso são tão recorrentes as críticas, pelos filósofos e religiosos, à indiferença do ser humano acomodado em seus princípios e egoísta em seus objetivos. Esta questão é tão imediata que qualquer iniciado em filosofia ou religião consegue identificar seu caráter universal. Imagino que não haja filósofo ou religioso que não se ressinta, ao menos um pouco, da energia que o povo brasileiro consegue mobilizar em favor do futebol mas que ele não dedica a mais nada. Já escrevi no blog sobre este assunto. Não vejo problema algum em se torcer de maneira apaixonada. Mas, como a maioria dos sábios, sou um tanto crítico à incapacidade brasileira de se mobilizar por qualquer outro motivo.
Concordo, portanto, com aqueles a dizer que se o brasileiro se dedicasse a outras questões com a mesma paixão do futebol o país seria outro. No que chegamos a questão que remete ao problema levantado nos outros textos: e por que o brasileiro não se dedica a outros assuntos com a mesma paixão do futebol? Ora, porque não quer! Toda essa mobilização extraordinária demonstra a capacidade de união sobre um mesmo assunto. Por motivo recente, sabemos que mesmo uma pequena parcela desta mobilização é capaz de induzir à promulgação de leis extremamente importantes à nação. Em outros países, paixões de intensidade muito menor levaram à reformas fantásticas. No que concluimos que o brasileiro só não se dedica com afinco à melhoria do seu país porque este é um tema que não lhe interessa. O brasileiro é indiferente aos rumos políticos do seu país. De modo desavergonhadamente preguiçoso, o brasileiro declara que nada jamais irá mudar e, portanto, não é necessário esquentar a cabeça. Ou seja, o brasileiro é não somente estúpido como gosta da própria estupidez. De maneira reduzida, este é o problema dos filósofos e dos religiosos: como convencer as pessoas a abandonar a estupidez que abraçam com tanto carinho?
Proponho uma resposta a esta delicada questão nos textos anteriores, mas neste desejo comparar esta atitude de orgulhosa estupidez humana ao modo como os animais se comportam. De fato, você conhece algum animal que se orgulhe da própria estupidez? Existe animal que persista fazendo alguma coisa que lhe cause prejuízo? Existe ratinho de laboratório que prefira o botão que dá choque àquele que dá comida? Existe cachorro que prefira um dono que lhe espanque diariamente àquele que lhe cobre de carinho? Ora, é claro que não. Animais respondem de maneira imediata aos estímulos que recebem. Serão seus amigos se você os tratar bem, e o evitarão se você os tratar mal. Isso na hipótese deles serem mais fracos que você, porque se forem mais fortes irão atacar. Não há dúvida alguma sobre isso. Voltemos agora à ignorância e estupidez que o brasileiro cultiva com tanto carinho. É certo que poderiam agir de maneira diferente, afinal são pessoas com as quais se pode conversar e, muitas vezes, convencer. O problema está justamente no fato de que, ainda que os argumentos a favor de uma idéia contrária a deles sejam muitos superiores aos próprios, eles podem continuar praticando a idéia pior.
Ao contrário do animal, o ser humano pode não se deixar vencer por um estímulo positivo. O homem é capaz de agir com alegria diante de adversidades terríveis e com tristeza diante de comemorações espetaculares. Porque ele não é determinado. É, antes, ele que se auto-determina! É possível, portanto, como já tantas vezes vimos em nossa vida, que alguém continue fazendo as coisas da maneira errada mesmo depois de aprender a fazer da maneira certa. Uma das categorias que mais sofre neste aspecto é a dos profissionais de saúde. A maior dificuldade da educação física não é convencer as pessoas a fazer exercício físico, mas convencê-las a não abandoná-lo! Todos sabem como médicos sofrem com pacientes arrogantes e persistentes em sua desobediência quanto aos horários de tomar os medicamentos. Não importa dizer que o tratamento descontinuado é perigoso, pois muitas pessoas se consideram maiores especialistas no assunto que os próprios médicos. Por conta disso quanto não se favorece o desenvolvimento de bactérias cada vez mais resistentes aos antibióticos! Temos ainda o nutricionista incapaz de convencer o cliente a comer menos, o psicólogo cujo paciente insiste no relacionamento amoroso doentio, etc.
Os exemplos são infinitos. Ao contrário dos animais, o ser humano é capaz de persistir no erro por vontade própria! A pessoa é livre para dar ouvido a outros e aprender novas maneiras de lidar com seus problemas, mas geralmente prefere continuar fazendo as coisas da maneira equivocada que só lhe rende dor e sofrimento. Ora, ela pode fazê-lo justamente porque não é animal, pois se o fosse não teria liberdade nenhuma. O bicho simplesmente faz a primeira coisa que lhe ocorre diante de algum estímulo. Não existe cachorro faminto que recuse sorvete, mas há pessoas que fazem jejum por motivos políticos, um ato evidentemente contrário à natureza biológica do corpo. Os animais nunca fazem nada contrário à natureza físico-química que determina todas as suas reações. O homem, por sua vez, não é somente capaz de contrariar sua natureza biológica - é exatamente o fato de que o homem nunca é determinado por fenômeno biológico algum que o caracteriza. Vejam que se pode dizer que os animais são naturais; respondem aos estímulos conforme estão programados pela sua natureza biológica. Já a própria definição do que seja o homem é dada pela contínua recusa dele em obedecer a natureza físico-química.
Já demonstrei isso antes! Todos nós controlamos o esfíncter para não defecarmos em qualquer lugar. Animal algum faz isso. Mal sente a necessidade de defecar, o cãozinho adestrado deve correr para o jornal, porque ele não tem controle do próprio esfíncter. A afirmação de que o homem é um animal é, por estes e por vários outros excelentes argumentos, uma estupidez grosseira digna de pessoas radicalmente ignorantes em filosofia e psicologia. Reparem como é mentirosa a afirmação de que a sexualidade é algo que deve ser vivido de maneira animalesca, pois não há nada em que o homem seja animalesco. Mesmo a pessoa mais promíscua é capaz de utilizar preservativo, e não há animal algum que se possa convencer da necessidade de algo tão contrário à natureza. A dura verdade é que estamos verdadeiramente presentes em tudo o que fazemos. Quando decidimos ser promíscuos estamos tomando uma decisão consciente. Não é verdade que estejamos cedendo ao apelo da sexualidade animal inevitável. Estamos inevitavelmente fadados à liberdade total. Razão pela qual podemos dizer que, ao contrário dos animais, que são naturais por definição, o ser humano é artificial, constrói-se a si mesmo como lhe parecer melhor.
