terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Vamos falar sobre sexo?

Alguns acham que a Teoria da Evolução de Darwin justifica que o homem pretenda fazer sexo como um cachorro, como se fossemos animais quaisquer. Segundo essa gente, se somos meros animais que evoluiram de espécies inferiores não há razão alguma para nos considerarmos especiais, logo, todo tipo de regra que visa disciplinar nossa sexualidade pode ser desconsiderada como tolice. O problema com este raciocínio é que, apesar de apoiar-se numa tese científica, ele mesmo não o é. Estas considerações segundo as quais deve-se fazer sexo como uma girafa ou como um castor nunca foram científicamente justificadas. Trata-se de ideologia pseudo-científica.

De fato, o avanço em neurociências tem comprovado cada vez mais como a evolução das espécies legou-nos um encéfalo radicalmente adaptado, de modo que o comportamento social, já bastante sofisticado em diversas espécies, atinge graus estratosféricos no ser humano. Se uma gaivota é fiel ao seu conjugê por toda a vida, se o seu encéfalo está naturalmente programado para agir deste modo, que dirá o nosso, de sofisticação incomparável. Apesar disso, já que somos seres livres para contrariar até mesmo os mais primitivos impulsos, podemos pretender negar esta programação ancestral, ignorando, ou tentando ignorar, por exemplo, os ritos de passagem.

Pra quem não sabe, ritos de passagem são cerimônias públicas de iniciação nas mais diversas atividades que ocorrem em todas as sociedades com todas as pessoas. No universo tupi, por exemplo, é conhecido o rito de iniciação masculina no qual o menino deve enfiar sua mão em um formigueiro cerimonial, preparado por seus parentes. Depois de suportar a picada de milhares de formigas famintas ele é considerado homem, e pode caçar, casar-se, etc. Na civilização ocidental tem havido uma contínua queda no prestígio dos ritos de passagem. Cerimônias às quais devotava-se grande respeito anteriormente, como a festa de debutante, hoje não tem mais valor algum.

Da mesma forma o casamento. Outrora esta cerimônia era exigida na civilização ocidental para legitimar a união de um homem e um mulher. Devido à enorme falta de referências morais em nosso tempo, esta é uma festa cada vez menos prestigiada. Por exemplo, muitos casais abrem mão da felicidade de celebrá-lo religiosamente trocando-o por uma fria cerimônia civil onde o reconhecimento público por aquela união limita-se a um juiz e a um escrivão. O problema é que, assim como a evolução das espécies leva a gaivota a unir-se até à morte a um mesmo parceiro, esta mesma evolução gravou a fundo o casamento e outras cerimônias em nosso encéfalo.

Não dá para viver sem ritos de passagem. É através deles que são autorizadas socialmente as atividades consideradas importantes, por isso, tudo o que diz respeito à organização da sociedade precisa ser referendado por um rito de passagem. Voltando ao exemplo do menino Tupi; ele só pode caçar e comportar-se como um homem normal depois da sua iniciação. Assim também o casamento, que existe simplesmente em todas as sociedades de todos os tempos. A necessidade de celebrá-lo é tão grande, ele é tão necessário, que até mesmo parceiros homossexuais desejam experimentá-lo. O casamento é uma necessidade genética, fruto da evolução.

Transar antes do casamento é driblar o casamento. É realizar um ato sexual não autorizado socialmente. Ora, sexo fora do casamento é contrário à evolução das espécies em seres humanos porque o filho de alguém é também filho da sociedade. O útero de uma moça não é só propriedade dela. Esta percepção egoísta e contrária à nossa natureza biológica é fruto do nascimento da burguesia. Antes disso, não havia este individualismo exagerado, todos se pertenciam. Mas no mundo onde o eu prevalece sobre o nós, não se surpreende que haja mesmo pessoas que, em busca do sucesso profissional pessoal, prefiram matar o próprio filho a precisar da ajuda de alguém.

Neste contexto, não surpreende a divulgação de um estudo da Associação Americana de Psicologia que afirma serem mais felizes os casais que se abstiveram de praticar sexo antes do casamento. Os casais que praticaram sexo antes de se casarem são, segundo este estudo, 22% menos realizados em seus matrimônios do que os casais abstinentes (reportagem aqui). Ora, não surpreende porque, por tudo o que já disse, esta pesquisa apenas afirma que não podemos negar o que somos. Não é possível, por força da revolução burguesa, deixarmos de ser os seres bio-psico-sociais que a evolução nos fez. A satisfação pessoal depende, necessariamente, do reconhecimento social de nossas atitudes.

