Foi mesmo uma experiência curiosa visitar um centro cirúrgico após formar-me em cinema. Ainda mais interessante foi tê-lo feito após ter dirigido um curta-metragem, enquanto ainda sonhava em ser apenas diretor de cinema. Após o convite de um amigo filho de cirurgiões, colega meu na faculdade de Medicina, estive no centro cirúrgico da Santa Casa de Caraguatatuba, onde seus pais atuam. Hospedei-me em sua casa por quase uma semana e acompanhei diversas cirurgias com seus pais, gente finíssima. Também dei uma olhada nas operações realizadas por outros cirurgiões, de modo que vi uma grande variedade de procedimentos: extração de vesícula, cesária, prótese da cabeça do fêmur, implante mamário, dentre muitos outros.
Certamente muitas coisas chamariam minha atenção e marcariam minha memória para sempre: o cuidado dos cirurgiões em se paramentarem para o procedimento, a limpeza geral do ambiente cirúrgico, o cenário tropical que se pode ver por fora das janelas esterelizadas durante as operações e, inclusive, as piadas de um anestesiologista que, além de ser uma figura, ensinou-me ao vivo como é feita a famosa anestesia raquidiana. Mas, como cineasta, o que realmente supreendeu foi a concentração dos cirurgiões durante os procedimentos. É claro que se fala coisa ou outra durante a cirurgia que não tem nada a ver com a operação, mas isto só ocorre em momentos menos importantes. No geral, a concentração é total.
Assim, fiz rapidamente um paralelo entre a presença do diretor de cinema no set de filmagem e do cirurgião na sala de cirurgia. Tanto um quanto o outro tem completo domínio de cena, são assistidos cuidadosamente por diversas pessoas, procuram manter todos os acontecimentos sob seu controle estrito e não permitem que nada não planejado ocorra. Tudo isso para que a eficácia do trabalho seja otimizada, evidentemente. A diferença principal é, logicamente, que no set de filmagem a vida de ninguém está em perigo, enquanto no centro cirúrgico há alguém literalmente aberto. Como não achei ridículos, então, os comentários de psicanalistas que afirmam serem os cirurgiões pessoas violentas e perigosas; verdadeiros doentes mentais.
É o absoluto contrário disso. Os cirurgiões devem estar em perfeito controle mental para trabalhar. Qualquer desvio comportamental deve certamente impedir um cirurgião de operar, e não o contrário. Não vi, nem minimamente, esta indicação preconceituosa de Freud e seus seguidores estúpidos. Como o diretor no set de filmagem, o cirurgião tem de saber muito bem o que faz, calculando cautelosamente cada movimento, afinal, ele tem nas mãos um bisturi e, diante de si, uma pessoa sedada. Se algo estiver errado com ele, não pode operar em absoluto, pois tem de estar na plenitude de sua razão para agir com máxima frieza e cuidado. Mais um grave equívoco histórico da psicanálise desmentido.
Na verdade, em lugar das típicas projeções da própria loucura pelos psicanalistas, testemunhei muito cuidado com os pacientes, verdadeiramente os centros de cada cirurgia. Vi gestos de constante cuidado, de precisão milimétrica, manifestações extremadas que a pessoas de fora da Medicina pareceriam exageros. Foi uma experiência tão surpreendente para alguém que desejava apenas se dessensibilizar que me vi, após esta semana, um apreciador da cirurgia. Antes, ela não me causava impressão nenhuma, agora que sei como deve ser cuidadosa e meticulosa, tudo para o bem do paciente, passei a admirá-la. Um progresso e tanto para alguém que, até bem pouco tempo atrás, considerava apenas a clínica como opção de especialização.

2 comentários:
um destes médicos , seria o dr.Ibrain? ele está operando meu irmão neste exato momento...rsrsrs..
Oi Nanda, tem vários cirurgiões lá em Caraguá. Pelo nome não reconheço! rs.. Mas tomara que esteja tudo bem com seu irmão..
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