Ocorrem, porém, conclusões gravíssimas a partir desta afirmação tão simples quanto evidente e, infelizmente, como demonstrarei a seguir, estamos obrigados a elas. Se o homem é livre para fazer o que quer, se é livre para persistir em um erro evidente assim como é livre para abandoná-lo e começar a agir de uma maneira correta (por exemplo, tomando os antibióticos na hora certa), pode-se falar em erro deliberado, aquele que se comete de livre e espontânea consciência contra o que é certo. Para a maioria das pessoas essa é uma grande surpresa: se o homem é livre e indeterminado, se é diferente dos animais, então ele é capaz de pecar. Percebam que são necessários apenas dois princípios para chegarmos a inequívoca percepção de pecado: a liberdade para agir mal e a existência concreta do bem e do mal ou, em outras palavras, do certo e do errado. Dadas apenas estas duas condições pode-se falar em pecado sem se incorrer em equívoco algum. Sei que se trata de uma afirmação gravíssima. Ainda mais porque o mundo de hoje prefere apagar a noção de pecado das consciências, mas se há liberdade e certo e errado, há pecado. É uma duríssima conclusão inevitável da qual não se escapa.
Todavia, se qualquer uma dessas condições estiver equivocada não existe pecado. Se for impossível ao homem conhecer o certo e o errado não há um paramêtro com o qual estabelecer uma comparação. Por outro lado, se o homem não for verdadeiramente livre em suas escolhas ele não seria responsável pelas próprias atitudes. Daí a gravidade da constatação de que as noções de verdade e liberdade naturalmente indicam a existência do pecado, mesmo que não seja sequer necessário falar de Deus. O pecado é, pois, a responsabilidade com que se transgride algum princípio positivo ao funcionamento do próprio eu e da sociedade. Ele é um ato contrário ao bem de si e ao bem dos outros. Por ser irremediavelmente livre só o homem é capaz de cometê-lo. Somente sobre seres conscientes do que estão fazendo se podem aferir responsabilidades. Caso não houvesse pecado não seria necessário nenhum sistema legal. Como já disse algumas vezes, se o homem fosse um animal, se certo e errado não existissem, deveria se descriminalizar o estupro, pois ele parece inerente à nossa biologia. Donde todas as críticas à noção de pecado surjem do raciocínio falso de que não se pode conhecer o bem e o mal.
Somente através da completa negação dos princípios de certo e errado se pode concluir que nada é objetivamente bom ou mau. Uma inverdade grosseira, paradoxal e contraditória em si mesma pois, se nada pode estar certo, como pode a frase de que nada é errado estar certa? Percebe-se uma atitude verdadeiramente infantil da parte dos negadores da verdade - uma sublimação neurótica profunda como resultado da negação de coisas fundamentais, como sempre ocorre com aqueles que procuram enganar-se a si próprios. Reconheço a dureza das coisas que proponho. De fato, não é fácil admitir honestamente a responsabilidade sobre os próprios atos maus, mas se esta é a verdade inequívoca, caso procuremos negá-la os maiores prejudicados seremos nós mesmos. Não parece mais fácil e eficaz procurar o progresso individual e a consequente remoção das neuroses? Em verdade, o moderno pode argumentar que, assim, tornamo-nos escravos da noção de verdade. E ele está certo! Se formos viver de acordo com a verdade, ela própria passa a importar mais que nossa própria opinião. Egocêntrico como um bom burguês iluminista, o moderno não pode aceitar isso. Ele prefere seguir a si mesmo, mas será que ele age bem em fazê-lo?
Não será a nossa própria opinião um tanto limitada sob qualquer perspectiva? Não é verdade que se seguirmos cuidadosamente as recomendações médicas nós nos curaremos de maneira mais rápida e eficaz? Não é verdade que obedecendo às instruções de trânsito evitamos diversos acidentes de carro que tantas vidas ceifariam? Não é verdade que aprendemos um oceano de coisas novas abrindo nossos ouvidos à opinião dos sábios que nos antecederam e nos legaram verdadeiras obras-primas? Não é verdade que ao contribuirmos com o avanço pessoal e profissional do nosso próximo a sociedade como um todo se beneficia? Não é verdade que fantásticas pesquisas tecnológicas têm criado uma infinidade de meios para a melhoria da vida do homem sobre a terra? De fato, eu poderia ficar aqui infinitamente celebrando o gênio humano e suas capacidades inesgotáveis. Nunca a humanidade pôde tanto. É verdade que ainda falta muito por fazer, mas não é correta a proposição de que tudo vai mal. Somente os profetas do copo "meio vazio" se desesperam diante do que está incompleto. Descabelam-se em rede nacional de televisão com os chavões mais batidos e superficiais como se o mundo fosse uma perfeita porcaria.
Pessoalmente, prefiro ser um profeta do copo "meio cheio". Não se trata de ser apenas otimista. Trata-se de ser positivo e grato por tudo o que já se conseguiu sem ignorar que ainda há muito por fazer. Além de ser muito mais honesto, sensato e equilibrado, creio que esta posição é correta por muitos outros motivos. Dizer que tudo vai mal é o primeiro passo para se acreditar que nada vai bem. Negar os avanços evidentes que nos cercam constitui uma atitude derrotista e afetada que terá como principal fruto a percepção de que nada vai bem, daí a posição escancaradamente ranzinza dos "profetas do apocalipse". Se estes alarmistas profissionais forem estudados em filosofia moderna o desastre completo está armado. Nada em absoluto os agrada. São especialmente críticos com a noção de liberdade advogada pelos profetas do copo "meio cheio". Portanto, discordariam de mim completamente. Eles só admitem a paradoxal liberdade de não ter liberdade. Para eles, a noção apolínea de liberdade é apenas uma sórdida máscara a esconder a reprodução da superestrutura que, segundo eles, só causa exclusão e acumulação de capital. Negam, assim, a noção psicanalítica de responsabilidade inequívoca sobre os próprios atos.
De fato, para o bem do sistema de idéias que defendem, os modernos fazem bem em negar tanto a liberdade efetiva quanto a concretude em se conhecer o certo e errado pois, se o fizessem, teriam de admitir a noção de responsabilidade individual, ou seja, de pecado. Como advogam um mundo vivido ao sabor de impulsos, pois a modernidade aniquila a concepção filosófica de razão, não podem aceitar nem a liberdade nem a verdade. Sabem que se o fizessem teriam de viver conforme parâmetros outros que não o próprio umbigo. Por vias tortuosas, acabam invejando as certezas dos metafísicos e dos religiosos assumindo, assim, uma atitude de inferioridade que só os tornam mais ranzinzas e amargos. Como não aceitam nenhum senhor perdem qualquer parâmetro com que se identificar. Vivem sem rumo e, ainda que admitam a dor que isso lhes causa, preferem-no à mínima humildade de um raciocício honesto e lógico. Evidentemente, esse tremendo recalque emocional gera uma atitude de radical desconfiança em relação àqueles de quem discordam. Numa desesperada tentativa de desmerecê-los, ainda que admirem o conforto mental que as certezas dos outros causam, afirmam-nas erradas e ultrapassadas por serem contrárias à natureza.