Aí alguns poderiam argumentar que, em nossos dias, isso não seria verdade, dado que o prestígio do matrimônio está em franco declínio. Para esta pessoa, o fato de o casamento não ser uma exigência moderna desobriga as pessoas de celebrá-lo para todas as uniões. Mas esta pessoa demonstraria não saber nada de evolução das espécies. O casamento está em crise há uns 40 anos, já os nossos genes levaram milhões de anos para serem o que são. De uma tal forma evoluímos sendo seres humanos que é impossível dissociar o ser humano cultural do seu aporte biológico. Ou seja, basta o conjunto dos nossos genes herdado de algum modo para podermos afirmar que o ser gerado ali é humano.

Mais uma vez, nada muito difícil de entender. Na verdade, o que é difícil de entender é como as pessoas são ingênuas (ou deliberadamente mal-intencionadas) a ponto de acreditarem em ideologias que pretendem a desnaturalização do ser humano, como se fosse possível negar os milhões de anos de nossa evolução, como se fosse fácil e barato contrariar nossos genes, como se não fosse necessário, para isso, pagar um custo pessoal altíssimo. Ora, preterir nosso patrimônio genético sem uma grave contrapartida emocional não é somente difícil, mas impossível. Por isso tantos casaisinhos modernos em angústias e dores insuperáveis.

É claro que os casais tradicionais, mais socialmente ajustados (sinal do equílibrio pessoal de cada uma das partes), serão mais felizes. Também é claro que haverá exceções, mas elas somente confirmam a regra: os casais que se submetem às expectativas sociais de bom comportamento estarão mais amadurecidos emocionalmente em seu compromisso na relação a dois. A união conjugal normal possibilita, assim, muito mais felicidade e realização pessoais. Só a negação do homem pela contemporaneidade pode ter desnaturalizado tanto a visão do homem sobre si, pretendendo que ele seja o que ele nunca poderá ser só porque assim decidiram alguns espertalhões aproveitadores.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

O doce Natal dos médicos

Então é Natal. Os sinos tocam, as pessoas se abraçam, os presentes são abertos. Mas o que é o Natal? Será possível comemorá-lo sem reconhecer que se celebra o nascimento de Jesus? Acho que não. O Natal é uma inconveniência para quem rejeita a divindade de Jesus. É claro que se pode abraçar os amigos e dizer palavras fraternas sem se mencionar o homenageado, mas não dá para escondê-lo, mesmo sob as grossas camadas da roupa do Papai Noel, que, aliás, ao contrário do que muitas pessoas pensam, não é um símbolo capitalista, mas uma adaptação da lenda de São Nicolau, um bispo turco que distribuia presentes às crianças no Natal. A Coca-Cola pode ter-lhe vestido no último século, isso quase todo mundo sabe, mas ela o fez sobre um símbolo muito sólido que existia antes da adaptação.

Mas se o Natal é a celebração do nascimento de Jesus, Deus feito homem, o acontecimento mais extraordinário da história humana, será que o estamos comemorando dignamente? Não me refiro à questão do Papai Noel, que apesar dos problemas é um símbolo cristão, tampouco à árvore de Natal, que é uma invenção de São Bonifácio para driblar a divinização da natureza por uma tribo pagã da Alemanha. Apesar de haver quem exagere na questão dos presentes, tornando-os desnecessariamente excessivos, também eles não são um problema, pois demonstram a força da lenda de São Nicolau, e a percepção de que o nascimento de Jesus é algo com que devemos nos alegrar. Claro que estas expressões de alegria cristã serão insuficientes, ou vazias, se a comemoração do Natal não incluir o Homenageado.

De fato, não há nada de errado nestas manifestações exteriores de espírito natalino. Praticá-las é bonito e adequado à festividade, mas ficar somente nelas é comemorar o Natal de maneira superficial e medíocre. Elas servem para educar as crianças e reforçar nossas emoções positivas, mas um adulto cristão que se limite a distribuir abraços, presentes e sorrisos não está vivendo o Natal adequadamente. Externamente, é claro que não se pode fazer nada mais do que isso, exceto se nos dedicarmos à distribuir presentes às crianças pobres ou outros gestos de caridade. Mas me refiro à espiritualidade cristã. A experiência de Natal que um adulto cristão pode fazer precisa superar esta camada mais externa da comemoração. Deve possuir uma dimensão interior, senão estará restrita ao consumismo.

Porém como fazê-lo? Posso arriscar um palpite limitado; pois, além de ignorante em teologia, também não sou lá muito versado em espiritualidade. Talvez eu saiba viver estas coisas, mas não consigo dar a elas dimensão intelectual; senão, vejamos: que cada um procure, com grande sinceridade de coração, vivenciar o Natal em profundidade à sua maneira, conforme o próprio grau de desenvolvimento espiritual. Afinal, é certo que o Natal de um São Francisco de Assis, o inventor do presépio, era muito mais iluminado que todos os nossos Natais somados, mas isto não nos deve impedir de procurar melhorá-los enquanto tivermos a graça de vivê-los. Que saibamos também expandir nossa espiritualidade natalina às pessoas à nossa volta, caso contrário, como poderia ser verdadeiro um Natal individualista?

