segunda-feira, 26 de julho de 2010

Infelizmente, Marina Silva, a 'Obama' brasileira, já era

Apesar da generalidade com que se apresenta, sinto lá certa atração pela figura de Marina Silva, a Rainha das Selvas, defensora da flora e da fauna nacionais. Ascendente das camadas mais pobres do país, Marina alfabetizou-se adulta e, engajando-se posteriormente na política, firmou-se como filiada do PT acreano, pelo qual elejeu-se senadora diversas vezes. Foi Ministra do Meio Ambiente do governo Lula, do qual se desvinculou por considerá-lo desenvolvimentista demais, aderindo então ao PV, do qual é lançada à sua primeira disputa presidencial. Dos três candidatos principais, Marina tem-se destacado pela ausência de propostas concretas e pela fartura de intenções maravilhosas ou mirabolantes, fazendo-se, assim, uma espécia de Obama brasileira de saias. Muitas das vezes ela soa apenas vaga nas suas promessas fantásticas, outras vezes, comentando aspectos um pouco mais diretos de nossa realidade política, ela revela pensamentos um tanto incomuns e, em alguns casos, inaceitáveis.

Como não estranhar, por exemplo, que Marina defenda a atuação armada nos anos 60 e 70 da candidata Dilma Rousseff, a escolhida do presidente Lula? Em sabatina hoje ao portal Terra, Marina criticou que se considerasse a luta armada de Dilma e seus camaradas como terrorista (reportagem aqui), e não ficou só nisso. Disse também que a luta de Dilma era pela democracia. Ora, há aí um equívoco absurdo. Todos os documentos dos grupos armados dos quais Dilma pertenceu, e que estão ao alcance da imprensa, demostram claramente o seu inequívoco aspecto terrorista. Trata-se de colocação absolutamente incompreensível da parte de Marina. A luta de Dilma era pela substituição do regime miltar por uma ditadura de extrema esquerda. Que Marina esteja escondendo a inspiração extremista dos movimentos de luta armada das décadas de 60 e 70 não apenas surpreende como escandaliza, pois ela, como candidata ao Palácio do Planalto, deveria ser uma das primeiras a zelar pela verdade dos fatos a respeito da nossa recente história política.

Infelizmente, Marina Silva não se limitou a ignorar a clara inspiração ditatorial dos movimentos de guerrilha urbana dos quais Dilma Rousseff participou. Numa declaração sem precedentes, ela também defendeu a permanência no Brasil do terrorista italiano Cesare Battisti (reportagem aqui), condenado em seu país à prisão perpétua pelo assassinato cruel de quatro pessoas. O filho de uma das pessoas assassinadas também foi baleado e tornou-se paraplégico. Ele tinha 13 anos de idade quando Battisti atentou contra sua vida. Este terrorista cruel está no Brasil desde 2004, tendo sido preso em 2009 por solicitação da Itália que, posteriormente, solicitou sua extradição. O ministro da justiça de então era o petista Tarso Genro, que começou a batalhar nos bastidores pela permanência de Battisti no Brasil sob a justificativa de que o terrorista político sofria perseguição em seu país por causa de seus ideiais esquerdistas. Que Marina Silva secunde esta injustificável violência à nossa Constituição é um absurdo sem igual.

Pior ainda foram os motivos dados pela candidata do PV à permanência de Battisti no Brasil: "O Brasil já deu abrigo até a ditadores. Por que com ele seria diferente? Aí o Brasil tem uma tradição. Se o princípio é dar apoio e suporte, mantêm-se os princípios". Será mesmo que eu entendi bem? Segundo Marina, o Brasil tem de zelar pela tradição de apoiar ditadores e terroristas? Ora, o correto não seria garantir que terroristas e ditadores respondessem à Justiça dos países onde cometeram seus crimes? Não é assim que procedem os países sérios, cumpridores de suas respectivas constituições e tratados de extradição? A verdade é que Marina Silva está defendendo que o Brasil descumpra sua Constituição e os tratados de extradição que assinamos com diversas nações amigas. Será mesmo este o seu papel como candidata à Presidência da República? Como brasileiro que ama seu país, afirmo que, a menos que Marina Silva volte atrás nestas afirmações absurdas, ela tanto não terá meu voto quanto faz-me assumir comigo mesmo a promesa de combater a todo custo a sua eleição.

Para mim, esta é uma decisão triste e custosa. Ainda que José Serra esteja tendo um desempenho irrepreensível como candidato, acho que ele não seria minha opção de voto no primeiro turno das eleições deste ano. Honestamente, preferia Marina Silva. Até bem pouco tempo atrás, ela era a única candidata a se posicionar contra o aborto. José Serra, por sua vez, emitiu umas portarias um tanto ambiguas a este respeito quando foi Ministro da Saúde do governo FHC, razão pela qual ele nunca foi meu favorito. Porém, semana passada ele colocou-se contra a reformulação da lei que pune o aborto como crime, o que o favorece deveras em minha opinião. Diante deste novo fato e das absurdas colocações que Marina Silva fez hoje, estou cada vez mais obrigado a votar em José Serra já no primeiro turno das eleições. Devo fazê-lo não apenas para zelar pela coerência de minhas opiniões. Se José Serra é o único candidato a opor-se ao aborto e lutar pela nossa segurança institucional ao mesmo tempo, ele torna-se a única opção possível às pessoas que amam o Brasil.

domingo, 18 de julho de 2010

Os meandros da mente no cinema

Tenho escrito continuamente que o pensamento é capaz de criar qualquer coisa. Também tenho dito que é o pensamento que cria a realidade objetiva e material à nossa volta, pois sem ele não saberiamos o que é um carro, o que é uma televisão, o que é barra de chocolate. Sem o pensamento não teríamos autonomia nenhuma. Sem o pensamento não poderíamos dizer não à comida quando temos fome. Com o pensamento somos capazes de jejuar por enormes períodos de tempo pelos mais variados motivos. Sem o pensamento defecaríamos e urinaríamos em qualquer lugar. Com o pensamento somos capazes de reconhecer as necessitades do nosso organismo e adequá-las aos nossos padrões culturais. Sem o pensamento não aceitaríamos tomar injeções, tampouco aceitaríamos tomar remédios, quanto mais na hora certa! Com o pensamento aceitamos a dor da injeção. Tomamos remédios na hora certa. Somos capazes até mesmo de permitir que nos amputem um membro sem anestesia caso isto se faça necessário para nos salvar a vida. É o pensamento, pois, que nos humaniza. O entendimento do mundo passa necessariamente pela razão. Sem ela seríamos animais e o mundo não existiria. O céu colorido não está lá porque pensamos, mas sem o pensamento não poderíamos apreciá-lo.