Para o moderno, o argumento principal com que se nega a liberdade e a verdade é a natureza biológica do corpo humano. Pois, sendo o homem animal, a verdade seria apenas um instrumento de poder com que se domina os demais e a liberdade seria apenas um conto da carochinha com que se convence os outros de que tudo está bem. Por isso a demonstração de que o homem é necessariamente diverso dos animais, e livre, é tão importante. Através dela afirmam-se faculdades que inegavelmente diferenciam o homem das demais criaturas. Havendo inteligência efetiva e princípios verdadeiramente corretos há atos de natureza boa e atos de natureza má. De fato, sendo esta a nossa condição, não há porque negar nossa efetiva escravidão da liberdade e da verdade. Não se pode fugir disso sem contradições incorrigíveis e irracionais. Pode-se apenas negar estes princípios através de mentiras fáceis de demonstrar mas jamais houve homem que estivesse verdadeiramente livre deles. A consciência nos assalta queiramos ou não, pois pensamos. A modernidade pós-kantiana é um desastre burguês infantil com o qual se pretendeu dizer que de algo horrível (a revolução francesa) podia sair algo bom (a transformação positiva da sociedade).
Todavia, isso não aconteceu em momento histórico algum. A revolução francesa foi um horrendo banho de sangue que em nada contribui para o avanço da sociedade européia. O congresso de Viena restabeleceu o poder antigo após os delírios de Napoleão e, de fato, houve como conclusão inevitável da revolução francesa uma postergação ainda maior da dinamização do estado e da igualdade entre os cidadãos. O mesmo vale para todas as outras revoluções de caráter semelhante, em especial a revolução russa. Sendo todos os homens livres, o progresso verdadeiro está em evoluções com as quais a maior parte da sociedade colabore ativamente. Ou seja, está em um processo inclusivo, e não exclusivo. A imposição unilateral de uma ideologia gera uma inevitável resposta da parte discordante. O ideal é que elas possam discutir entre si e irem, aos poucos, achando pontos comuns. É como têm acontecido nas democracias ocidentais para grande usufruto de suas populações. Vê-se sem grande dificuldade que são os sistemas tirânicos que estão em maus-lençois. E por que é assim? Afinal, não se era de esperar que após a tomada de consciência de parte do proletariado o estado burguês seria destruído para progresso geral de todos?
Ora, é assim porque a maioria do proletariado preferiu continuar trabalhando a pegar em armas. Preferiram o consenso, preferiram a negociação. Será que algum de nós que tenha visitado a Alemanha, ou a Suécia, ou a Dinamarca, ou o Canadá, terá a impressão de que foram mal-sucedidos? Não se esqueçam que meu copo está "meio cheio". O ideal é que as pessoas possam se manifestar, participar ativamente da construção da sociedade como um todo. Ou seja, deve-se partir do princípio de que essas vozes se manifestam porque querem, devem ser livres para fazê-lo. Não são macacos revoltados. São trabalhadores altamente especializados que lutam por salários mais justos, e estão certos em fazê-lo. Talvez fosse melhor se exigissem mais? Talvez sim. Talvez tenham pedido pouco. Talvez possam mais. Eu sei que, por serem pessoas pensantes, são capazes de tudo. Só me recuso a acreditar que soluções extremadas são a melhor alternativa. Penso que o maior erro da contemporaneidade seja a privatização do estado como um todo, que parece servir apenas aos interesses do capital. Ora, não há nada de errado em se exigir que o estado trabalhe para ajudar a sociedade como um todo e não apenas uma parte dela!
Portanto, não sou contrário à evolução da sociedade. Mas acredito em processo, em evolução. Afinal, não é assim que funciona a natureza? Vejam o resultado de grandes revoluções biológicas. São um desastre! Tudo neste mundo parece caminhar melhor quando se caminha sem exageros. Por isso preocupo-me às vezes com a ascensão de vozes notoriamente intorelantes, especialmente na minha querida América Latina, como Hugo Chavez, Evo Morales e Rafael Gonzalez. Não acredito no mundo odioso que eles propõem. Tampouco acredito em um mundo onde a experiência humana seja resumida ao que se tem e não ao que se é. Prezo muito pela simples autenticidade. As pessoas sendo reconhecidas e bem tratadas pelo que são, sem extremismos de qualquer tipo, sem fanatismos, sem radicalismos. Coloco-me contra estas propostas. De fato, apesar do que costumo dizer, acredito ter muitas razões para comemorar. Nunca o mundo pareceu tão avesso aos excessos. O problema dos intelectuais da modernidade está na negação das evidentes características que nos constituem. Apesar deles, o mundo vai bem. Se o mundo vai muito bem com eles, iria muito melhor sem eles. A diferença é que, enquanto os pacifistas mandarem, eles poderão falar as bobagens de sempre.
sábado, 12 de junho de 2010
A imposição unilateral dos radicais da estupidez e a leveza
Como cineasta, sou incorrigivelmente apaixonado por belas imagens. Além disso, possuo uma visão tradicional de beleza. Portanto, sou dificilmente atraído por imagens "sujas". Tampouco admiro imagens pouco trabalhadas, de iluminação indecisa e de má qualidade. Por conta disto tudo, o que mais me salta à vista assistindo aos jogos da Copa do Mundo é a iluminação dos estádios, que é a verdadeira responsável pela nitidez da imagem e pela sensação de grande espetáculo transmitida. Se compararmos as imagens geradas nos estádios africanos, cujas iluminações foram "desenhadas" pelos engenheiros contratados pela FIFA, às imagens geradas nos estádios brasileiros, podemos nos envergonhar do que o futebol brasileiro tem produzido nesta matéria. As imagens geradas no campeonato brasileiro parecem captadas por crianças de 5 anos retardadas. Pra começar, não têm cores. As imagens são lavadas. Quando há luz demais nas partidas vespertinas, as câmeras utilizadas não suportam o constraste. De fato, a transmissão de futebol no Brasil como um todo é amadora.
Este problema decorre das milhares de invirtudes que imperam no futebol brasileiro, sobretudo a corrupção dos dirigentes, cuja incompetência cuidadosamente estudada é estimulada pelos amantes deste esporte como tradição valorosa e necessária. O resto dos torcedores, preocupados apenas com a transferência dos jogadores, é completamente alienada às coisas que se praticam nos bastidores. De fato, nada se faz pela melhoria do nosso futebol porque o momento atual de desordem parece favorecer as pessoas "certas". Para mim, o resultado mais desagradável desta situação infeliz é a iluminação dos estádios e a pífia cobertura dos jogos. Começo a contar os dias pela copa de 2014 na esperança de que ficaremos com imagens mais bonitas como legado. Mas será mesmo que isso irá ocorrer? Será que após o apito final da copa no Brasil estará disponibilizada ao torcedor brasileiro uma cobertura futebolística de melhor qualidade? Infelizmente, desconfio que não. Acredito que os dirigentes do nosso futebol rapidamente sucatearão o legado de 2014. E a primeira vítima será a iluminação dos estádios.