De fato, quem comemora o Natal sem compartilhá-lo com os outros demonstra ignorância completa sobre o significado desta festa. É claro que, neste sentido, a família vem em primeiro lugar. Ceiar com os familiares e abrir os presentes é mesmo uma maravilha, mas a pessoa que se esforça por ser cristã deve reconhecer que o espírito cristão expande os limites familiares ao infinito, quase nos obrigando a reconhecer o imediato mais desconhecido como um verdadeiro irmão, que dirá em relação a alguém que professe a mesma fé que a nossa! Claro que não vamos nos dar a intimidades com quem não conhecemos, mas deixar de desejar um "Feliz Natal!" à moça que trabalha no supermercado nas vésperas da festa é um gesto de insensibilidade natalina, típico de quem não faz ideia do que é esta festa.

Então, devemos expandir o Natal ao nosso próximo, primeiramente à nossa família de sangue, depois à nossa família de fé, e por último à toda família humana. É porque muitas vezes deixamos de viver cada uma dessas dimensões que não experimentamos toda a alegria que o Natal tem para nos oferecer. Como não é estranho passar esta festa iluminada com o espírito aborrecido; mas isto é inevitável quando sabemos que, no fundo, não nos preparamos da maneira adequada. Deixar de se preparar para o Natal é uma forma tão superficial e irresponsável de vivê-lo que corremos o risco de fazê-lo de uma maneira pagã, o que seria lastimável, porque ou o Natal é algo que importa de verdade ou estamos nos enganando para, artificialmente, demonstrarmos que somos pessoas bastante felizes e espiritualizadas.

Que triste se nos déssemos ao papel ridículo de comemorarmos uma festa na qual não acreditamos. Posso apenas dizer que seria patético. E, se acreditamos, ou o fazemos verdadeiramente ou enganamos a nos mesmos e ao nosso próximo. Talvez não seja mais tão difícil perceber as razões que levam tantas pessoas a reclamarem do Natal. Claro que comemorá-lo apenas para agradar os outros trará uma profunda infelicidade pessoal. Nada pode ser mais triste do que mentir a si mesmo e aos próximos mais queridos de maneira consciente. De fato, quando o assunto é sério não há muitas maneiras de fazer-se isento ou de fingir que não dá a mínima importância. Ou assumimos nossa posição de modo adulto e maduro ou estaremos agindo como uma criança birrenta no colo do Papai Noel.

Escrevi este texto porque acredito no Natal e desejo compartilhá-lo com o maior número possível de pessoas. Nossos defeitos e fraquezas, ainda que numerosos, não nos devem impedir de ao menos tentar viver a essência do cristianismo, que consiste em servir ao próximo e não em tornar o próximo nosso servidor. Estas são considerações que se costumam utilizar no período da Páscoa, onde fica mais evidente que Deus veio ao mundo para servir e não para ser servido, como podemos apreender ao ouvir que Jesus, na Última Ceia, lavou os pés dos Apóstolos para ensiná-los como deveriam proceder os seus seguidores. Mas se a caminhada de Jesus nesta terra terminou na humilhação suprema do Gólgota, o seu início ocorreu no estábulo da pequena Belém, na companhia de uma vaca de de um jumento.

No Natal vemos que Deus não permaneceu indiferente à nossa sorte, como se o nosso pecado nunca mais pudesse ser lavado. Ao permitir-se nascer num estábulo, para maior identificação com os pobres e sofredores deste mundo, visando a nossa salvação, Deus vem ao nosso encontro para salvar-nos das consequências do nosso egoismo. Humilde, seu primeiro trono foi uma manjedoura, o lugar onde se coloca o feno para os animais comerem. Senhor do tempo, nasceu em uma época onde não havia exames pré ou pós-natal. Seus presentes, tão ricos em simbolismo, foram ouro, para sua realeza, incenso, para a sua divindade, e mirra, para o sofrimento que o aguardava na Cruz. Nestes símbolos estão indicadas as insígnias de Cristo, e quem nunca refletir estas coisas nunca saberá o que é o Natal.

E o que a Medicina tem a ver com esta festa, e por que o Natal dos médicos pode ser mais recompensador que aquele dos sacerdotes mais santos? Porque ninguém como os médicos é capaz de aliviar de modo tão intenso e verdadeiro o sofrimento, à exceção de Jesus, é claro, justo detentor do título de "Médico dos médicos". Quem, além de Jesus, é capaz de reimplantar um órgão decepado, como Ele fez com a orelha de Malco? Quem, além de Jesus, é capaz de desafiar a morte, adiando-a para que as famílias não se desfaçam prematuramente, como Ele fez com Lázaro? O médico, é claro, pois sua profissão é um contínuo exercício de auxílio às necessidades mais urgentes do seu próximo. Se você precisar de um médico na Noite de Natal, irá encontrá-lo no pronto-socorro.