Nem só psicólogos e psiquiatras acham esta questão interessante. Também os artistas se dão a considerá-la, e não é de hoje. Com o advento da psicanálise, a arte ficou indelevelmente marcada pelos questionamentos sobre a mente e seu funcionamento. Afinal, ninguém melhor do que a arte para tentar desvendá-la. Neste particular, mesmo a medicina precisa reconhecer humildemente sua incapacidade, pois ela só é capaz de conhecer o quê os neurônios fazem, sendo a arte o campo que procura compreender os porquês dos neurônios pois, sendo autônomos e capazes de nos auto-determinarnos conforme a livre vontade, nossos movimentos não podem ser previstos. Somos capazes de nos convencer de que somos Napoleão Bonaparte. Somos capazes de, mesmos vestidos, sermos convencidos de que estamos nus. A elasticidade de nossa mente é tamanha que podemos nos induzir à crença de que somos um bule de chá. Um cachorro não é capaz disso. Extraem-se todas as capacidades dele com um pedaço de carne. Por nossa vez, podemos nos recusar a sair da cama ainda que tenhamos o mundo aos nossos pés, como a Imperatriz do Japão, a "princesa triste". Ou ainda, podemos acordar alegres e bem dispostos mesmo que não tenhamos nada.

De fato, o século XX foi riquíssimo de questionamentos sobre a mente humana nas artes. Também o cinema tem-na questionado desde o seu nascimento. Filmes como O Gabinete do Dr. Caligari, ou Limite, demonstram como os meandros das nossas faculdades mentais tanto intrigaram os artistas. Na atualidade, temos um cineasta talentosíssimo como Christopher Nolan dedicando-se à continuidade desta tradição. Nolan, inclusive, teve seu primeiro sucesso cinematográfico com Amnésia que versa sobre o mesmo tema. Com o extremo sucesso da nova franquia de Batman, Nolan habilitou-se a realizar filmes menos convencionais como o estranho, porém fascinante, A Origem, que estreiou sexta-feira passada nos Estados Unidos liderando as bilheterias deste seu primeiro fim de semana de exibição (reportagem aqui). Em sua mais nova empreitada, Nolan colocou Leonardo DiCaprio no curioso papel de "ladrão de pensamentos". Não sei o que isto significa. Tampouco souberam-no os críticos e a maioria dos espectadores que, apesar de não terem compreendido minimamente do que se trata o filme, consideraram-no uma grande realização cinematográfica. Nolan sabe aproveitar muito bem os mistérios da mente.

A mente é, de fato, um grande mistério a ser desvendado. Tudo que lhe diz respeito, ainda que muito difícil de compreender, fascina instantâneamente a todos, pois a todos é comum em sua estranheza e inexplicabilidade. Nada nos faz tão humanos quanto ela, pois somente seres que a possuem são capazes das operações da razão, mesmo as mais rudimentares. Aproveitá-la em obras de arte não apenas tem enriquecido a fruição que fazemos das criações inusitadas dos artistas, como também nos tem ajudado a depreender um pedaço de nós mesmos ao qual estávamos alheios. Isso é especialmente perceptível no cinema, que é uma janela instantânea para quaisquer universos que se podem imaginar. Portanto, revelar o que estava oculto não é objetivo apenas das ciências, pois tudo que torna o homem mais ciente de si próprio enriquece sua percepção da realidade, ampliando o escopo de sua visão. De fato, como somos capazes de criar a realidade através do pensamento, todas as atividades humanas são oportunidades para se conhecer mais a respeito de nós mesmos. As artes são um espaço privilegiado apenas porque este parece ser seu papel na sociedade organizada. Mas não esqueçamos que todos nós o temos feito, queiramos ou não.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A perversa obsessão dos neo-ateus por religião

Talvez você já tenha ouvido falar dos neo-ateus. Trata-se de um grupo que gosta de fazer bastante barulho contra as religiões em geral. Para o movimento neo-ateu, todos os frutos das religiões são sórdidos e malignos. O mundo ideal deles não inclue nenhum tipo de crença em quaisquer entidades sobrenaturais. Para um neo-ateu, só se pode acreditar em algo que possa ser cientificamente demonstrado. O mais é abominação e perda de tempo. Um dos neo-ateus mais proeminentes é o biólogo britânico Richard Dawkins para quem a crença em Deus é um delírio. Dawkins escreve livros e dá palestras no esforço de desmerecer completamente a crença em Deus. Um de seus livros em especial, Deus - um delírio, esteve por vários meses na lista dos best-sellers. Dawkins também deu o seu aval à campanha londrina do "ônibus ateu", que expôs em vários destes veículos a mensagem "Provavelmente não há Deus. Pare de se preocupar e curta a vida". Não sei que resposta eles esperavam da parte dos religiosos, mas o curioso é que as grandes religiões organizadas, aquelas com vários séculos de existência, não deram a menor importância ao "ônibus ateu" e tampouco se preocupam com o movimento neo-ateu como um todo. Pelo contrário. Os clérigos das denominações cristãs mais tradicionais, como o catolicismo, o anglicanismo ou o luteranismo, citaram diversas vezes que a campanha atéia nos ônibus londrinos rendeu muitos bons frutos espirituais. Segundo eles, muitas pessoas que andavam indiferentes à religião na qual foram educadas sensibilizaram-se pela campanha, que serviu como uma eficaz "sacudida" espiritual, talvez mais eficaz que um belo sermão muito correto que cause sono. De fato, se há uma coisa que atrapalhe o sono é o barulho. Ou seja, ao trazer o assunto religião para o centro de um acalorado debate, tudo o que a campanha atéia fez foi despertar para a religião pessoas que andavam um tanto indiferentes à ela. Já escrevi sobre este assunto aqui no blog, mas hoje gostaria de desenvolver esta mesma idéia aprofundando-me um pouco mais em certos aspectos.

Façamos uma breve comparação com o universo das artes. Todos os que já frequentaram o ensino médio devem ter ouvido, em algum momento, que os movimentos artísticos se sucederam uns ao outros. Em língua portuguesa, a totalidade dos primeiros registros foram classificados como pertencentes à escola trovadoresca. Sucedeu-lhe a tradição humanista que, posteriormente, foi substituída pelos ideais renascentistas. E, prosseguindo, tivemos ainda os movimentos barroco, árcade, romântico, realista e, por fim, a escola moderna, da qual ainda sentimos fortes influências. Essa mobilidade toda de estilos demonstra a inquietação do ser humano e sua sede de saber pois, quando uma tradição não conseguia mais dar vazão ao espírito de sua época, era preciso substituí-la por uma nova estética, que conseguisse traduzir com maior fidedignidade as idéias que se desejavam transmitir. Vejamos, por exemplo, a transição do romantismo para o realismo. O primeiro é marcado por todo um excesso de sentimentalismo. O universo romântico é voltado quase que completamente para o interior do artista, suas inquietações e seu imaginário próprio. Para um romântico, mais interessante que os problemas da atualidade eram tempos remotos, que ele idealizava em seu egocêntrismo radical. Porém, as radicais transformações sociais e tecnológicas do séc. XIX fizeram emergir uma nova mentalidade, que desse mais atenção à realidade imediata e trabalhasse pelo seu progresso. Começava, assim, a sair de cena a burguesa mentalidade romântica, pois o realismo reformou toda a estética. Fossem nas artes plásticas, ou na literatura, importava comentar a realidade do homem no mundo, suas contradições, seus desafios e sua natureza física e psicológica. Percebam que a substituição de um paradigma pelo outro não se limitou à crítica ao padrão antigo. Os artistas do realismo, ao invés de dedicarem sua energia à demonstração de que o romantismo estava errado, preferiram ocupar-se da nova estética. Ou seja, o centro de seus esforços não estava em demonstrar que o paradigma anterior estava errado mas sim em demonstrar que a nova proposta era melhor.