Explica-se: para a copa do mundo, a FIFA exige a concretização de certos padrões. Se os dirigentes e autoridades brasileiras não perderem a copa até 2014, podemos ficar tranquilos de que a FIFA garantirá uma imagem de alta qualidade. No jogo dos Estados Unidos contra a Inglaterra, que acaba de terminar em empate, viu-se que até mesmo o estádio menos favorecido do mundial estava esplendidademente iluminado. Se a copa ocorrer mesmo no Brasil, após o apito final num estádio com iluminação de primeiro mundo, haverá algum infeliz pregando a imediata substituição das lâmpadas. O argumento utilizado parecerá imbatível: economia de energia. Talvez esta afirmação esteja correta, mas tenho dois problemas com ela: 1 - como já enunciado, gosto de estádios bem iluminados; 2 - também há a chance de que a troca não seja necessária. Como o primeiro argumento é de natureza emotiva, tenho de reconhecer suas limitações junto aos torcedores brasileiros, geralmente orgulhosos de serem tão pouco exigentes em relação à qualidade dos estádios, aos quais nem mesmo o mais fedorento dos banheiros parece pertubar.
Portanto, vou ater-me à segundo questão: talvez a troca de lâmpadas não resulte em uma imediata economia de energia. E só há uma forma de estabelecer um juízo correto desta questão: o aferimento, por engenheiros ou físicos, do gasto efetivo das lâmpadas. O problema é que, no Brasil, tudo é feito na informalidade. As decisões são tomadas de modo apressado por pessoas despreparadas. É assim desde o tempo das captitanias hereditárias e, como bem o sabemos, hábitos antigos são difíceis de aniquilar. O Brasil sofre de uma completa desconsideração do mérito. Em nosso país vale mais o conchavo de compadres aliados em função do seu bem comum. Decidem-se as questões nas cúpulas, estejam elas certas ou não. Qualquer um que tenha trabalhado em uma grande empresa no Brasil sabe o quanto se faz sofrer os empregados com decisões estapafúrdias e desnecessárias. O futebol ainda é, em nosso país, reflexo perfeito dessa condição de completa desprofissionalização e amadorismo. Arrisco dizer que até mesmo as escolas de samba cariocas são mais organizadas que os clubes de futebol.
Portanto, desconfio que rapidamente se decidirá de maneira unilateral e autoritária pela troca da iluminação dos estádios após a copa de 2014, e se ignorará qualquer apelo contrário. Não se levará em conta qualquer comentário profissional. Como bons brasileiros que são os dirigente de futebol, esta será mais uma decisão apressada e desnecessária. Não se terá em consideração que este é um assunto a ser discutido com os melhores profissionais da área. Ou seja, na decisão do que se fazer com a iluminação dos estádios do pós-copa prevalecerá o modelo de decisões brasileiro. No que chego ao segundo e mais importante tema deste texto: como convencer as pessoas equivocadas a refletir sobre o que estão fazendo? Pois sabemos que, no geral, se alguém está convencido do seu erro nada o impedirá de continuá-lo caso ninguém reclame. Eis o problema central da vida neste mundo: como convencer as pessoas a modificar o modo com o qual já estão acostumadas a agir se já estão confortavelmente adaptadas aos equívocos consagrados pelo hábito?
As pessoas que já se dedicaram a esta complicada questão chegam a conclusões dramaticamente pessimistas. Sartre, por exemplo, vaticinou que "o inferno são os outros". Platão elaborou sua notável "Alegoria da Caverna", onde os habitantes da escuridão dilaceram seu colega que conseguiu ver a iluminada vida exterior e voltou para avisá-los. O sistema de crenças judaico-cristão propõe que o homem vive uma natureza decaída após o pecado original. O budismo propõe que se deve ensinar o próximo à superação dos seus karmas individuais. Em suma, a opinião geral indica que convencer as pessoas a agir bem é a coisa mais difícil de se alcançar neste mundo. Todos estes sábios ensinam que a maioria prefere viver de maneira acrítica, perpetudando, assim, os equívocos que aprenderam de seus pais. Decidir-se a aprender novas e melhores maneiras de viver parece ser coisa rara, de pessoas muito decididas e avançadas moralmente. A maioria prefere sempre o caminho mais fácil, e covarde.
Quem não prefere perpetuar as coisas erradas que aprendeu? Quem é humilde! O orgulhoso não suporta a idéia de que tudo aquilo a que se dedicou com afinco está errado. No geral, as pessoas preferem perpetuar o status quo que herdaram. Assim, agem de uma maneira totalmente indiferente à má sorte alheia. Contanto que elas próprias estejam em boa situação, isso lhes bastará. Em países atrasados com o Brasil, esta realidade parece duramente recrudescida. Aqui se parece batalhar de maneira ainda mais ferrenha contra os avanços em qualquer campo. A reprodução estúpida e inconsequente dos piores modelos de dominação política é constantemente reforçada pelo desejo absurdo de perpetuar-se no poder, como bem o demonstra as recentes carteiradas de Lula aos PTs mineiro e maranhense, onde absurdas alianças com o PMDB foram exigidas. As pessoas raramente dão a cara à tapa. No geral, agem de maneira a "tirar o seu da reta". Ninguém é capaz de, olhando para o seu próximo, sugerir uma melhor maneira de se fazer as coisas.
Diante deste quadro de radical indiferença e pouco caso, não se é de assustar a lentidão com que a sociedade brasileira progride. Desenvolveu-se no Brasil, aos poucos, a idéia de que o melhor a se fazer é evitar problemas com as autoridades. Surgem desta situação diversas sugestões infames: "Manda quem pode, obedece quem tem juízo"; "Você sabe com quem está falando?" Ora, o que estas frases estão dizendo é que você ganhará problemas muito sérios se decidir enfrentar o status quo. Por isso, vê-se que uma das coisas mais em falta no mundo atual é gente cara-de-pau. Voltamos, assim, à questão central: qual o melhor modo de convencer os outros a mudar? Não basta apenas a cara-de-pau. Para que o mundo efetivamente melhore não basta brigar e impor, de modo unilateral, a sua própria opinião, ainda que correta. Essa atitude simplesmente exclue o "outro" da equação. Todas as vezes que se tentou isso os resultados foram terríveis banhos de sangue.
