Artistas são seres cheios de teses. Dificilmente há inocência em suas colocações. Mesmo trabalhos aparentemente despretensiosos encerram uma complexa visão de mundo. No cinema, então, arte que conjuga literatura, música, interpretação e artes plásticas, a influência das idéias pessoais do diretor e do roteirista se fazem especialmente visíveis, quaisquer sejam as filmografias. No mundo todo o cinema é tratado como veículo privilegiado para a defesa de um ponto de vista sobre a realidade. É assim mesmo nos mais abobados filmes comerciais americanos, nos quais, supostamente, apenas o lucro deveria ser importante. Porém, na verdade, para que um filme cause uma impressão dramática, ele precisa de alguma história. Assim, nos Estados Unidos, mesmo a comédia mais escrachada só é produzida se seu roteiro contiver um arrazoado dramático mínimo, capaz de envolver uma platéia.
Se beber não case 2 não é uma exceção. Ao contrário do que poderia supor um estudante de cinema latinoamericano típico, apesar de ser uma comédia dada a piadas de baixíssimo calão, o filme tem lá sua tese, e não tem vergonha de expô-la. Se beber não case 2 é um filme sobre as dificuldades da primeira geração criada com videogames em amadurecer. Ele nos apresenta um grupo de quatro amigos envolvidos com uma viagem para a Tailândia, onde um deles, Stu, irá se casar com uma beldade que, como ele, mora nos Estados Unidos. O pai da noiva é um asiático feroz, que, em um jantar formal, compara seu futuro genro a um caldo de arroz sem graça que é dado apenas aos recém-nascidos e aos muito idosos. O noivo, evidentemente, sente-se muito chateado, mas que fazer se isso é a mais plena verdade? Como ele poderia se defender se a sua personalidade é fraca e imatura? É uma criança despreparada no corpo de um adulto. Não poderia estar mais desamparado.
Mas ele tenta esquecer e se reúne com seus amigos à noite, numa praia, na companhia do irmão da noiva, Teddy, para uma inocente despedida de solteiro com umas poucas garrafas de cerveja e um pacote de marshmallows. Nada poderia dar errado, não? No dia seguinte, porém, acordam em um lugar desconhecido, numa grande cidade, e em péssimo estado. Teriam sido drogados por alguém? Além disso, o futuro cunhado desapareceu. Começa uma corrida desenfreada por descobrir o que aconteceu. Aos poucos eles se lembram da noite anterior, à medida em que embarcam nas mais insólitas aventuras para reaver o irmão da noiva. Stu, o mais desajeitado, sofre os piores revézes; talvez para fortalecer seu caratér imaturo? Após as piores provas, eles reencontram Teddy e, no retorno ao local do casamento, um Stu fortalecido desafia a autoridade do futuro sogro, indignado pelo sumiço às vésperas do casamento.
De fato, o eixo central do filme não são as piadas escatológicas, mas o desespero em estar à altura das expectativas de uma verdadeira figura paterna - certamente um grande desafio para todos os jovens adultos de uma geração imatura e infantilizada. Stu é o herói desengonçado com quem se identificam os espectadores tão despreparados para a vida adulta quanto ele, afinal, a vida deles também é sem sentido e sem graça. Como Stu, a platéia também quer viver grandes aventuras, afinal, há forma melhor para amadurecer do que se divertindo? O problema é a imaturidade que já vem embutida em tal raciocínio. Se beber não case 2 é um grande sucesso porque conjuga profundidade existencial com escatologia barata, como seus espectadores, artificialmente, tentam fazer em suas vidas, vivendo intensamente para esquecer de que não têm motivo algum para estarem vivos.

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