Pensemos agora no universo das ciências. Os primeiros registros de questionamentos científicos na civilização ocidental datam da Grécia Antiga, onde muitos pré-socráticos procuraram explicações racionais para os fenômenos da natureza. À exceção da matemática, que nunca precisou comprovar nada materialmente, a ciência pouco avançou até Newton, que foi o autor de uma radical guinada de paradigma. As considerações de Newton sobre os fenômenos naturais são de uma tal qualidade que permaneceram praticamente inalteradas até o séc. XX, quando as ciências, com a física em especial, sofreram outra e radical mudança de paradigmas. Substituiu-se a mecânica clássica newtoniana pelo modelo quântico. Não foi uma mudança simples, tanto que seu maior responsável, Albert Einstein, apesar do tanto que fez a física avançar, não conseguiu admitir em plenitude a nova proposta. Einstein passou o fim de sua vida procurando um modelo que conseguisse aliar as propriedas quânticas às gravitacionais, explicadas por Newton. Um esforço tremendo que não se traduziu em nada, visto que os cientistas em peso aceitaram o modelo quântico como superior, demonstrando, assim, pouco caso das inquietações teóricas de um dos maiores físicos de todos os tempos. Percebam que, mais uma vez, quando há a substituição de um paradigma por outro, esta mudança não se dá apenas pela falta de qualidade do paradigma anterior, mas pelo excesso de virtude do paradigma novo. A física clássica de Newton foi substituída como o mais bem acabado modelo de entendimento da natureza não porque estivesse recheada de erros infantis ou imbecilidades, mas sim porque o novo modelo explica com maior riqueza de detalhes fenômenos que o modelo anterior não conseguia demonstrar. Ou seja, tanto na arte, quanto na ciência, a adoção de um novo padrão depende mais de suas qualidades do que dos defeitos do padrão antigo. Esta é uma lei que vale para todos os saberes humanos. Não há sobre a terra uma população sequer que abra mão de seus conhecimentos adquiridos e comprovados por séculos de experiência em favor de um modelo novo do qual se duvida.

Ou seja, a emergência de um novo paradigma em qualquer área do conhecimento exige a superação do paradigma anterior não apenas pela sinalização de sua ineficácia, ou insuficiência, mas pela demonstração de um novo modelo mais satisfatório, seja porque mais completo ou verdadeiro. Só diante de uma tal apresentação as pessoas abrem mão das coisas em que acreditam para adotar algo novo. Uma troca deste tipo não se faz apenas porque há pessoas irritadas com os padrões atuais. Não importa, por exemplo, que haja gente irritada com as atuais regras do futebol, por exemplo. Só se adotarão outras regras se ficar claro para a entidade que regula este esporte, a FIFA, que a substituição das regras atuais irá favorecer a expansão do mesmo. Como exemplo, diga-se que a FIFA se recusa a adotar a averiguação de lances polêmicos por vídeo porque acha que este procedimento levaria à uma elitização do futebol, um esporte notadamente popular por causa de sua simplicidade, o que arruinaria a sua espontaneidade e imprevisibilidade. Portanto, pode-se dizer que assim como nas artes, nas ciências, nos esportes, e no que quer mais que seja, a troca de paradigmas só ocorre quando o novo modelo suplanta definitivamente o antigo por suas virtudes. Assim também na religião, onde só há uma troca de paradigmas quando o modelo novo demonstra ser mais eficaz que o antigo. Tanto é assim que a história relata conversões maciças de diversos povos. Os romanos, por exemplo, abriram mão de suas crenças milenares porque o cristianismo lhes pareceu mais virtuoso, não porque suas crenças fossem péssimas. O mesmo se deu na América, onde o cristianismo se espalhou com velocidade avassaladora apesar do mau exemplo de muitos dos conquistadores. Da mesma forma, os árabes politeístas abriram mão de seus deuses pela pregação de Maomé, pois assim lhes pareceu melhor. Ou seja, o cristianismo é hoje a religião da maior parte da humanidade porque ainda não apareceu outra que lhe fosse mais satisfatória. Se alguém deseja substituí-lo por qualquer outra coisa, terá não apenas de criticá-lo, mas sim propor algo melhor para por em seu lugar.

No que chegamos ao equívoco central das tentativas dos neo-ateus de superação da religião. Eles não apenas não têm nada para colocar em seu lugar como, por limitarem-se a criticá-la, mantém o foco da questão sobre ela. Trata-se de uma atitude completamente contraproducente. Um verdadeiro tiro no pé. Quisessem os neo-ateus verdadeiramente aniquilar a religião da vida das pessoas (como se propõem verbalmente a fazer) seu foco central deveria estar no sistema ideológico que a suplantaria definitivamente. Como demonstrado, falar de religião apenas atrai a opinião das pessoas que estavam afastadas de Deus sobre o assunto, mantendo a crença religiosa no centro da discussão. Isto acaba despertando as pessoas de sua indiferença sobre o tema. Como resultado disto, elas procurarão se informar sobre os dois lados, afinal, imagino que queiram decidir bem, não é? Ora, isto será oportunidade para muitas conversões, como os clérigos das principais religiões têm relatado. Parece que dizer que Jesus é um zumbi, que a transubstanciação é um delírio, que a Virgem Maria não poderia ter concebido sem uma relação sexual, não são argumentos suficientes para a maioria das pessoas. Elas precisam sentir verdadeiramente a superioridade do sistema do ateísmo antes de decidirem-se pelo abandono de quaisquer crenças. Se há algo que o movimento neo-ateu precisa aprender é que frases de efeito não são argumentos. Eu até preferiria que o ateísmo tivesse proposições efetivas para o ser humano. Acredito que isto colaboraria com o progresso das religiões. Mas enquanto o máximo que um neo-ateu puder fazer for criticar as religiões, o movimento ateu como um todo estará fadado à insignificância histórica que tão bem o tem assinalado ao longo das eras. Ou seja, ou os ateus melhoram suas propostas, demonstrando efetivamente que a ausência da crença em Deus favorece uma vida melhor constituída e realizada ou eles continuarão o que sempre foram: os patinhos feios das ideologias, zombados e ridicularizados por todas as gerações históricas.