A melhora do mundo efetivamente acontecerá quando todos participarem dos avanços propostos. As pessoas devem ser, pois, convencidas a respeito do que é melhor. À pessoa cara-de-pau não bastará, portanto, a energia e a fibra moral para modificar o mundo. Ela precisará aprender o melhor modo de fazê-lo. E se ela ainda não aprendeu que a imposição unilateral e autoritária é uma péssima maneira de se melhorar o mundo, não cometemos nenhuma injustiça ao duvidar de tudo o que ela está propondo. Como acreditar em pessoas que não conseguem elaborar uma única frase desapaixonada? Em tudo o que dizem elas colocam hipérboles fanáticas, palavrões, afetações neuróticas de toda espécie. Ora, se a pessoa considera que a melhor forma de difundir sua ideologia é comunicar-se de maneira exagerada e passional, podemos concluir com muita razão que há diversos exageros e equívocos nas idéias propostas. Devemos notar que as pessoas que mais bem fizeram o mundo lutaram de maneira justa e equilibrada, muitas vezes entregando a própria vida pela causa que julgavam verdadeira.
Essa é a diferença fundamental entre as propostas que verdadeiramente edificam o mundo e aquelas que pretendem apenas a elevação de um novo tipo de autoritarismo: as pessoas que combatem os sistemas perversos não se importam em entregar a própria vida pela causa. Tem sido assim desde que o ser humano aprendeu a escrever. Como descrito no texto O fio dental e a vida dos abnegados, as histórias que verdadeiramente movem as pessoas são os relatos virtuosos de heróis que se esquecem de si para lutar pelo bem, muitas vezes à custa da própria vida. Por sua vez, para o vilão, aniquilar o herói é tudo o que importa, pois assim ele estabelecerá seu projeto egocêntrico e autoritário. Não há vilões entregando a vida, pois o único bem que possuem é ela própria. Já o herói não possui apenas a própria vida. Ele luta por ideais externos a ele, que continuarão depois que ele se for. Esta é a forma de se convencer os outros: dedicação contínua, desapaixonada, amorosa e, sobretudo, desinteressada. As pessoas comovem-se com o exemplo de quem faz o bem sem se preocupar consigo mesmo, pois se demonstra assim que a pessoa não está apenas procurando o próprio bem.
Portanto, a regra para se ser influente é agir de modo a demonstrar que não se luta por si mesmo. Temos o exemplo do Lula. Ele é extremamente habilidoso em convencer os outros de que a única coisa que lhe interessa é fazer o bem ao povo, e não a ele próprio. No meu entendimento, ele é um falso herói, pois considero que ele se move por interesses próprios e não por ser verdadeiramente benemérito. Mas o que importa aqui é a demonstração de que a idéia proposta funciona. A capacidade de alguém ser influente está diretamente ligada a sua capacidade de demonstrar gratuidade e desinteresse. Por isso somos tão mal-sucedidos quando tentamos convencer os outros de modo radical e intolerante. Ainda que estejamos cobertos de razão, o nosso interlocutor fica desconfiado por causa do modo com que defendemos nossas idéias. E como a reação do interlocutor é diferente quando o tratamos com um mínimo de cortesia e respeito! As pessoas normais costumam gostar de ser bem tratadas e ter suas opiniões levadas em consideração. Só os autoritários não percebem isso.
Concluo que a situação da pessoa estudada é bastante difícil. Imagine-se conhecedor de muitas coisas que indubitavelmente melhorariam o mundo. Agora imagine que ninguém lhe dá bola. Por isso tantos professores universitários apaixonados. Sabem o caminho, mas ninguém lhes dá ouvido. Ao longo dos anos tornam-se rancorosos e ranzinzas. De fato, é raro um mestre generoso e despreocupado, que tenha respeito efetivo pelas dificuldades e equívocos dos seus aprendizes. Ora, é muito fácil perceber que o mestre que não é ranzinza é menos radical que o anterior, que se leva muito a sério. Eis outra coisa muito importante nessa vida: não se levar a sério. Ainda que nos custe muito, pois sabemos que não nos levar a sério inevitavelmente nos fará pessoas menos apegadas às idéias de sempre, no fim esta atitude tornará nossas idéias ainda mais sedutoras e atraentes. É certamente um paradoxo: para que as idéias das quais estamos verdadeiramente persuadidos sejam difundidas, precisamos demonstrar desinteresse e desapego delas.
Ou seja, ainda que me custe muito assistir ininterruptamente a estupidez de muitos de meus conterrâneos, ainda que o status quo brasileiro seja extremamente injusto e premie tantas vezes a incompetência e a falta de mérito, irritar-me com isso só ajudaria esta situação a continuar! Derrotá-la começa com uma atitude despreocupada em relação a ela. Não se trata de parar de atacá-la. Pelo contrário! Para se derrotar algo é necessário atacá-lo ininterruptamente. Mas é o modo com que se o faz que determinará nossa vitória ou nossa derrota. Reparem que todos os sistemas ideológicos campeões sempre se impuseram pelo amor, enquanto todos os sistemas derrotados se impuseram de maneira autoritária. De fato, não adianta nada irritar-se com qualquer coisa! Não é à toa que se diz que a pessoa irritada "perdeu a cabeça". Ora, só poderá fazer algo útil de depois de acalmar-se e recuperá-la, a menos que não se preocupe em agir sem ela, o que seria uma temeridade. Ora, só poderemos persuadir alguém de que estamos certos se estivermos no nosso pleno juízo.
Então, só resta à pessoa estudada não se preocupar com a ignorância alheia, ainda que seja ela a governar-nos, ensinar-nos, influenciar-nos na maior parte do tempo. Nunca nos dobraremos a ela, mas também não arrancaremos os cabelos como os afetados profetas do autoritarismo costumam fazer. É muito frequente o registro de que agentes de governos autoritários, tanto de esquerda quanto de direita, surpreendiam-se quando encontravam pessoas capazes de enfrentar contrariedades atrozes em suas prisões com atitude leve e, em alguns casos, até mesmo bem humorada. Imaginem a surpresa dos carcereiros cubanos quando, após vários anos atrás das grades, o famoso escritor conseguia conversar com eles de maneira desapaixonada. Em escala muito menor, todos nós enfretamos situações que desafiam nossa paciência e nosso bom humor, assim comigo em relação aos dirigentes de futebol. Espero que você se tenha convencido de que a melhor saída é não se irritar e ir em frente. Só assim extrairemos algo de nosso interlocutor, como procurei extrair algo de você: o seu melhor, aquilo que é capaz de fazer os outros felizes.
sexta-feira, 11 de junho de 2010
Salve-nos da campanha da Brahma, Romário!