Por tudo isso, posso dizer com tranquilidade que, apesar do cinema ser uma paixão central em minha vida, à qual dediquei toda a minha juventude com todo o coração, não posso deixar de reconhecer a superioridade da Medicina que, ao contrário da sétima arte, não tem o eu do profissional no centro da atividade exercida, mas um outro, em sofrimento e carente de atenção e auxílio. Como não ver, então, o evidente paralelo da atividade do médico com o Natal? Em ambos os casos, busca-se conscientemente o próximo sofredor. Fazer-se médico é nascer com Jesus na mangedoura miserável. Tanto que, em um paralelo admirável, o símbolo da Medicina, a bengala de Asclépio, é pobre e rústica, enquanto os símbolos de várias outras profissões são adornados por ícones de riqueza e poder.

Concluo fazendo os mais sinceros votos de Feliz Natal! Que esta festa seja, para você, sobretudo, autêntica e verdadeira. Que você possa experimentá-la em todas as suas dimensões, em todos os seus matizes. Que ela não seja para você motivo de tristeza ou angústia, mas de profunda alegria cristã, de espírito renovado de esperança, calor humano e fraternidade. Por tudo isso, não tenha medo de se aproximar das inocentes figuras do presépio e fazer-se amigo delas. Quem sabe você consiga ver-se na companhia delas, visitando o Menino Deus com o mesmo entusiasmo dos pastores de Belém! Que Jesus seja para você, neste Natal, o bebê desprotegido que a todos recebe com um caloroso abraço, pois Ele se fez menino para que não tivéssemos medo de nos aproximarmos dele.

FELIZ NATAL!

domingo, 19 de dezembro de 2010

A Inglaterra quer controlar a internet, e faz muito bem!

A corrida internacional pelo controle da internet não ia lá muito bem das pernas. Por um lado, a China comunista censura todo tipo de informação que não lhe agrada. Do outro, a Austrália, em campanha bem-intencionada, parece perdida num mar de polêmicas infrutíferas. Desta forma, o mundo livre estava muito mal representado. Felizmente, a Inglaterra vem servir de modelo para o mundo civilizado, mais uma vez. A outrora capital de um grande império intenciona o banimento completo da pornografia em toda a internet para os usuários ingleses. Somente adultos identificados terão acesso à pornografia. Tudo isso para a proteção das crianças, evidentemente (reportagem aqui).

De fato, há algo que eu penso a respeito desta iniciativa inglesa: ela está aparecendo escandalosamente tarde! É um absurdo, um despautério completo que somente quando a internet de grande acesso esteja completando vinte anos de idade se comecem a propor modelos de controle. Quanto mal não se permitiu disseminar em seu meio. Quantos empresários inescrupulosos fizeram uso vil da sexualidade alheia apenas para ganhar uns trocados a mais. E, diante de todos estes abusos absurdos, os Estados das grandes nações ocidentais em vergonhoso e indiferente silêncio. Um escândalo incomparável na história das nações. Algo pelo que as futuras gerações sentirão pena de nós.

Não se trata, em absoluto, de impedir quem queira ver pornografia de fazê-lo. Mais uma vez, trata-se apenas de regulamentar uma prática que, mal utilizada, estava expondo milhões de crianças a material evidentemente inadequado à sua idade. Quem quiser ver pornografia que o faça sem que esta iniciativa possibilite a exposição de crianças ao mesmo material. Neste sentido, é necessário sim que haja um cadastro de usuários da pornografia: as pessoas que arquem com as consequências de suas atitudes. Não tenho a menor dúvida de que a polícia britânica recorrerá diversas vezes a este cadastro para a localização de suspeito de crimes, pois isto é só o óbvio.

A permissividade que impera atualmente é contrária ao bem-comum. Não é possível negar ou esconder que o descontrole total dos nossos dias beneficia unicamente pedófilos ardilosos unidos em rede internacional de abusos dos piores tipos. Portanto, é de uma tal forma feliz qualquer iniciativa de controle da internet que não se pode deixar de comemorar cada uma delas com uma grande festa. Que a Inglaterra esteja dando seus primeiros passos na direção de uma internet mais humanizada e amigável não somente surpreende como também gera a agradável expectativa de que muitas nações iniciem programas semelhantes. Que o Brasil também não tarde em imitar rapidamente tão promissora iniciativa.