Senão, o quê têm eles ensinado? Qual é o centro de sua visão de mundo? O que eles têm de efetivo para convencer as pessoas de que a mentalidade religiosa como um todo não se justifica? Ora, qualquer um que já ouviu Richard Dawkins falando ou leu um de seus livros sabe que, além das críticas às religiões, ele não tem mais nada a oferecer. Suas colocações a respeito da vida sem religião são extremamente vagas. Não há um corpo de idéias minimamente capaz de parar em pé por si só. Há apenas um monte de generalidades ocas, sem nenhuma substância intelectual. Dizer que a vida de quem não crê é mais legal que a vida de quem crê não convence ninguém, pois as pessoas que têm religião acham sua vida ótima. Além do mais, Dawkins é obrigado a reconhecer que, como os ateus são geralmente pessoas de personalidade muito forte, é muito raro que cheguem a um consenso sobre o que quer que seja - tanto que há um capítulo inteiro de Deus - um delírio para analisar a questão de que uma reunião de ateus equivale a um saco cheio de gatos. Como não conseguem se unir para propor uma visão do mundo sem religião, a atitude atual deles de pretender a superação da mentalidade religiosa sem sugerir nada para colocar no seu lugar equivale a exigir da FIFA e dos torcedores dos clubes de futebol a destruição deste esporte. Ou ainda equivaleria a exigir dos físicos a destituição completa dos princípios quânticos visto que eles ainda não explicam nem como o universo existe nem porquê. Ora, essas não seriam atitudes risíveis, ridículas pelo seu enorme grau de infantilidade e neurose? Também o seriam (como o são) em relação à religião. Já que não conseguem uma mínima união sobre o que quer que seja, o esforço obsessivo dos neo-ateus contra as religiões mantém o centro dos seus esforços na religião, o que acaba tornando-os seus porta-vozes ainda que de modo indireto. Para que nada disso fosse verdade, bastaria que o centro dos esforços dos ateus estivesse no novo paradigma. Se ao menos eles tivessem algo para mostrar, algo que se pudesse conhecer e avaliar, as pessoas poderiam então dar-se ao trabalho de considerar se valeria a pena mudar de lado.

Podemos, então, perguntar-nos se os neo-ateus são verdadeiramente livres de religião. Afinal, ninguém mais do que eles se afirma independente de quaisquer princípios religiosos que sejam. Segundo eles mesmos, em suas cabeças há lugar apenas para coisas que podem ser verificadas racionalmente. Mas acho que, mais uma vez, eles estão gravemente equivocados. Percebam que só somos livres de assuntos que desconhecemos por completo. Eu, por exemplo, sou radicalmente livre das engenharias e da astronomia. Sei apenas localizar o Cruzeiro do Sul e nada mais. Tampouco faço a menor idéia de como se começa a construir uma ponte ou um edifício. Ignoro completamente estes assuntos. Nunca penso neles. Este é um exemplo correto de independência verdadeira. Da mesma forma, para ser livre de Deus e de religiões, a pessoa deve nunca pensar nestes assuntos, como, por exemplo, no caso de quem se dedica exclusivamente a juntar dinheiro. Se, todavia, a pessoa tem a destruição das religiões como principal objetivo de sua vida, ela é tudo menos livre de religiões, pois ainda que as negue, elas dominam completamente o seu imaginário e o seu quotidiano. Portanto, o movimento neo-ateu, ainda que lute dia e noite para negar todo pensamento religioso, nada mais faz que orbitar ao redor do assunto religião, com a diferença de que orbitam olhando para fora, enquanto os que se professam religiosos orbitam-no olhando para dentro. Ou seja, o referencial deles é a religião. Por isso os neo-ateus não assustam os clérigos das principais religiões, pois, para estes estudiosos, perigosa mesmo é a atitude de quem passa a vida sem pensar em religião, como no caso já citado de pessoas que dedicam todos os seus esforços para ganhar dinheiro, por exemplo, e nunca param para avaliar se o que fazem está correto. Segundo eles, esta é uma atitude verdadeiramente daninha, tanto que falam continuamente nela, tentando alertar os fiéis a nunca adotarem este estilo de vida que se esquece completamente de Deus. Um neo-ateu pode até se esquecer de si mesmo, mas de Deus ele não se esquece jamais - Deus é o centro absoluto da sua vida.

quarta-feira, 14 de julho de 2010

Um terra nova para pensar

Lembra-se daquela grande decepção que você causou?
Aquela que entristeceu tanto os seus pais e,
Principalmente, você mesmo?
Aquela que você fez tanto esforço para esquecer,
Aquela que você odeia quando os outros mencionam,
Convulsionando, assim, secretamente o seu eu ferido que,
Impotente, não consegue superar por si só?

Acredite-me,
Você só não sabia.
Ninguém havia lhe dito que aquilo não se fazia,
Ou que se deveria fazê-lo de outra forma.
Como você saberia
Se, criança, não houvera alguém que lhe ensinasse?

A importância destes eventos é muito relativa.
Não vale a pena carregar o peso de coisas que já passaram.
Deixe-as para a ficção, esqueça-as.
Você precisa dar novo sentido ao que lhe ocorreu
Entendendo de fato a impossibilidade de outra forma.

Apesar de não gostar de respostas prontas, para você, farei exceção:
O que não tem remédio, remediado está.
Eu sei que é fácil falar para mim, que estou de fora,
Se você diz que dói tanto esta ferida, acredito,
Mas veja que você precisa prosseguir.
Tente levar a vida assim mesmo.
Veja como é possível viver apesar deste desconforto.
Se você ficar histericamente olhando a lesão,
Garanto que a dor será maior.
Você precisa focar em outras coisas
Arejando sua percepção do mundo.

Faça outras coisas!
Fechar-se não é solução,
Porque os horizontes são infinitos.
Esquecer não é apenas deixar de lembrar.
Esquecer é não sofrer quando lembrar.
Quem quer realizar, precisar olhar além,
Precisa ver que as dores do mundo não estão todas em si,
E decidir-se pelo melhor.
Tomar a firme decisão de fazer, de encarar, de batalhar.

Ficar o tempo todo remoendo dores passadas não ajuda.
Pelo contrário, atrapalha muito.
Deixar de avançar porque algo não aconteceu como se desejava
É uma atitude de derrota certa.

Caminhe, faça, encontre, vive.
Ficar ensimesmado não é solução.
Quem quer fazer crê.
Crê contra toda suposição, contra toda fofoca.
Crê contra todo preconceito, contra toda malícia.

Aceito que você não sabia, entendo perfeitamente.
Sei que as coisas teriam sido diferentes se você soubesse.
Respeito sua dor. Acredito sim que deve haver um tempo de luto,
Para chorar, para sofrer, para aceitar, para recusar.
Só não aceito dramalhão,
Pois há também um tempo de renascer e, assim, tornar a fazer.
Sei que você não sabia,
Mas, hoje, que você já sabe,
Depois de tantas lágrimas derramadas,
Depois de tanta energia gasta inutilmente,
Talvez tenha chegado a hora de se levantar.