Pra que o tom épico nas propagandas da Brahma sobre a seleção brasileira? Pra quê? Que bicho terá mordido os caras que criaram estas centenas de filmetes péssimos que não param de ser exibidos? Quem aguenta ver mais uma só destas peças melosas que não têm um pingo de Brasil? Será que o pessoal que idealizou a campanha como um todo tem a menor idéia do que é o povo desta nação? Será que já leram Macunaíma, o clássico fundamental de Mário de Andrade? Será que não percebem que Robinho representa muito melhor o nosso povo que o "magnânimo" Luís Fabiano? As campanhas da Brahma não têm nenhum humor! É só sentimento magnífico, glorioso, de altas conquistas e altos empreendimentos. Mas essas coisas nunca foram ideais nacionais. Não representam nada das nossas particularidades. De fato, já perdi minha paciência faz tempo com estas porcarias que, quanto mais aparecem, mais chateiam. Relembrem o estilo infame no exemplo abaixo:
Eca. Dá vontade de atirar bandeirola verde-amarela na televisão e torcer pra Argentina. Quem pode suportar tanta tolice? Tanta mentira? Mas qual seria o antídoto para este equívoco fenomenal? Certamente uma campanha que nos representasse bem. Uma que contivesse o jeitinho brasileiro, sua ironia, sua malandragem, seu bom-humor. O pessoal da Kaiser teve essa sacada e lança, hoje, um filme baratíssimo, sem o menor requinte de magnânimidade, com Romário. Num lance verdadeiramente genial, eles colocaram o malandríssimo campeão de 94 zombando dos excessivos bons-modos de Dunga que, nas palavras do filme, nunca foi grande especialista em cerveja. Dá-lhe Macunaíma! Que nós nunca sejamos tomados por povo sério, batalhador e "brahmeiro"! Eca. Prefiro tornar-me argentino a ver o Brasil perder a malandragem. Qualquer um que desconsidere o nosso molejo merece o mesmo que a campanha ridícula, infame e absurda da Brahma: a sátira, a ironia, o deboche, ou seja, os antídotos perfeitos para qualquer espírito magnânimo e épico que jamais nos representaram.
segunda-feira, 7 de junho de 2010
O fio dental e a vida dos abnegados, ou Um guia prático para a compreensão de Frodo Bolseiro e Luke Skywalker
Tenho gostado muito de comentar as instâncias que nos diferenciam dos animais. Darei continuidade a este raciocínio com o texto de hoje, sem, todavia, aprofundar-me muito. Digo-o assim porque o assunto que abordarei é muito, muito profundo. Vem lá das esferas mais escondidas do ser: a sua capacidade de entender o que não está presente através de comparações radicalmente estranhas - as maravilhosas metáforas. Como este assunto está mais para tratado de linguística ou filosofia do que para texto de blog, tenho de reconhecer minhas limitações. Mas não poderia deixar de dizê-lo diante da maravilhosa propaganda acima. Se o seu computador não a exibir em tamanho suficiente para que vocês possam compreendê-la corretamente, peço que a abram em uma janela à parte.
Fizeram-no? Caso vocês não entendam inglês, o texto diz: - Há lugares que um palito de dente jamais alcançará. E o que a imagem diz? É nela que se encontra a sofisticação metafórica. Vemos um brócoli humanizado como ganster afro-americano sentado tranquilamente em uma banheira jacuzzi ao lado de uma grande piscina. Lá atrás, na piscina, um pobre palito de dente colhe quinquilharias da água, mais exatamente um sutiã, que provavelmente está ali devido às estripulias do "gânsgter". Que dizer? Resta-nos aplaudir este trabalho fantástico. Vê-se, por essa e outras, como há publicitários extremamente competentes no mundo.
E por que tanto entusiasmo? Imaginem vocês que os profissionais da Prolam Y&R, do Chile, conseguiram transmitir a idéia de que os restos de alimentos vandalizam a boca que não é higienizada pelo fio dental sem sequer mostrar algo que lembre uma boca! Vejam que loucura! Um brócoli sentado em uma jacuzzi e um palito de dentes segurando um limpador de piscinas deram conta do recado! É certo que há também grande mérito da equipe de arte da agência, sem a qual o recado estaria em sérios apuros. Reparem a que requintes de construção mental se pode chegar sem que se prejudique a comunicação. Qualquer pessoa minimamente urbanizada pode compreender a mensagem extremamente abstrata.
Não foi necessário um grande código cultural comum para que se transmitisse a ideia radicalmente ousada de uma maneira descontraída. Pôde-se criar algo novo, imediato, inusitado e, ainda assim, comunicar com grande precisão ao grupo a que se destina. Vejam que isto só foi possível através de uma utilização muito inteligente dos sinuosos meandros da nossa mente. Na verdade, a quantidade de informações presente no quadro é gigantesca e, para minha grande surpresa, todas elas apontam para a mesma ideia: o alimento que não se limpa da boca com o fio dental não precisa se preocupar com nada, pois "seu lugar" está seguro. Alguém que saiba o dano que esses restos alimentares podem causar não fica imune à peça.
Ou seja, a propaganda superou facilmente a maior dificuldade do trabalho de um vendedor de fio-dental: criar humor. Vejam que um dos maiores problemas de toda atividade que não seja imediatista é convencer as pessoas de que a sua adoção, apesar do incômodo que causará, representa em verdade um progresso, uma melhoria. É muito mais fácil vender coisas que são usufruidas rapidamente e não exigem o menor sacrifício, como chocolate ou sexo, pois elas representam uma recompensa imediata, um reforçador instantâneo. Vender disciplina é difícil. Vender responsabilidade é difícil. Ninguém aceita sacríficio no mundo de hoje. Nossa sociedade está escravizada pela "obrigação de gozar". Convencer alguém a fazer algo difícil, complicado, que exija disciplina diária, é uma tarefa para gênios.
Só se admite sacrificios em função de conquistas que representem uma recompensa imediata. Dito assim parece complicado, mas vou exemplificar. São pouquíssimos os que aceitam se submeter a uma rotina de negações diárias, de constantes recusas a objetos de prazer. Quantos não se matriculam nas academias de ginástica às portas do verão e, no entanto, rapidamente desistem delas por se considerarem demasiadamente ineptos ao sacrifício diário? Quantos não preferem, no lugar do esforço e da disciplina, a preguiça e o desleixo, verdadeiros entorpecentes da vida intelectual? Todos preferem submeter-se a uma cirurgia estética para se fazer belo. E, no entanto, cirurgias continuam procedimentos radicais e perigosos, dos quais muito frequentemente se vai a óbito.
Ou seja, convencer as pessoas do mundo atual a fazer algo difícil, trabalhoso, sacrificado é uma verdadeira aventura. A maior parte dos trabalhos publicitários que se presta a esta tarefa simplesmente não consegue decolar. Não é verdade como o trabalho oposto, o de vender produtos de satisfação imediata, é muito mais fácil? Qual o esforço da equipe de criação para se vender chocolate ou sexo? Não é à toa, portanto, que se vendem produtos de higiene masculina com apelo sexual. Só assim para se convencer a maioria a utilizá-los. É uma triste verdade, eu sei, mas não fosse o apelo sexual das campanhas de desodorante, certamente muitos homens não se dariam ao trabalho de comprá-los, que dirá usá-los.