sábado, 11 de dezembro de 2010

O ônibus ateu brasileiro: mais um gesto desvairado

Ateus adoram provar que são pouco inspirados. Ninguém é capaz de superá-los nesta arte. Se forem ateus e brasileiros, então, o universo não poderá conter todos os seus equívocos. Qual poderia ser o resultado de uma iniciativa deles? A Folha noticiou, há uns dois dias, que uma associação de ateus resolveu lançar em nosso país uma campanha atéia a ser exibida em ônibus, similar àquela lançada ano passado em Londres (reportagem aqui). Daquela vez, escrevi um texto comentando a péssima qualidade do texto publicitário, e sua indesejável propaganda da religião. Já a campanha brasileira conseguiu ser mil vezes pior, para a causa atéia. Vejamos:


Primeiro, se queriam atingir o público comum, a campanha começa erradíssima. Suas quatro peças pecam por conter idéias complicadas demais para outdoors, pior ainda em se tratando de outdoors em movimento, que deveriam conter idéias simplérrimas. Não seguiram a lei número um da arte do outdoor: simplicidade de idéias. Tenho certeza que muitos crentes olharão para a peça do presidiário lendo a Bíblia e clamarão para si que aquilo é algo muito bom, de modo que sequer perceberão que se trata de uma campanha contra (?) a religião. Ora, para alguém a quem a leitura da Bíblia seja coisa boa, uma imagem que retrate este ato será boa.

Pouquíssimas pessoas entenderão a ironia de que mesmo entre os leitores das Escrituras há criminosos. É esquisitíssimo que esta idéia, a principal desta peça, esteja somente indicada na foto, mas não explicitada no texto, que segue outra direção. Ou seja, como se já não bastasse uma idéia visual extremamente sofisticada, ao ponto de que somente pessoas familiarizadas com a causa do ateísmo poderiam compreendê-la, há ainda um texto que aponta em outra direção, deixando o conteúdo da imagem no vazio, aberto a múltiplas interpretações. Um fracasso inacreditável de comunicação. Roguemos para que não tenha sido feita por um publicitário.

As outras conseguem ser igualmente ineficazes. "Somos todos ateus / com os deuses dos outros", sim, e daí? Só isso vai convencer os maus evangélicos a amar os bons ateus? Ou ainda, "Se Deus existe, tudo é permitido". Evidentemente; São Paulo, inclusive, concordaria: "Tudo me é permitido, porém, nem tudo me convém". Onde está o elemento pró-ateísmo? Pensando no caso de quem tem preconceito contra ateus, por que mudar de opinião em função desta campanha? Sob todos estes aspectos a campanha londrina era muito superior. Já que não se conseguiu um trabalho à altura na versão nacional, por que não simplesmente imitá-la? Richard Dawkins não deixou?

Mas grave mesmo é a peça que, exibindo Hitler como crente em Deus e Chaplin como ateu, diz: "Religião não define caráter". O problema grave é que Chaplin não era ateu, só isso (reportagem aqui). Ele era um agnóstico bastante pacífico flagrado diversas vezes em oração a algo que ele definia como "Força Suprema". E, atenção para isso, muitas vezes era irônico em relação aos ateus. Quer dizer, até mesmo um possível detrator do ateísmo é exibido como ateu de primeira grandeza. Depois, ainda somos obrigados a ouvir que religião não define caráter. Ah, mas talvez a campanha brasileira tenha somente se equivocado. Roguemos para que tenha sido mesmo isso.

Como podem ter planejado uma campanha a ser exibida em três grandes cidades brasileiras (Salvador, São Paulo e Porto Alegre) sem terem tido o menor cuidado na escolha da personalidade atéia? A que grau de insanidade um ateu é capaz de chegar no esforço por trazer à sua causa até mesmo um sujeito que reza para uma "Força Suprema"? Como pode terem tão pouco receio de se expor publicamente à humilhação? A causa do neo-ateísmo revela-se sempre, e cada vez mais, um movimento de pessoas apaixonadas, incapazes de um segundo de raciocínio frio. De fato, talvez nem mesmo reza braba seja suficiente para se compreender o que vai pela cabeça dessa gente.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Nós nos pertencemos

Sim, nós nos pertencemos, uns aos outros, mutuamente. O que eu faço afeta diretamente quem estiver perto de mim. Posso, pelo modo como decido dirigir, estressar bastante uma pessoa que trafegava tranquilamente pela auto-estrada. O modo com que a atendente da padaria age pode irritar-me, atrapalhando ainda mais um dia que talvez já não fosse fácil. A forma pedante que um professor se permite ao responder a um aluno pode fazê-lo sentir-se muito mal. De fato, por estes poucos exemplos, percebe-se como estamos interligados uns ao outros numa comunidade inevitável, onde todos se pertencem, gostemos disso ou não.

