Ao contrário da ampla maioria de intelectuais brasileiros e internacionais, não vejo nenhum problema fundamental na cirurgia plástica. Não concordo que ela seja necessariamente ruim, promotora de um mundo de aparências e futilidades, como se todos que a procurassem fossem pessoas vazias e alienadas. De fato, é sensato admitir que haja muitas pessoas com este perfil entre aquelas que procuram a cirurgia plástica, mas daí a condenar toda a prática, dizendo que reforça os piores preconceitos estéticos da sociedade, vai uma grande diferença. Pelo contrário, se utilizada corretamente, quando há de fato uma recomendação médica séria, a cirurgia plástica pode ser uma experiência libertadora, proporcionando imenso alívio a quem sofria com deformações graves ou quaisquer outros desvios físicos bastante incômodos.
Como não se sensibilizar, por exemplo, com a história de um rapaz que sofrera, em sua infância, um pequeno acidente em uma ponte e que, por dificuldade financeira, carrega até hoje uma enorme cicatriz deformante no abdome, que o impede de levar uma vida normal, porque não tem dinheiro para operá-la? Soube deste caso pelo professor que atendeu o rapaz no consultório de clínica médica do meu curso de medicina. Segundo este professor, a cicatriz do rapaz é séria o bastante para não se poder considerá-lo fisicamente normal, pois ela forma uma enorme protuberância irregular que se projeta para fora, causando um grande volume sob as roupas do rapaz. Muitos podem pensar que histórias como essa constituem exceções no universo da cirurgia plástica, voltado principalmente à vaidade, mas será mesmo?
Alguns anos atrás, minha dermatologista identificou, em minhas costas, uma pinta com sinais de tumor. Ela mandou-me procurar um cirurgião plástico para removê-la, para que fosse analisada por um patologista. Felizmente, não era nada. Mas a pele não cicatrizou muito bem, formando um quelóide, um emaranhado de tecido esbranquiçado. Nada que me deixe desconfortável para tirar a camisa em público, mas com certeza eu preferiria ter sido alertado a respeito das chances de desenvolver tal cicatriz antes da remoção da pinta. Assim, de nada adiantou o cirurgião comentar comigo que aquele resultado era normal após o procedimento. Como ele poderia estar tão despreparado a ponto de desconhecer o tipo de informação que se deve dar ao paciente que se apresenta para uma cirurgia estética?
De fato, diante de um procedimento radical como uma cirurgia, como ainda pode acontecer de um paciente entrar no centro cirúrgico sem saber minimamente os riscos envolvidos? Casos como este, se não denotam descaso com o paciente, revelam ao menos uma grave insensibilidade do médico envolvido. Não surpreende que o número de reclamações contra cirurgiões plásticos esteja aumentado muito, acompanhando o aumento no número de cirurgias realizadas. As queixas principais dirigem-se justamente à falta de informação preparatória, o que levou à frustração com o resultado do procedimento, afinal, o paciente mal informado sustenta idéias um tanto irreais sobre o que esperar de sua cirurgia, enquanto o médico, muitas vezes mais interessado em dinheiro do que em atender bem, não se preocupa em explicar-lhe adequadamente o que esperar.
Para remediar esta situação lamentável, o Conselho Federal de Medicina decidiu finalmente disciplinar os cirurgiões plásticos, elaborando uma cartilha extremamente simples para ser seguida em todos os atendimentos desta especialidade. De agora em diante, devem-se registrar na cartilha todas as etapas do atendimento médico, da primeira consulta ao pós-operatório, e o paciente terá direito a uma cópia deste documento (reportagem aqui). Um dos itens da cartilha é o alerta obrigatório a respeito dos diversos riscos de uma cirurgia estética, incluindo a questão da cicatrização, se fácil ou difícil conforme a idade do paciente e conforme a região operada. Em suma, uma evolução extremamente simples de enorme impacto na relação médico-paciente.
Sendo a cirurgia plástica uma especialidade nobre, tão útil e necessária, que não se limita a satisfazer os desvarios de madames desocupadas e fúteis, não deixa de ser lastimável que, em pleno séc. XXI, ainda seja responsável por tantas reclamações por motivos banais como falta de informação adequada. Não seria de se esperar que equívocos menores, como estes, estivessem totalmente superados? Somente a desumanização do atendimento, a transformação do paciente em um número, justifica a persistência de erros tão banais. Se os profissionais da classe médica não reduzirem a sua atividade à conquista financeira, é certo que serão capazes de ter pelo paciente o respeito que ele merece, oferecendo-lhe não somente o atendimento mais adequado, como também todas as informações que ele precisa conhecer.
Além do mais, a cirurgia plástica é uma das especialidades mais procuradas por pessoas muito comprometidas emocionalmente. Muitos se candidatam a cirurgias estéticas para corrigir defeitos que somente eles mesmos vêem, em decorrência, muitas vezes, de traumas que os fazem perder a objetividade ao analisarem-se, levando-os a se considerarem menos bonitos do que verdadeiramente são. Somente um cirurgião mais preocupado em atender bem abrirá mão de uma cirurgia, que geralmente vale muito dinheiro, para indicar ao paciente o tratamento que ele realmente necessita: o psicoterápico e, em alguns casos, o psiquiátrico. Assim agirá o bom cirurgião plástico, pois é capaz de ver que o seu paciente não se resume a alguém com necessidades estéticas; é também uma pessoa com angústias, inquietações e dificuldades.

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