Abrace a parte que lhe cabe, fazendo acontecer.
Seja o que tiver de ser.
Aceite apenas a vitória.
E se você perceber que vai precisar de uma força extraordinária
Saiba que está pelo caminho certo,
Pois você precisa mesmo de toda a ajuda que encontrar.
O que você talvez não saiba é que esta força já está dentro de você,
Agindo agora mesmo,
Impelindo seus pensamentos para uma terra nova,
Apontando para a coragem apenas,
Despertando o seu eu da sombra que lhe era estranhamente conveniente,
Sugerindo uma nova e absurda dimensão,
Oonde você pode e realiza tudo o que quiser,
Pois, lá, o impossível é ficção.
Creia e avance.
Está dentro de ti.

P.S. Você talvez esteja se perguntando exatamente o que é a tal resignificação. Como se poderiam superar eventos traumáticos com a simples força de vontade? Talvez minhas indicações pareçam um pouco exigentes demais frente à alguns problemas terríveis. Como se poderia dizer, por exemplo, a algum sobrevivente do Holocausto que resignifique a brutalidade vivida em um campo de concentração? Não é certo que um sobrevivente de um campo de extermínio está irremediavelmente ferido? Não é certo que ele, caso supere a dor sofrida, tera' sua superação limitada até certo ponto que ele jamais poderia ultrapassar? Ou seja, não é certo que uma dor profunda sempre continuará existindo? Não seria utopia demais da minha parte imaginar que é possível uma resignificação plena e completa de todos os traumas? Não será que penso assim apenas porque sou incorrigivelmente ingênuo? Ora, se a resposta a qualquer uma destas perguntas fosse positiva, tudo o que escrevi no texto acima seria a mais pura bobagem. De fato, seria necessário demonstrar que uma tal resignificação é efetivamente possível. Que tal, então, um videozinho que mostra um senhor sobrevivente de Auschwitz dançando "I Will Survive" em frente aos prédios onde mataram seus pais e amigos? Pois é. É possível resignificar até mesmo os mais traumáticos eventos, dando-lhes uma nova percepção, classificando-os em nossa mente de uma maneira que não nos paralize. À medida que se progride nesta arte inexata, percebe-se que é possível cada vez mais libertar-se de tudo de ruim que sofremos, seja a vergonha por nossos equívocos, seja o mal que nos fizeram. De fato, quem quiser ser verdadeiramente livre tem de tornar-se hábil na arte de resignificar os eventos, dando-lhes o melhor sentido possível. No caso de um sobrevivente do Holocausto, que sentido pode ser melhor do que dizer ao mundo, em alto som, que, apesar de todas as barbaridades sofridas, foi possível sobreviver e, assim, continuar permitindo-se ser exatamente quem se é? Aprendam com este velhinho e dancem diante das tragédias, pois é isto que elas mais odeiam: serem ridicularizadas. As tragédias esperam de você respeito e admiração. Mas se você quer superá-las você precisa desrespeitá-las com todas as suas forças, olhando-as no fundo dos seus olhos ardis e dizendo: "Não sigo suas ordens!"

quinta-feira, 8 de julho de 2010

O desastre da facilitação do divórcio pelo Senado

Qual é geralmente o resultado de nossas decisões tomadas de "cabeça quente"? Não é verdade que erramos na enorme maioria de nossas decisões apressadas? Basta comparar seu resultado àquele das decisões ponderadas e refletidas com tranquilidade. A decisão considerada sem estresse é geralmente convicta e justificada. Sabemos o porquê de a tê-la escolhido, conseguimos explicá-la em seus mínimos detalhes para nós mesmos, os maiores interessados. O mesmo não se pode dizer da decisão apressada. Não a compreendemos totalmente, não conseguimos justificá-la com clareza para ninguém, muito menos para nós mesmos. Se temos de fazê-lo, somos obrigados a vomitar um arrazoado estranho, confuso, contraditório, que não convence ninguém, pois não é possível discernir uma lógica clara, um princípio delineador, na decisão que tomamos sem o tempo necessário. De fato, os frutos da decisão apressada, se não são uma desgraça completa, certamente estão muito aquém daqueles da decisão ponderada.

E que decisão poderia ser mais importante em nossas vidas que optar pelo divórcio? Não há decisão mais importante e relevante que esta. Não há decisão que se aproxime a esta em dramaticidade e potencial negativo. Pois, com o divórcio, decreta-se o fim de uma família, de uma instituição que deve zelar, sobretudo, pelo bem das próximas gerações, pois é na família que crescemos e começamos a nos relacionar com o mundo. O espaço privilegiado onde começamos a nos tornar nós mesmos é a família. Quantos não se ressentem pelo fato de seus pais terem se separado! Quantas cabecinhas infantis irremediavelmente confusas e quantos corações infantis indelevelmente marcados! Tanta desgraça na vida de tantas pessoas apenas porque dois adultos que se amam recusam-se a conversar como pessoas equilibradas! Tanto sofrimento psíquico e tantas almas devastadas porque alguns deixaram o egoísmo falar mais alto. E pensar que tantos divórcios são decisões passionais e irrefletidas!

Pensando justamente nisso, visando o bem da instituição familiar, sua estabilidade e segurança, os constituentes de 1988 preveram um tempo mínimo de dois anos para que alguém possa casar-se novamente após um divórcio. A constituição prevê, portanto, instrumentos jurídicos que retardam a separação definitiva de um casal, dando aos conjuges o tempo necessário para chegarem a uma decisão madura, na qual tenham considerado com cuidado a decisão mais importante das suas vidas. É justamente para que esta decisão não seja tomada de "cabeça cheia", em meio aos devaneios infantis das paixões, que existem estes mecanismos jurídicos tão prudentes quanto justificados. Porém, esta salvaguarda tão importante está ameaçada. Aprovou-se ontem, no Senado, por quorum mínimo, uma proposta de emenda constitucional de autoria do senador Demóstenes Torres, do DEM de Goiás, que permite às pessoas casarem-se novamente no dia seguinte ao divórcio.

Caso esta proposta seja definitivamente aprovada, as decisões irrefletidas e apaixonadas, que tanto mal causam e que sempre precisam ser combatidas, receberão enorme fomento. Muitos casais não terão a chance de ponderar esta decisão tão importante com a cabeça fria. Imaginem o mal que esta facilitação do divórcio causará. Como não terão tido tempo suficiente para refletir, muitos divorciados arrumarão parceiros apenas para enciumar a outra parte, casarão com amantes com o intuito deliberado de magoar, de ferir o pai, ou a mãe, de seus filhos. Alguém precisa avisar ao senador Demóstenes Torres que conjuge não é roupa íntima, que se usa e depois se descarta. Casamento é coisa seriíssima, envolve as emoções mais profundas do psiquismo humano, a formação da personalidade, a visão de mundo, o conceito de si e dos outros. O Estado deve dar ao casal a chance de refletir esta decisão dramática de uma maneira ponderada, visando o bem próprio e dos filhos.