Qual não é, então, nossa responsabilidade pelo modo com que tratamos as pessoas ao nosso redor? E pensar que muitos talvez estejam tendo dias muitos difíceis, e nós nem percebemos. Estamos sempre centralizados egoisticamente em nosso próprio umbigo. Talvez nem consigamos perceber com clareza que “nós nos pertencemos” é muito diferente de “eu me pertenço”. Quanta arrogância nossa! “Eu me pertenço” é uma impossibilidade grosseira. Quando estou no trânsito, minha vida pertence ao caminhoneiro que não dorme há três dias, porque tomou rebite para permanecer acordado e, assim, efetuar a entrega a tempo.

Através de uma decisão simples como tomar anfetaminas para lucrar um pouquinho mais no fim do mês, podemos destruir a vida das pessoas ao nosso redor. Não existe, portanto, “eu me pertenço”. Essa é uma pretensão muito infantil. A minha responsabilidade é muito limitada, pois a maioria das coisas que me acontece é responsabilidade alheia. E, da mesma forma como somos afetados pelo que os outros decidem, nós os podemos afetar com o que decidimos. Não sejamos bobos de pensar que estamos “cada um no seu quadrado”, porque esses quadrados cruzam-se uns com os outros o tempo todo.

Por isso, ainda que as pessoas devam procurar a autonomia emocional, ainda que devam procurar viver de modo independente, elas e nós nos afetamos diretamente com os nossos modos de agir e falar. Desta forma, encontrar-nos pode ser um alívio para os outros, ou um motivo de irritação. Só o saberemos se estivermos verdadeiramente interessados nas outras pessoas, se formos capazes de sair voluntariamente dos nossos quadrados para ajudá-las, porque, mesmo que nossas ações sejam muito limitadas (e elas o são), podemos ser muito úteis simplesmente permitindo que desabafem conosco. Não se trata de fazer muito, ou de fazer o impossível, mas de fazer com amor verdadeiro.

E, se somos tão importantes na vida dos outros, se as pessoas sofrem inegavelmente conseqüências diretas de todas as nossas atitudes, qual não será a influência sobre nós das pessoas que nos são mais próximas? Se eu posso, com uma atitude ranzinza, tornar alguém momentaneamente mais infeliz, qual não será a influência de um pai mal-humorado sobre seu filho, uma criança em formação sob seus cuidados diretos? Qual não será a influência de uma mãe extremamente exigente, que cobra perfeição constante de filhos já bem comportados, e sempre de modo grosseiro? Será que não a deixarão mofar em um asilo quando tiverem o poder de decisão?

E, já que os quadrados se cruzam, imaginem então o que os pais em conjunto são capazes de fazer nas cabeças de seus filhos. Será que poderão confundi-los e frustrá-los com padrões de comportamento ambíguos e contraditórios? Será que poderão fazer com que se sintam pessoas mal amadas? Não é certo que poderão fazer tudo isso e muito mais? Qual não é então a responsabilidade de pais egoístas que vivem brigando entre si, na presença dos filhos, porque não conseguem se entender como adultos? O pior é que se amam, mas se recusam a entender um ao outro por orgulho, porque ainda que tenham um coração de carne têm a cabeça dura.

Qual não será a confusão absurda e incompreensível em que se verão os filhos deste casal de pessoas egoístas quando estas decidirem-se separar? Como estes cônjuges não vêem que rasgam as almas de seus filhos de modo irreparável? Será que não têm a menor noção da responsabilidade direta deste ato tremendamente cruel? Se alguém pode tornar a vida de um gari menos amarga com um simples “bom dia”, como pode ser que não percebam as conseqüências, muitas vezes trágicas, de seu gesto profundamente egoísta? De fato, é algo que não se pode compreender. Como um ser humano pode ser cruel ao ponto de não perceber o resultado de suas ações sobre os próprios filhos?

Não sei se é questão de coração, de respeito, de insensibilidade, de egoísmo, ou outras coisas. Sei que é triste. Sei que dói ver pessoas tão incapazes de olhar ao redor, pessoas tão perdidas em si mesmas, como em um labirinto infinito onde se vêem sem saída. Como não desejar que elas, de algum modo, despertem desse sono profundo em que se encontram? Como não esperar que percam essa cegueira que as torna tão alienadas ao mundo? Não apenas para que possam reparar o dano que causaram aos outros, mas também o dano que causaram a si próprias, por terem se fechado tanto e terem se tornado pessoas tão egoístas e incapazes de qualquer gentileza.

Se elas não o quiserem, isso não acontecerá. Se há algo certo neste mundo é a liberdade que temos para praticar o mal aos outros e a nós mesmo. Também isso não sei por que é assim. Limito-me a constatá-lo. Sei apenas que, a menos que mudemos todos nós voluntariamente, não haverá teoria sociológica capaz de transformar este mundo para melhor. A verdade é que nós não o queremos, e é por isso que o mundo é o que é. Se há algum bem neste mundo, ele ocorre apesar de nós. Não fomos nós que o criamos. Raríssimas são as pessoas que olham os quadrados dos outros, e os respeitam. O fundamental a respeito delas é que não são egoístas.