Todo o progresso nesta vida só é obtido através do sacrifício, do esforço, da abnegação das vontades imediatas em favor da vontade virtuosa. É, pois, através de um ato livre da consciência que alguém abre mão de um prazer imediato (ficar o dia inteiro na cama) em favor de um ideal maior (pôr a comida no prato). Construir, bem o sabemos, dá mais trabalho que destruir. Edificar uma instituição do porte de uma universidade é tarefa para gigantes acessorados por pessoas de grande competência. No entanto, para se destruir uma delas, basta um inconsequente descontrolado e a indiferença silenciosa da maioria inútil. Vencer essa tendência natural do homem ao menor esforço é verdadeiramente uma tarefa hercúlea.
Por isso essa propaganda comunica-se com o mundo da mais alta filosofia, pois já o enunciaram as mesmas coisas os sábios do passado. Torna-se mais agradável fazer o que requer esforço e sacrifício se tivermos em mente o bem que estamos realizando. Pode parecer exagero, mas não é. O maior antropólogo americano, Joseph Campbell, já enunciou com exatidão milimétrica que a virtude de toda narrativa está na exploração dos dramas de um herói sofredor que entrega a própria vida em favor do seu povo. É assim com Luke Skywalker em todos os filmes da série Guerra nas Estrelas. É assim com Frodo Bolseiro em todos os livros da série O Senhor dos anéis.
Verifica-se, em ambos casos, o mesmo princípio fundamental: um herói oferece a própria vida diversas vezes ao longo da narrativa em favor do seu povo. O herói expõe-se a perigos extremos que lhes custam diversos flertes com a morte pela defesa de um ideal de liberdade e virtude. Quantas vezes não estivemos absolutamente certos de que Luke e Frodo estavam mortos? "Desta ele não escapa!", pensamos nestas ocasiões enquanto consumíamos avidamente as narrativas de suas desventuras heróicas. E, no entanto, ao sobreviverem às armadilhas do mal, ao invés de abandonarem seus projetos beneméritos, eles se entregaram a eles com intenção renovada, num processo que descreve com exímia precisão o significado do termo "grandeza moral".
A pessoa capaz de sacrificar-se é um gigante, pois a maioria é egoísta e mesquinha, pensa apenas no prazer imediato. Vencer estas tendências imediatistas requer o esquecimento da própria vontade e a adesão a um ideal de virtude e grandeza, precisamente o que Frodo e Luke fizeram. Percebam que este valoramento dos atos heróicos é, de certa forma, um convite que se faz ao espectador, para que ele repita o gesto generoso. O maior objetivo de um contador de histórias é retirar as pessoas da sua indiferença costumeira, fazendo-as ver que o melhor é entregar-se todo à construção de um mundo melhor. Não sem razão, percebemos que este ciclo virtuoso deve começar no exercício diário da individualidade de cada um através da honesta aplicação dos compromissos assumidos.
Vocês percebem que o uso diário do fio dental é uma atividade que requer sacrifício e abnegação? É muito mais fácil não fazê-lo! Dá menos trabalho, exige menos. Mas como os heróis nos demonstram, a grandeza não está na política do "menos", não está em render-se. Pelo contrário, a grandeza está em vencer a tendência de se permanecer imóvel e indiferente. Não poderia estar mais equivocado quem considerasse suficiente a entrega a projetos grandiosos sem sacrificar-se por isso. As grandes entregas se fazem de pequenas entregas. A pretensão de colher os louros da fama através do menor esforço é justamente o que caracteriza o arquétipo contrário, o sombra, ou seja, o vilão. O herói o vence por virtude da entrega completa de si, concretizada através de pequenas negações quotidianas da própria vontade.
Esta propaganda maravilhosa foi excelente ocasião para discutir estes assuntos porque são como ela as histórias contadas pelos povos, como Campbell o demonstrou. Todas elas são construções metafóricas! Os universos de Guerras nas Estrelas e O Senhor dos anéis não existem. Eles foram criados com a intenção deliberadar de formar as consciências educando-as para o bem, incentivando a virtude e a disciplina. Quem quiser conferir estas ideias por si próprio poderá fazê-lo de maneira magistral lendo O Herói de Mil Faces, de Joseph Campbell, sua tese de doutoramento em antropologia. Infelizmente, essa leitura não será possível àqueles não iniciados em antropologia e psicanálise.
Porém, há uma alternativa. Houve um grande mestre das artes cinematográficas entre os alunos de Campbell que, após a assimilação de seus ensinamentos, editou-os de modo a demonstrar as profundas raízes arquetípicas de todas as narrativas. Este volume se chama A jornada do escritor, e seu autor é Christopher Vogler. Como foi escrito para ser compreendido pelo público leigo, ainda que bastante desafiador, este é um texto que se faz entender, que não tem a pretensão de tratato sobre a alma do homem. Quem o vier a conhecê-lo terá outra ideia sobre o sacrifício constante de si através da tomada de consciência da própria responsabilidade e grandeza. Somente os derrotados que em nada contribuem deixam-se vencer pela preguiça e indiferença.
De fato, ainda que seja difícil expor ao homem moderno a profunda verdade encerrada no contínuo sacrifício de si, seja através de grandes gestos, ou ainda da contínua luta quotidiana por uma vida mais virtuosa nas pequenas coisas, todos compreendem facilmente que esta é a matéria de que se compõem os heróis, pois nenhum deles se deixou entregar à uma vida de consolações fáceis. Todos eles sempre estiveram determinados a fazer o que é certo, custe o que custar, a começar por eles mesmos! Os fortes levantam-se e forjam o futuro com os próprios braços, ainda que seja apenas para faxinar os dentes com fio dental. Para se vencer grandes batalhas é necessário vencer antes as pequenas - essa é a Lei.
quinta-feira, 3 de junho de 2010
A ignorância de quem faz do homem um animal
Algumas coincidências são mesmo curiosas. Apesar de ter assistido praticamente todos os episódios da série House em seus reprises no Universal Channel, eu tinha perdido o episódio Aceitação, que foi ao ar hoje, feriado de Corpus Christi. Neste capítulo, somos apresentados ao paciente Clarence, um negão de força incomum, assassino confesso de quatro pessoas, três das quais na prisão. Usando de suas habilidades extremas, House percebe tratar-se de um raro tipo de tumor nas glândulas endócrinas suprarenais - o feocromocitoma - que as forçam a liberar subitamente enormes quantidades de adrenalina. O dr. Foreman, que a princípio estava muito reticente em relação a este paciente, ao saber da presença do tumor, mudou radicalmente sua opinião. Ao invés de considerar o paciente um assassino sem coração e louco, passou a considerá-lo um paciente de uma rara patologia que justificaria seus atos insandecidos. Eis o nó da questão para mim e o grande desafio que este episódio brilhante nos oferece: o feocromocitoma justifica mesmo os atos do paciente, desresponsabilizando-o por eles?
