No mundo, poucas profissões conseguem ser tão estranhas quanto aquela dos que se afirmam sexólogos. Afinal, o que essa gente estudou? Sexo? Então são profissionais no sentido mais estrito do termo. Mas não. Eles recusariam esta definição de meros praticantes de sexo que se limitam a ensinar a tara que a gente chique deve praticar para provar que é moderna. A verdade é que não são formados em nada. No máximo um ou outro fez psicologia, mas nem todos. No entanto, apesar da completa irregularidade da profissão, sua perfeita nulidade e absoluta insignificância acadêmica, essa gente estranha que se afirma sexóloga diz analisar o sexo cientificamente. Professam-se estudiosos da sexualidade e pretendem ajudar as pessoas que sofrem neste departamento. Então se pode perguntar: se não há uma categoria acadêmica para a profissão que possuem, e se imaginam praticá-la segundo padrões científicos, como é que eles afirmam estudar a sexualidade?
Ora, procurando conferir à própria profissão um viés cientificista, procurando fazê-la parecer científica ainda que não seja. Assim, como todo bom cientista, focam sua atenção sobre seu objeto de estudo, no caso, o sexo, de modo que esta faculdade psíquica e fisiológica do corpo humano esteja no centro do estudo. Imaginam que, tal qual na física ou na biologia, deve-se colocar o objeto de estudo no centro. Acontece então que eles lêem o ser humano a partir do sexo, ou seja, a partir de uma perspectiva sexualista, fazendo parecer que o coração bate por causa do sexo, os olhos vêem por causa do sexo, as pernas andam pelo mesmo motivo. Então, esquecem-se completamente que o sexo é uma dentre diversas faculdades humanas, todas coesas, operando simultaneamente dentro de um mesmo organismo. O sexo existe como uma peça dentro de um gigantesco quebra-cabeças, muito maior do que se poderia imaginar caso se procurasse entender o ser humano apenas a partir dele.
Um estudo justo, verdadeiro e intelectualmente honesto a respeito da sexualidade humana encontra seu lugar nos cursos de psicologia e de medicina. Afinal, são estes os locais onde se procura entender o ser humano em sua totalidade, em sua expressões praticamente infinitas. Deve-se ver o sexo como uma atividade humana bastante importante, como ele é, com toda a sua enorme trama de implicações e influências psicológicas e fisiológicas, mas não central, como ele nunca foi. Para se perpetuar enquanto espécie, o ser humano nunca foi apenas um tarado. Ele teve de ser trabalhador, em suas infinitas expressões, um ser de vida social extremamente complexa, aprendiz, inteligente, criativo, audacioso, etc, etc. É dentro desta perspectiva que inclua todas as faculdades humanas que se deve estudar a sexualidade. Não se trata, em absoluto, de achar que o sexo não deva ser estudado. Trata-se apenas de colocar no centro aquilo que deve estar no centro, e este algo é o ser humano como um todo, com todas as suas expressões, contradições, condições.
Reduzir o sexo à expressão de simples objeto com o qual se pode (ou se deve) brincar é objetificar o ser humano, pretender reduzir sua infinita trama de capacidades à apenas uma, pervertendo, assim, tanto o homem quanto o sexo. É muito contraditório que, ao mesmo tempo em se fala tanto na promoção da qualidade de vida, do bem-estar do homem sobre a terra, enfim, de uma maior humanização nas relações interpessoais, de modo que todos sejam igualmente respeitados e reconhecidos, logo a sexualidade seja tão desprezada, tão maltratada, tão vilipendiada. Se é para promovermos valores positivos, que enalteçam e dignifiquem o ser humano, deve-se promover o respeito pela sexualidade humana, sem reduzi-la à expressão animalesca como se, neste particular, estivéssemos obrigados a ignorar todos os bons valores que, como sociedade, ambicionamos divulgar e promover. Assim, a humanização da sociedade, em seus diversos aspectos, não pode abandonar a humanização do sexo, que deve ser valorizado e dignificado como expressão de bons sentimentos humanos, não como coisa rasteira, vil e animalesca, própria de animais sem razão.

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