Esta visão de que casamento é coisa que se pode fazer e desfazer de qualquer forma nasce de uma visão instrumentalista do ser humano, que considera mais a sua dimensão material em detrimento de sua dimensão subjetiva. É o mundo do consumo que quer destruir a família. É a atitude de que só o prazer imediato deve existir que combate a ponderação desta decisão. Fomenta-se, assim, uma atitude consumista diante do matrimônio. Descarta-se o "produto ruim" para por-se logo a procurar o "produto bom". Ora, esta atitude apenas posterga o problema emocional para a segunda união, pois o divórcio geralmente ocorre por imaturidade emocional e afetiva. Se as partes não são capazes de desenvolver uma conversa minimamente adulta com uma pessoa que evidentemente amam, por que o serão capazes de fazer isto em uma segunda união se não precisaram amadurecer antes sua afetividade? Não é evidente que o problema está apenas sendo postergado?

As leis tem de favorecer um ambiente de segurança institucional. A sociedade não pode ter reforçados os seus impulsos apaixonados. Trata-se de defender um estado de tranquilidade e estabilidade para as pessoas poderem decidir de maneira mais racional. Trata-se de evitar mais e mais corações despedaçados. Um mundo mais sorridente não pode surgir da intrumentalização do ser humano, mas certamente passa por um profundo respeito pelo seu desenvolvimento pleno. Pelo bem de todos, não se pode corroborar com paixõezinhas adolescentes. Deve-se favorecer o amadurecimento afetivo e a reflexão. Vou além. A casais em processo de divórcio deveria ser oferecida psicoterapia gratuita, pois um mundo melhor exige pessoas bem constituídas, de personalidade menos vacilante. Vejam, se aconselhamos um amigo a ponderar melhor uma compra (ou venda) decidida de última hora, como não fazer o mesmo quando ele decide divorciar-se?

A vida humana não pode ser objeto de consumo, não é qualquer bem, do qual se pode dispor conforme a última vontade que dá na cabeça, pois a vida humana é o sumo bem! Tudo o que concerne as pessoas tem de ser ponderado com carinho, refletido diante de um espelho iluminado. Não se pode favorecer decisões apressadas e apaixonadas que dirá esta! Sei que parece exigente demais esperar que pessoas com raiva uma da outra tenham frieza para decidir algo como o divórcio com racionalidade. Mas não se pode esperar o pior do ser humano! Não podemos desconfiar de cada uma das suas decisões. Para que ele faça o que é certo e bom deve-se esperar o máximo dele, deve-se ter bem claro essa capacidade que só ele possui. Um mundo melhor começa por uma atitude de confiança na capacidade das pessoas. A descrença no ser humano apenas reforça os piores preconceitos.

Se acreditamos verdadeiramente que as pessoas são capazes de fazer o que é certo devemos dar a elas a chance de poderem resolver seus problemas da melhor maneira possível. Isto é crer verdadeiramente nas capacidades do ser humano. Esta é uma atitude positiva e confiante. Imaginar que se pode confiar na qualidade de decisões apaixonadas ou é ignorância ou é má fé. Ora, como se pode achar que o divórcio é algo que se pode decidir de qualquer forma? Qual outra decisão exige mais cautela e ponderação que ele? Não podemos corroborar com a instrumentalização do homem, com o ponto de vista segundo o qual ele é apenas algo de que se pode dispor conforme as conveniências. Devemos repudiar sua transformação em mero objeto de prazer. Devemos ser generosos com as pessoas, sempre. Devemos confiar em suas capacidades. E esta confiança certamente está manifesta no reforço às decisões ponderadas e maduras e no combate às decisões apressadas que tanto mal causam ao mundo.

terça-feira, 6 de julho de 2010

O vórtice maldito e o goleiro do Flamengo

Vejam o caso do goleiro Bruno, do Flamengo, um dos maiores clubes de futebol do Brasil. Talentoso, ele tinha um futuro luminoso diante de si. Já se discutia há algum tempo sua venda para o futebol europeu. Agora, diante da ameaça bastante concreta de que ele teria colaborado diretamente no assassinato de uma amante, tudo se esvanece. A menos que surja algum fato novo a seu favor, de indiscutível valor jurídico, sua carreira está destruída. Alguns meses atrás, Bruno ganhou o noticiário por sua declaração absurda, em apoio a um colega em problemas conjugais, segundo a qual não haveria homem que nunca precisou agredir fisicamente sua parceira e que, portanto, ninguém deveria se meter em briga de marido e mulher. Vê-se hoje do que uma pessoa com tal mentalidade é capaz. A moça desaparecida, Eliza Samudio, estava com um processo contra Bruno, solicitando o reconhecimento da paternidade de seu primeiro filho, do qual, à época, estava grávida. Segundo ela, este processo enfureceu o goleiro do Flamengo, que passou a obrigá-la a fazer um aborto. Eliza chegou a fazer um boletim de ocorrência no qual acusa Bruno de forçá-la a beber um líquido amargo. Àquela ocasião, colheu-se urina para aferição do que ela havia ingerido. Com o resultado do exame, sabe-se hoje que era, de fato, um abortivo. Felizmente, ela não perdeu o bebê, que está hoje em poder do avô. Eliza chegou a alertar seus familiares e amigos de que corria perigo. Apesar disso, continou procurando Bruno, tentando conversar com ele. Essa inocência custou-lhe a vida.

De fato, trata-se de uma história horrível, tornada possível pela indiferença, ou mesmo insensibilidade, diante do mal. Quando se tem apenas o próprio umbigo para satisfazer, o ser humano é capaz de tudo. Bruno é um homem casado. Além de manter diversas amantes, promovia orgias para si próprio e seus camaradas no sítio onde, agora, a polícia procura o corpo de Eliza. Infelizmente, a serem reais os dados das delegacias das mulheres que os jornais repercutem com grande alarido, casos como este não são exceções. Além do mais, todos nós conhecemos homens que confundem virilidade com libertinagem, como se eles julgassem a própria masculinidade conforme o número de mulheres que possuíram. Ora, se eles precisam possuir muitas mulheres para se sentirem seguros de si, é certamente porque não se sentem viris por natureza. Ou seja, o homem desesperado por manter relações com o maior número possível de mulheres é um tipo pouco viril, porque, sentindo-se fraco e inferior aos demais homens, precisa provar a si e aos outros que é tão ou mais homem que eles. Ora, não é evidente que o homem naturalmente viril não se preocupa com o que hão de fofocar a seu respeito? Afinal de contas, ele há de se avaliar por parâmetros mais firmes e confiáveis que a opinião de quem se presta a falar dos outros pelas costas. Uma pessoa que se deixe pautar pela opinião alheia acaba por destruir sua auto-imagem, pois, ressentida do sucesso alheio, a maioria não economiza veneno para desvalorizar quem se destaca. Portanto, saibam disso, a pessoa bem constituída não se deixa guiar pelos comentários de comadres fofoqueiras que não têm mais o que fazer, sejam elas velhinhas interioranas à janela ou jogadores profissionais de futebol.