Se ao menos pudéssemos entender que o mundo não é feito apenas dos nossos desejos. Se fôssemos capazes de perceber que nossos sonhos se realizariam mais facilmente se aceitássemos conjugá-los aos sonhos dos outros. Quem sabe não seria uma grande utopia esperar esses pequenos gestos de atenção das pessoas? Quem sabe elas precisassem apenas de um simples incentivo para tomar a coragem de fazer o que é certo? É tal nosso estado que só nos resta esperar. Mas que esta esperança nunca se transforme, nas boas pessoas, em inatividade ou conformismo. Que estas poucas almas afortunadas nunca percam a coragem de fazer e ensinar o que é certo.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

O que é importante para você?

Falamos de tantas coisas quotidianamente, tantas bobagens; coisas que gostamos de comer, ou que não gostamos; pessoas que são agradáveis, outras que são chatas e inconvenientes; atividades que dão prazer e outras que incomodam. Mas será mesmo que são estas as coisas que importam? Será mesmo que a última novidade em sorvetes industrializados é algo de muito importante? Ou será mais importante a fofoca novinha em folha sobre algum sórdido detalhe comportamental da moça mais bonita do departamento? Talvez importantes mesmo sejam as fotos tiradas por um de nossos amigos em sua última viagem a Bariloche, ou não? Não serão todas estas preocupações um tanto superficiais e, perdoem-me a sinceridade, tolas? Não parece evidente que todas elas demonstram um profundo descompromisso com as coisas que verdadeiramente deveriam importar? Mas como definir o que é importante no séc. XXI? Não seremos todos nós pessoas destinadas somente às incertezas e dúvidas? Será mesmo possível acreditar que algo é verdadeiramente correto e importante?

Comecemos por algumas constatações menos complicadas. Não estará correta a afirmação de que se deve prezar pelas liberdades alheias? De fato, não será a liberdade das outras pessoas o único fator limitante da minha própria liberdade? Deste modo, não devo estar completamente livre para construir minha própria visão de mundo da maneira que me parecer mais adequada? Parece-me que a resposta necessária a todos estes questionamentos é “sim”; as pessoas devem ser irrestritamente livres para viverem da forma que lhes parecer melhor, contanto que se isentem de impor sua visão de mundo ao seu vizinho. Afinal de contas, se não lhes fizerem o que lhe parece melhor, o que farão? Aquilo que os outros acham melhor? Seria uma tirania, não é verdade? Se estivéssemos obrigados a viver conforme os ditames de outras pessoas nossa liberdade estaria drasticamente restrita. Portanto, se não pudermos eleger as prioridades da nossa vida como bem quisermos não teremos liberdade alguma. É em nossas escolhas livres que manifestamos nossa verdadeira personalidade. Estou muito mais presente nas coisas que faço do que nas coisas que digo.

Assim, percebe-se sem dificuldade que fazemos somente coisas nas quais acreditamos verdadeiramente. Caso contrário, não as faríamos. Dessa forma, nossas escolhas são muito importantes porque revelam quem somos e no que acreditamos. Pelo fato de podermos escolher algumas coisas enquanto refutamos outras, percebe-se como a noção de certo e errado está bastante relacionada com a veracidade com que vivemos. Se eu disser uma coisa com minha boca e praticar outra com meus braços não estarei sendo apenas hipócrita, seria também um mentiroso. E, dado que certas visões de mundo permitirão que as pessoas vivam melhor e com mais liberdade que outras visões de mundo, é certo que minha liberdade de escolha revela também uma inevitável responsabilidade. Percebe-se que ocorre, nesta discussão, certo embate de importantes conceitos: qual seria mais importante, a liberdade ou a verdade? Ou seriam ambas faces de uma mesma moeda? O fato é que uma não vai funcionar sem a outra. De que adiantaria a liberdade se verdade alguma importasse? Ou qual a utilidade de se saber a verdade se não se pudesse vivê-la livremente?

Uma primeira conclusão inequívoca a que podemos chegar é que liberdade alguma importa se não puder praticar alguma verdade. Aí temos o segundo problema: que é a verdade? Não terá o mundo superado completamente a noção de verdade? Não será a verdade uma dessas relíquias ideológicas inatingíveis que bem merecem a lata do lixo da história? Se fosse assim, devido à nossa primeira conclusão, não haveria liberdade alguma possível. Para que sejamos livres precisamos praticar nossa própria verdade. Mas será que alguém chega mesmo a possuir algo fundamentalmente verdadeiro? Será mesmo que, possuidores da liberdade, podemos caminhar com segurança na direção da verdade? Ou será que a liberdade é só um conceito belo mas impossível de ser colocado em prática porque a verdade jamais pode ser inteligível? De fato, se não houver verdade possível, viveríamos apenas a impressão de sermos livres e, neste sentido, a liberdade seria apenas uma abstração sem sentido. Ou seja, para que a liberdade seja efetiva, real, a verdade precisa existir como realidade concreta, no singular.

