Muitas pessoas estranham quando ouvem, pela primeira vez, que as drogarias têm esse nome porque vendem drogas. A elas, parece que drogas são apenas aquelas substâncias ilegais que entorpecem a mente, alteram o juízo e diminuem os reflexos. Desconhecem que são consideradas drogas todas as substâncias de uso farmacológico, com fins de prevenção, tratamento e diagnóstico, que, ou não fazem parte do metabolismo normal do organismo, ou são administradas em quantidade muito acima do normal. Neste último caso, substâncias próprias do organismo, como a adrenalina, são consideradas drogas quando ministradas em quantidade muito superior àquela normalmente presente no corpo. Deste modo, não são consideradas drogas aquelas substâncias necessárias ao funcionamento fisiológico normal do organismo, como o gás oxigênio, a água, ou o alimento. Ao menos, assim é de se esperar.
Porém, por força de comportamentos inadequados à manutenção normal do organismo, um indivíduo pode alterar consideravelmente a sua fisiologia, deslocando-a para situações de risco para a saúde. A obesidade é um exemplo bastante adequado deste tipo de transformação orgânica motivada por comportamento inadequado. Pelos mais variados motivos, o indivíduo obeso ingere mais comida do que o seu organismo necessita, contrariando as indicações dos seus centros encefálicos de saciedade ou sofrendo graves consequências de alterações patológicas destes centros. Devido à ingestão forçada de mais alimento do que o necessário, seu corpo acaba se adaptando ao novo peso, de modo que seus centros de saciedade só irão considerar o organismo plenamente alimentado quando for ingerida a quantidade de comida necessária para a manutenção do peso elevado.
Evidentemente, se o estímulo que causa a fome exagerada persistir, a pessoa pode engordar ainda mais. Da mesma forma, se o estímulo for removido, a pessoa pode emagrecer consideravelmente. Geralmente, o obeso acaba estacionando em um ponto onde se sente saciado por uma certa quantidade de comida, a qual seu organismo se adapta. Assim, para emagrecer é preciso ingerir menos comida do que o necessário para a manutenção do peso elevado, obrigando o corpo a consumir os depósitos de gordura. Para um encéfalo acostumado a um determinado peso, fazer regime é, de fato, uma atividade muito estressante e desagradável. Afinal, alimentar-se é um instinto muito primitivo, sem o qual não se pode viver. O obeso necessita, então, desenvolver um relacionamento mais objetivo com a comida. Não pode se permitir comer apenas por prazer, satisfazendo-se plenamente.
Para emagrecer, o obeso precisa contrariar o impulso de alimentar-se conforme as sugestões equivocadas de um centro de saciedade distorcido após anos de ingestão exagerada. A comida não pode ser ingerida de modo recreativo, como os drogados fazem com algumas substâncias controladas ou proibidas, consumindo-as apenas em busca de uma sensação agradável. O obeso encontra-se acima do peso justamente porque desenvolveu pela comida uma atração semelhante àquela dos usuários de drogas: alimenta-se não para saciar a fome, mas para recrear-se, divertir-se. Como o drogado, ele come para diminuir seu estresse, para ajudar na regulação do sono, para esquecer as angústias, ou apenas pela sensação de prazer. Dizem alguns psicólogos que, muitas vezes, também comem para sentirem-se preenchidos emocionalmente, suprindo, assim, um vazio profundo com o qual não sabem lidar.
Essa busca desenfreada pelo prazer é, tanto no obeso quanto no drogado, a expressão de distúrbios psicológicos que tornam a pessoa incapaz de sacrifícios, mesmo aqueles que lhes são francamente positivos. É muito difícil a ambos olhar para si mesmo com objetividade, procurando, como um adulto, combater de frente o que há de errado, superando as dificuldades através do esforço quotidiano, típico de uma personalidade madura e consciente de seus deveres para consigo mesmo. Ou seja, a obesidade é, como o vício em entorpecentes, o universo de pessoas incapazes de se olhar com objetividade quando se trata de seu prazer egoísta. Tanto o obeso quanto o drogado inventam constantes desculpas com que pretendem justificar aos outros o grande mal que causam a si próprios. Assim, o obeso perverte o alimento, que, de algo útil e necessário, torna-se supérfluo e egocêntrico.
Ainda que não consiga expressar-se desta forma em relação à obesidade, a maioria das pessoas percebe e estranha a alteração comportamental do obeso, tanto que não lhe é receptiva, fazendo muitas vezes piadas grosseiras que estimulam a frustração e infelicidade do obeso, reforçando, assim, o estímulo que o leva a comer mais. Em outras palavras, o desconhecimento da maioria das pessoas e o preconceito dele decorrente podem reforçar o estímulo que leva o obeso a engordar. Mas há exceções, é claro: o hipertireoidismo, por exemplo, com o qual o craque Ronaldo desculpou-se por seu peso evidentemente desajustado. Mas, como sempre, as exceções confirmam a regra; neste caso, de que a maioria dos obesos não sabe ou não quer controlar-se emocionalmente, causando, assim, ao longo de anos, profundos desequilíbrios metabólicos através de seu estranho relacionamento emocional com a comida.
Mas há formas de se contornar esse incômodo. A pessoa deve procurar ver sua situação de um modo positivo, reforçando os aspectos animadores que emagrecer representa. Deve ter, ainda, um motivo bem claro pelo qual deseja emagrecer: para alguns, é uma questão de saúde, para outros, estética. Só não pode pensar que esta é uma questão menor, pois, para emagrecer, o obeso deverá envolver toda a sua emotividade ao redor deste objetivo complexo e exigente. Ignorar a motivação pela qual deve emagrecer é uma maneira bastante eficaz para jamais iniciar uma dieta séria e comprometida, a única que auxiliará o obeso a emagrecer. Ela deve ainda reforçar em si o verdadeiro prazer de comer, que é apreciar o sabor de um bom prato sem empanturrar-se dele, mantendo, após a refeição, a sensação agradável de saciedade e bem-estar, não aquele torpor e desconforto típico de quem comeu mais do que o necessário.
Em suma, o obeso precisa de objetividade ao comer. Seu maior desafio não é controlar a boca contra o estímulo de comer muito (isso levará a um garantido insucesso), mas perceber como é descontrolado seu desejo de comer em excesso, procurando, assim, diminuir a intensidade emocional do estímulo que aumenta seu apetite. Alguns médicos recomendam que se anote tudo o que se come, justamente para que o obeso passe a tomar consciência do que tem comido, não relegando seu juízo sobre o quanto irá comer ao seu centro de saciedade desequilibrado. Assim, a decisão de comer a mais ou a menos passará a ser, aos poucos, uma decisão racional, deixando de ser uma decisão impulsiva e emocional, que manterá o desequilíbrio alimentar. O que o obeso não pode é fingir-se indiferente ou achar que seu problema não tem solução. Este é o melhor método para continuar obeso e frustrado consigo mesmo diante de todos.

1 comentários:
Adorei o artigo! Realmente esclarecedor! Muito obrigada!!!
Postar um comentário