House discordou de Foreman e o disse sem meias palavras: - "Não concordo que o feocromocitoma justifique os atos do paciente pois ele não é a única pessoa que o teve. Assim como ele, muitas outras pessoas tiveram a mesma doença, médicos, advogados, empresários, e nem por isso sairam matando pessoas por aí, pois forçaram-se o domínio sobre a doença." Pois neste caso eu não poderia concordar mais com House. Assim como ele, sei muito bem que o ser humano não é determinado por fenômenos biológicos. Nosso juízo está acima das ocorrências materiais. Não somos determinados por coisa alguma. Estamos ativos e presentes em tudo o que fazemos e também em tudo o que não fazemos. Como, por exemplo, não atribuir responsabilidade à sociedade alemã da primeira metade do séc. XX à ascensão de Hitler? Como não responsabilizar os brasileiros pelo deplorável estado atual de nosso meio político, se foram eles que elegeram todos os atuais representantes? Ora, mesmo alguém que possua um feocromocitoma é livre diante dos ataques de adrenalina. Não fosse assim, este tipo de cancer tornaria assassinos todos os seus portadores.
Notem que esta é uma equação muito simples. Não estou fazendo nenhuma asserção fundamentalmente nova ou espetacular. Estou enunciando algo óbvio, primário e fundamental: as pessoas não são determinadas pelos fenômenos naturais. Ainda que a psicologia demonstre isto de modo absolutamente preciso, nem somente através dela se pode demonstrá-lo! Todos aqueles que já foram apresentados ao básico de sistema nervoso já ouviram falar dos reflexos medulares que, como o nome indica, são respostas involuntárias da medula que não passam pelo escrutínio do cérebro. Quando, por exemplo, um cão se queima em uma pequena fogueira, sua medula imediatamente contrai seus músculos na direção oposta ao estímulo aversivo sem que o cérebro precise ser consultado. No caso do ser humano, dá-se o mesmo, mas o homem, diferentemente do cão, consegue ter domínio sobre os atos reflexos, por mais aversivos que sejam os estímulos. Ao contrário dos animais, aceitamos a dor de uma injeção sem nos rebelarmos violentamente. Ao contrário dos animais, somos capazes de controlar nosso esfíncter e também nossa respiração.
Portanto, fique sabendo que um cachorro ou gatinho não é capaz de prender a respiração pois eles não têm controle algum sobre seu sistema nervoso autônomo. O homem, ao contrário deles, ainda que possua sistema nervoso autônomo, capaz controlar suas atividades biológicas fundamentais sem o seu consentimento, é capaz de dominá-las uma a uma, chegando até mesmo ao extremo de controlar os batimentos de seu coração, por mais indeterminados que eles pareçam. Estas coisas que estou dizendo são saberes reais, verdadeiros, demonstrados cientificamente. Neste blog não fico reproduzindo indiscriminadamente as tolices do politicamente correto (que gosta de humanizar os animais) tampouco os consensos aborrecidamente estúpidos da maioria das pessoas (que gosta de animalizar os homens). Desculpem-me os que se ofendem com estas verdades por eu ter estudado um pouco mais que vocês. Os que quiserem me convencer de que o ser humano é só um animal qualquer não apenas vão ter que estudar um pouco mais; terão de construir um conhecimento novo e radicalmente contrário a tudo o que a ciência já descreveu a respeito do ser humano. Relinchar não vai bastar. Vão ter de vencer a comunidade científica por argumentos.
O que me irrita mesmo em algumas pessoas ignorantes é que, inadvertidas a respeito da tolice profunda das coisas em que acreditam, procuram convencer a mim, um sujeito estudado e erudito, a acreditar nas mesmas imbecilidades ridículas que elas professam. Ora, nunca se me ofereceram argumentos contrários a quaisquer das ideias que defendo neste blog. Nunca houve um só comentário que demonstrasse o equívoco das minhas ideias. O máximo de inteligência externa que já passou por aqui foram os questionamentos legítimos do André T. que, de maneira muito inteligente, soube levantar pontos de vista oposto aos defendidos por mim. Nestes casos, gostei muito de conversar com ele e demonstrar-lhe porque as ideias que defendo, nenhuma delas de minha autoria, parecem-me mais coesas e justificáveis. Sempre que ocorre este tipo de debate inteligente, percebemos como o questionamento bem-intencionado favorece a construção do saber. Se não pudéssemos questionar nada não haveria nenhum progresso tecnológico ou filosófico. É, portanto, uma satisfação receber comentários inteligentes, ainda que contrários a minha opinião.
Seria ridículo um sujeito como eu, tão ciente da indeterminação do pensamento, achar-se dono da verdade. O problema é que para vencer-me em uma discussão é preciso apresentar ideias melhores, o que não ocorreu. E ideias se expressam através de frases semanticamente articuladas. Nem a filosofia, nem a ciência, se construíram sobre interjeições afetadas e estúpidas. Para os que não sabem, interjeições são as expressões que remetem ao passado animal de nossa fala. Várias das expressões comumente utilizadas na internet são exemplos de interjeições (kkk! haushaushaus! etc.) Para se defender uma ideia é preciso saber colocá-la em palavras. Goste-se ou não desta verdade: somente as pessoas capazes de se expressar semanticamente importam, o resto (neste caso concordo com a hipótese de que o homem pode ser um animal) não é muito superior a um macaco que aprendeu a segurar coisas e apertar botões. Sou da opinião de que, para se fazer verdadeiramente humano, para se superar realmente a herança biológica, a pessoa tem de ser capaz de expressar frases com sentido. Sentão ela não passa de um macaco apaixonado incapaz de controlar seus impulsos mais primitivos.
Portanto, humanizar-se é conscientizar-se da própria indeterminação. É conscientizar-se de que se é livre em tudo o que se faz. É perceber que mesmo nas situações de desequilíbrio químico mais angustiantes, como no caso de um paciente com feocromocitoma, é sim possível ter domínio sobre as próprias atitudes. A negação da humanidade do ser humano é algo que se faz com o intuito deliberado de se justificar atos tirânicos e autoritários. As pessoas conscientes de seu real valor reconhecem o valor dos outros. Só assim se pode conseguir analisar minimamente o que o ser humano é. Os que negam a indeterminação humana são uns imbecis que nada sabem sobre a própria humanidade. A nobreza humana está justamente no fato de que o homem pode fazer o que quiser. É precisamente esta característica sem par que o diferencia dos animais, que são apenas o que são. Ao contrário dos animais, ainda que os fenômenos químicos nos influenciem muito, não somos determinados por eles. Como House demonstrou tão precisamente, somos responsáveis e presentes em tudo o que fazemos. Quem o nega faz-se macaco, e burro.