Porém, ainda que a verdade seja imprescindível à liberdade, poucas são as pessoas que declaram tê-la alcançado. A imensa maioria das pessoas parece ter certa intuição a respeito do que seja verdadeiro, abstendo-se de dar uma resposta definitiva. Por esta razão, é muito importante notar que o aspecto mais importante da liberdade talvez seja o de que as pessoas devem poder procurar a verdade como lhes parecer melhor. Neste sentido, anda-se em direção à verdade, no singular, trilhando o caminho que parece o mais adequado. Ou seja, as pessoas devem ter a liberdade para fazerem-se como quiserem, sem coações externas. A liberdade é, deste modo, o instrumento com o qual se busca a verdade. Conseguindo-se alcançar a verdade, a liberdade torna-se o instrumento com o qual se procura compartilhar o absoluto descoberto, sempre na medida em que se respeita a liberdade alheia. Estes princípios são, sim, mais importantes que a última fofoca sobre o ator da novela, ou a nova receita revolucionária, ou a moto de motor mais possante.

Tudo o que não serve para construir um mundo de respeito, tolerância e liberdade é distração. Evidentemente, deve-ser respeitar quem decide assim gastar sua existência, como se ela apenas vivesse no mundo. Mas deve-se combater esta visão de mundo na medida em que ela está focada somente em prazeres materiais que esgotam os recursos naturais que deveriam ser utilizados por todos igualmente. Quem acredita que se deve viver de maneira mais igualitária e justa faz-se adversário de um estilo de vida irresponsável e inconseqüente. No que chegamos a mais dramática conclusão a respeito da verdade: ela exige o combate do erro e da mentira, senão ela não seria verdade alguma. Trata-se mesmo de um equilíbrio tênue. Se somos verdadeiros, devemos trabalhar pela promoção da verdade na qual acreditamos. Mas, em respeito à mesma verdade na qual acreditamos, devemos tolerar que os outros não concordem conosco, senão como exigiríamos deles que respeitassem a nossa verdade? Por isso acredito tanto em soluções intermediárias, negociadas por todos numa sociedade democrática. Só assim serão levadas em conta as opiniões mais consensuais, de apelo mais geral.

E, também por isso, sinto tanto repúdio às diversas manifestações de autoritarismo contemporâneas, especialmente aquelas disseminadas covardemente pela esquerda radical como se fossem verdades que todos devessem abraçar sob pena de serem tachados de reacionários. Eles é que são reacionários! Pretendem fazer com que todos vivam sem liberdade alguma, à exceção, é claro, dos dirigentes dos partidos, que terão certamente a liberdade de fazer com a vida dos outros o que bem entenderem, como se as possuíssem por algum estranho desígnio insondável. É certo que agem assim porque se acreditam possuidores de uma grande verdade, mas porque não são capazes de aceitar que as outras pessoas tenham suas próprias verdades devem ser combatidos pois, se a liberdade e a verdade são as coisas que mais deveriam importar a todas as pessoas, o combate aos que pretendem aniquilar a ambas deve ser empreendido pelo maior número de pessoas, especialmente quando as vozes mais intolerantes aproximam-se do poder diante da indiferença da maioria, a quem nada parece importar.

Por isso, o respeito pelas liberdades alheias deve admitir as ações dos que afirmam ter conhecimento da verdade sem, com isso, jamais admitir a ação daqueles que, em nome dessa verdade que julgam possuir, pretendem combater as liberdades individuais. A tolerância verdadeira é aquela que respeita profundamente a divergência, mas não admite o autoritarismo. Tudo isso para que o maior número possível de pessoas possa se manifestar e viver a vida como lhes parecer melhor. Afinal, não é isso que todos estamos procurando? O que importa mesmo é que sempre tenhamos a liberdade para sermos nós mesmos, procurarmos os que nos são semelhantes, e refutarmos os que pretendem nos doutrinar contra a nossa vontade. Viver como se não tivéssemos a responsabilidade de lutar por um mundo onde todos tenham chance de se desenvolver plenamente é uma inconseqüência vil da ideologia segundo a qual se deve viver apenas para si mesmo. Portanto, tanto a tirania esquerdista que pretende a ditadura do proletariado quanto a ideologia consumista do prazer máximo devem ser refutadas em nome da liberdade de todos. Esta é a minha verdade.