Algum tempo atrás, a Vivo, a conhecida operadora de telefonia móvel brasileira, veiculou uma propaganda em que oferecia, através de seus serviços, consolo sexual para uma senhora idosa, avó de dois rapazes adolescentes. O comercial mostrava um deles perguntando ao outro porque a avó não saia do telefone; ouviu como resposta que ela estava falando com o namorado, morador de outro estado. Replicou que pelo menos o tal namorado morava longe. Mas logo soava a campainha e, pelo visor da porta, o mais novo viu que o namorado de sua avó havia chegado. Decepcionado, ele abriu a porta, esperando talvez que, enquanto o velhinho matreiro daria um trato em sua avó, ele ficaria chupando o dedo. Mas o velhinho malandro trouxera consigo sua neta, uma moça linda, para distrair a rapaziada enquanto ele dá um trato na velha, rompendo assim, de imediato, a barreira que os netos faziam ao relacionamento, talvez sugerindo que, enquanto os avôs se pegavam no quarto, na sala ao lado podia estar rolando um ménage à trois entre os netinhos fogosos.
Mas uma análise como essa talvez soasse exagerada. Talvez a Vivo estivesse mesmo, como afirmava sua campanha, apenas promovendo a união entre as pessoas, de modo que este comercial dos velhinhos de namorico apenas se limitaria a indicar que, através do uso de serviços telefônicos, as pessoas podem se aproximar umas das outras, tornando-se mais felizes. Talvez a Vivo nunca tenha pretendido, através dessa propaganda, indicar que, pelo uso dos seus serviços, as pessoas aumentarão suas chances de serem consoladas sexualmente, mesmo as mais idosas e desengonçadas. Talvez ela nunca tenha pretendido se utilizar inconscientemente dos desejos sexuais de seus potenciais consumidores para vender aparelho de telefone celular. Talvez. Porém, se todas essas hipóteses estivessem efetivamente corretas, a Vivo jamais teria lançado uma campanha como esta que começou a ser veiculada nacionalmente semana passada, onde ela promete que, largando o marido e comprando um celular Vivo, qualquer moça pode dar uma “encontradinha” maliciosa com o bonitão desejado desde os tempos do colégio.
Ao contrário da campanha dos netinhos ciumentos, onde há apenas uma ligeira insinuação de que a vovózinha namoradeira é uma divorciada em busca de novas aventuras sexuais, a nova peça promocional da Vivo não se intimida em promover a idéia de que a felicidade autêntica só é possível através do fim do matrimônio, compromisso que a campanha faz parecer insosso e desinteressante. A nova propaganda da Vivo vende descaradamente a idéia de que uma vida radiante e cheia de emoções só ocorre quando, de aparelho Vivo na mão, as pessoas começam a realizar todos os seus impulsos e desejos, destacadamente os sexuais. Tanto que a campanha menciona, com malícia inegável, que a consumidora Vivo descobriu a felicidade quando, após contratar os serviços desta operadora, começou a dar diversas “encontradinhas” com sua antiga paixão platônica de colégio que ela, talvez ingênua demais no passado, talvez preferisse ignorar. Hoje, porém, após adquirir o comportamento Vivo, ela não recusa exibir-se em rede nacional de televisão como a moça das “encontradinhas”.
Seguindo uma forte tendência no meio publicitário atual, para vender mais de seus produtos, a Vivo procura agregar valor a eles, oferecendo não apenas serviços de telefonia móvel, mas comportamento. Assim, a operadora pretende valorizar ainda mais sua marca. Quem compra um celular Vivo influenciado pelas propagandas dessa operadora quer participar deste mundo de sonhos sexuais plenamente satisfeitos para moças, vovós e netinhos. Outras empresas também têm procurado agregar valor às suas marcas há muito tempo, mas o têm feito de modo mais honesto e direto. Estas campanhas da Vivo assustam pelo fator subreptício, subliminar, que vende “encontradinhas” nada inocentes como se vendesse pães de queijo ou shampoo, quando deveriam, na verdade, vender bons serviços telefônicos, mas não podem fazê-lo porque não há sequer uma operadora de telefonia que preste bons serviços no Brasil atualmente. Mascaram serviços medíocres com vovós namoradoras e jovens tarados. Agem, assim, na desonestidade comercial mais pura e simples.
A “encontradinha” real dos consumidores da Vivo, e das demais operadoras, tem que ser com o Procon e com a Anatel, órgãos responsáveis pela fiscalização das operadoras de telefonia no Brasil, para reclamar dos péssimos serviços prestados por todas elas. Os consumidores não podem ignorar que, através de campanhas com maliciosas mensagens subliminares, elas pretendem fazê-los esquecer, ou ao menos ignorar, os péssimos serviços prestados, que são, segundo alguns indicadores, os piores e os mais caros do mundo. Esse esforço deve ocorrer para que os executivos destas empresas tenham a primeira “encontradinha” de suas vidas com a vergonha na cara, dado que se chegam a valer até mesmo da sexualidade de pessoas idosas para vender seus serviços de péssima qualidade. Talvez somente através de contínuas reclamações de consumidores que não se deixam enganar por sonhos de velhinhas insaciáveis sexualmente eles tenham uma eficaz “encontradinha” com o mínimo de competência, profissionalismo e decência.

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