Quem deseja ser aceito a qualquer custo não é dono do próprio nariz. E este é o maior mal que um ser humano pode se fazer: trair sua vocação verdadeira, aquela que lhe aponta o caminho da luz e da beleza. Não podemos deixar de trilhar a estrada que nos leva à concretização dos nossos sonhos, senão nós perdemos nossa individualidade e nos tornamos meros objetos de vontades alheias. Deixar-se pautar por comentários baratos é sonegar-se a autonomia que deve constituir uma personalidade bem-formada. Ou seja, é algo que não cabe na vida de um adulto. Mesmo na adolescência, a dependência do que os outros irão pensar não é algo positivo. O jovem escravo da opinião de seus colegas nunca irá amadurecer. Aos poucos sua personalidade estará deformada de uma tal maneira que só caberá nela as ordens da maioria. Ou seja, onde deveria haver todo um universo pessoal intransferível de individualidade, haverá apenas uma alma desesperada por reconhecimento e atenção. Quem se entrega a este estilo de vida torna-se capaz dos feitos mais hediondos, pois não há limites para seu desejo de aceitação. Esta é uma sede verdadeiramente insaciável. O homem que não se permite ser ele mesmo para agradar os outros é capaz de se metamorfosear em qualquer coisa. E, já que a falta de autenticidade é uma algo verdadeiramente ruim, a maior parte de seus frutos terá de ser podre, pois não há semente ruim que dê fruto bom. Ou seja, à medida que a escravidão pela opinião alheia progride na personalidade imatura, mais e mais ela se torna dependente dos menores gestos de afeição. A pessoa entra em um redemoinho que a destrói por completo, sobrando apenas um rastro negro do egoísmo mais abjeto que se possa imaginar. Onde deveria haver um ser vocacionado para a luz, há somente uma vaga lembrança do que ele deveria ser. Seus traços se tornam indistinguíveis, pois sombras e vórtices infernais os devoraram por completo.

Os que gostam de referências poéticas poderão se lembrar da Odisséia, de Homero, na qual o rei de Ítaca, Ulisses, no retorno à sua pátria após a guerra de Tróia, ao navegar por certos mares, é avisado da presença de sereias devoradoras de homens, cujo canto maravilhoso os atrai para a desgraça. Ulisses e seus acompanhantes deveriam usar uma cera mágica no ouvido para não serem atraiçoados pelos seres de encanto diabólico. Impressionado pelo aviso, e muito curioso por conhecer o canto das sereis, Ulisses recusou-se a usar a proteção e, para prevenir-se da destruição, pediu para ter seu corpo inteiro amarrado ao mastro central do navio. Avisou seus companheiros para não soltá-lo em hipótese alguma enquanto atravessassem aquelas águas traiçoeiras. Assim que adentraram na região de perigo, Ulisses começou a ouvir o canto das sereias. Imediatamente ele se põs a gritar em desespero, exigindo que fosse libertado. E neste estado ele continou até que tivessem saído daquela região e não fosse mais possível escutar o canto de beleza incomparável. Só mesmo completamente imobilizado para não sucumbir à sedução que o mundo exerce sobre nós. Se não nos guiamos a nós mesmos como pessoas autônomas, se não estamos surdos para o canto sedutor das coisas deste mundo, em pouco estaremos como Ulisses, gritando pela própria ruína, pois são muitas as armadilhas com que o mal pretende nos aniquilar. Ser livre exige, pois, um constante exercício de auto-domínio. Se não nos dedicarmos a este objetivo, jamais iremos incorporá-lo, pois, ao contrário dos animais, que nascem sabendo o que fazer, nós precisamos de um esforço constante para aprender qualquer coisa que seja, pois nascemos completamente incapazes. Tanto o conhecimento do que é bom quanto a sua prática necessitam de uma abnegação constante. Só assim podemos nos tornar verdadeiramente livres.

Se nós nos permitirmos a concretização de todas as nossas vontades, especialmente as mais superficiais e irrelevantes, não teremos liberdade alguma. Para nos tornarmos pessoas capazes de realizar alguma coisa, precisamos de um esforço contínuo de autonomia. Não podemos ser pessoas que se deixam guiar pelas sensações que momentaneamente acometem qualquer um. Se quisermos ser pessoas de princípios precisamos cultivá-los. Caso contrário, seremos como borboletas arrastadas para cá e para lá pelo vento, sem nenhuma constância, sem nenhuma segurança, sem nenhuma regularidade. Por fim, se não formos minimamente capazes de nos disciplinarmos, podemos nos tornar escravos dos piores instintos, pois os caminhos frequentes deste mundo não parecem ser os melhores. Recusar o mal não é apenas evitá-lo. A pessoa fiel à sua vocação original para o bem deve incentivar-se no caminho das coisas boas, constantes por natureza e disciplinadoras das nossas vontades arredias. Para concluir, relembro a alegoria do cavaleiro na biga, de Platão. Não podemos ser, segundo este filósofo, libertinos enlouquecidos que conduzem sua carruagem de maneira violenta, seguindo apenas os impulsos imediatos, pois acabaríamos por nos acidentar. Tampouco devemos nos ensimesmar em nossos objetivos (o que seria apenas uma outra face do egoísmo) agindo como o cavaleiro que puxa o cabresto do cavalo violentamente, impendindo-o de sair de seu lugar, pois a covardia, ainda que menos daninha, é só a outra face da libertinagem. O correto é avançar com moderação e auto-domínio, coisas um tanto fora de moda num mundo que prega todo tipo de excesso. Não se enganem. Este é o caminho dos que fogem do canto da sereia e, agindo assim, preservam-se das ameaças das paixões. O caminho bom está no centro, como sempre. Se nos dedicarmos com afinco à nossa vocação de seres de luz, o mal não terá poder algum sobre nós.

sábado, 3 de julho de 2010

Os espólios da guerra

A julgar pelas fotos que a imprensa está repercutindo, a torcida argentina sofreu mais a desclassificação do seu time da Copa do Mundo do que a torcida brasileira. Minha atenção sentiu-se especialmente atraída pela foto acima, sugestiva de uma enorme desilução. Em primeiro plano, um trompetista que só consigo imaginar desafinado e melancólico. Atrás dele, um homem segura o nariz, como se estivesse contendo o choro, sugerindo o sangramento de uma ferida de guerra. Mais ao fundo está outra pessoa sentada no asfalto, acabrunhada e encolhida. Em ambos os lados passam transeuntes contra a luz, escuros como a morte, decapitados como figuras mal assombradas. Um cenário de pesadelo à luz do dia. Orgulhosamente dramáticos, os argentinos fizeram uma tragédia grega de sua derrota para a Alemanha. Inclue-se aí a fantástica intuição do fotográfo que percebeu a intensidade da cena e capturou-a para nós, imortalizando, assim, a dor deste momento.

Reparem como a rua transfigura-se em campo de guerra após uma batalha selvagem. Há pedaços de argentinos para todos os lados. Suas almas foram cruelmente despedaçadas, rasgadas pelo talento de um artilheiro genial ou, melhor dizendo, de um general talentosíssimo - Miroslav Klose - que, de alemão, só possui a camisa. Polaco de nascimento, Klose se aproxima a passos largos do recorde de Ronaldo que, se superado, fará dele o maior goleador das Copas do Mundo. Sob a firmeza de sua atuação impecável, a Argentina foi atropelada impiedosamente, para imensa satisfação de muitos brasileiros. Aqui na minha cidade, por exemplo, estouraram rojões a cada gol alemão. Da minha parte, pode parecer atentado de lesa-pátria, mas preferia uma nação sul-americana nas semi-finais no lugar de uma européia. Resta-me torcer pelo Uruguai, que se classificou ontem jogando contra Gana, ou ainda pelo Paraguai, que joga neste momento contra a Espanha.

De fato, considero notável o fenômeno da Copa do Mundo. Apesar disso, esperava que esta edição fosse menos agitada que as anteriores. Isto não apenas não aconteceu como ainda testemunhamos uma participação popular ainda maior em nações que tradicionalmente não se importam com esta competição, como os Estados Unidos, onde os índices de audiência dos jogos bateram todos os recordes. Seria difícil de acreditar que no mundo descentralizado do Twitter ainda haveria espaço para manifestações exageradas como as dos argentinos. Parece que se deu o oposto. As redes sociais serviram para ecoar com intensidade ainda maior os impulsos despertados pela atuação das diversas seleções. Testemunha-se, de fato, um momento de comunhão global, no qual a humanidade parece especialmente unida em torno da atuação daqueles jovens (e milionários) desportistas. Não deixa de surpreender que seja o futebol a prática sobre a qual se projetem todas estas expectativas.

Imaginem, então, a alegria do time campeão. Aquele que será, após o Brasil, o segundo a levantar a taça de campeão fora de seu continente, pois não há mais nenhuma nação africana participando do campeonato atual. O mundo acompanhará com inveja sem igual o momento de triunfo máximo: a elevação do troféu pelo capitão do time vencedor. Somente os torcedores desta equipe venturosa estarão radiantes, tomados pelo espírito oposto ao que arrasou Buenos Aires hoje. Serão deles os espólios da guerra, as heranças das nações. Pois cabe ao vencedor escolher o que lhe pertence após a destruição do adversário. A Copa do Mundo é, de certa forma, uma rifa da alma, um contrato em que se apostam a honra e o destino nacionais, ou seja, uma brincadeira muito séria, que somente loucos assinam, indiscutivelmente. O que estamos testemunhando é isto: a loucura alçada a estado de espírito planetário enquanto esta competição não acabar, e feridos pelas ruas, aos milhares.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O desespero é mau conselheiro

Tudo ia bem no jogo da seleção contra a Holanda. Pouco depois do gol em impedimento, Robinho abriu o placar num lance fantástico. Os holandeses, receosos da eliminação, começaram a fazer diversas faltas desleais que o incompetente juiz japonês teimava em não premiar com os cartões amarelos tão necessários. Apesar disso, tudo ia bem. Mas a equipe brasileira, a começar pelo seu técnico, desesperou-se. Dunga esmurrou o vidro de sua cabine enquanto resmungava os palavrões de sempre. Robinho começou a fazer faltas descabidas. O jogo cresceu enormemente em tensão. A seleção parecia estar perdendo a partida quando, na verdade, estava-a vencendo. No momento em que a frieza fazia-se necessária, falou mais alto a paixão. Seja pelo medo, seja pela insegurança, começou a prevalecer o desespero.

Após o intervalo, o Brasil sofreu o gol de empate. Desestruturado diante da realidade, abatido pela frustração de ver a partida ganha escorrendo pelas mãos, os jogadores brasileiros começaram a cometer ainda mais faltas. Esqueceu-se o futebol, cuja regra não poderia ser mais clara: "quem não faz, leva". E o Brasil sofreu a virada. A partida que estava ganha converteu-se em derrota amaríssima. Felipe Melo, com a gentileza de sempre, obteve a merecida expulsão. A seleção não jogou mais um só instante como no primeiro tempo. As poucas ameaças de gol não representaram um perigo real para o time holandês. A alegria de ver o caminho ao Hexa facilitado deu lugar ao desequilíbrio e à irregularidade. O Brasil acabou eliminado. Sua derrota, porém, começara no desespero de resolver o que já estava resolvido.

O time de Dunga demonstrou não conhecer que a pior ameaça é aquela que não existe, é aquela que acontece apenas na mente de quem sente muito medo. A derrota começa justamente aí, na atitude derrotista e desesperada. Enquanto vitoriosos, os jogadores brasileiros começaram a sofrer enormemente em função de um receio que não se confirmava. Então, quando surgiram reais motivos para se preocupar, o time não soube se posicionar positivamente diante do adversário. A derrota na vitória custou a vitória da derrota. Quem sofre por antecipação entrega o jogo, pois permitir-se um medo irreal demais é o mesmo que invocá-lo, ou trabalhar pela sua concretização. Ou seja, o Brasil chamou a derrota, enamorou-se dela quando deveria combatê-la com todas as suas forças.

Agora é esperar por 2014. Há muito que se fazer até lá. A começar pela eleição do próximo Presidente da República que, esperamos, seja alguém à altura do cargo. A nação pode se divertir com o futebol, pode torcer pela sua seleção. Mas que não perca o foco de sua real razão de ser, de seus objetivos mais nobres, dentre os quais pode-se destacar a superação de séculos de cruel exploração econômica sobre os menos favorecidos e a melhoria nos serviços oferecidos pelo Estado, seja pela instalação de procedimentos mais eficazes, através do combate à burocracia e ao fisiologismo, seja pela decidida luta contra a corrupção. A pior derrota brasileira seria fazer pouco caso diante dos diversos favorecimentos ilícitos tão habituais no cenário político nacional.

Isso tudo nós podemos, e devemos, fazer. Nada disso depende de algum inimigo externo, seja holandês ou argentino. Depende tão somente de nós mesmos. Aproveitemos a derrota da seleção e foquemos em coisas que realmente importam. Devemos avançar com coragem, sem ceder espaço ao derrotismo dos que acham que não há jeito para o país, nem ao desespero alarmista dos que creem não ter havido melhoria alguma, pois nenhuma destas coisas ocorreu. Nem a nação vai tão mal que não haja conserto, nem o seu mal é tão grande que não possa ser resolvido. Façamos o possível a cada instante, com carinho e determinação. Isso é concreto e real. Podemos estar unidos nos objetivos verdadeiramente importantes. Só depende de nós, da nossa coragem e da nossa força de vontade.