Há quem se afirme guiar somente por princípios científicos. Todos os demais ramos do saber, se não são orgulhosamente ignorados por estas pessoas, são deixados em segundo plano. Além disso, essa gente pensa que todas as pessoas sensatas se guiam apenas pela ciência, sempre. Argumentam eles que diante de necessidades efetivas, a opção científica é a única legítima (deve-se ignorar as proposições de quaisquer outros sistemas). A exceção seria a opinião influenciada pela religião, que eles consideram inútil, própria de pessoas covardes demais para admitir a inexorabilidade da morte. Segundo essas pessoas, deve-se à religião a maior parte das atitudes de ceticismo em relação à ciência. Assim, somente pessoas religiosas, ou muito religiosas, seriam idiotas o bastante para recusar os avanços científicos.
Mas será que isso está correto? Talvez esta questão pudesse até mesmo ser levemente divertida. Infelizmente, porém, ela é tão simples de responder que entedia. Vejamos: se todas as pessoas esclarecidas se guiam pela ciência, deve-se concluir que todos os fumantes são tolos? Minha irmã, por exemplo, apesar de mestre, pela USP, em psicologia comportamental, o único ramo científico das psicologias, seria uma pessoa inferior porque, contrariando os ensinamentos científicos, é fumante? Garanto que se ela desenvolver um câncer de pulmão não recusará consultar-se com um pneumologista, mas, se ela aceita ser atendida segundo princípios científicos, por que se recusa a vivê-los na prática quotidiana? Se, como pessoa esclarecida, ela sabe que fumar faz mal, por que continua a fazê-lo?
Porque ninguém é motivado por princípios racionais e científicos em sua vida interior. São as emoções que nos movem a todos. Assim, se alguém pretende ajudar a ciência, é porque suas emoções estão tomadas por este desejo. Não é a pura razão científica que vem primeiro, pois ela seria insuficiente em motivar quem quer que seja. É o desejo de viver estes princípios científicos a instância fundamental que desperta a emotividade; de modo que o cientista, apesar de utilizar a razão em seu trabalho, motiva-se através de suas emoções. Assim, ele é imperfeito e errático como todas as demais pessoas: pode mudar de opinião, pode revolucionar sua vida para superar algum contratempo mais sério. Ele não é um ser sobre-humano sem paixões, que se guia somente pelos iluminados ensinamentos da ciência.
Ou será que entre todos os cientistas não há um só fumante, ou um só obeso? Será que todos eles praticam exercícios físicos regularmente e mantém uma dieta equilibrada e saudável? Não seria inteligente supor assim dada a dedicação da maioria deles pela à ciência. De fato, os cientistas não são exceção alguma no panorama da humanidade. Eles não constituem um grupo à parte perfeitamente saudável ou perfeitamente bem-sucedido. Pelo contrário, como quaisquer pessoas muito dedicadas, a maioria dos cientistas é passional, entrega-se completamente aos objetos de seu afeto, de sua emotividade. São racionais em seu trabalho, sem sombra de dúvida, caso contrário não seriam cientistas, mas motivam-se a realizá-lo diariamente através dos impulsos emocionais, que é quem os empurram de fato.
Se fôssemos todos plenamente racionais não haveria fumantes nem obesos. Todos estariam saudáveis e na mais plena forma física, pois todos se alimentariam bem e praticariam exercícios físicos regularmente. Também seriam reduzidos drasticamente os índices epidemiológicos das doenças contraídas a partir de comportamentos de risco, como todas as doenças sexualmente transmissíveis e também a ampla maioria das doenças cardíacas, vasculares, pulmonares e ósseas. O problema é que, se somos seres de razão, também somos seres de emoção. Pouco importa sabermos se algum comportamento nos fará mal no longo prazo. Se nós não estivermos motivados interiormente a modificá-lo, continuaremos praticando-o contra nosso próprio interesse e bem-estar.
Assim, é perfeitamente plausível que haja pessoas inteligentes e esclarecidas que, quando ficam doentes, não vão ao médico, outras que fumam, outras que não têm uma boa dieta alimentar, outras que não fazem exercício físico e assim por diante. Ser inteligente não significa, em hipótese nenhuma, deixar-se guiar somente pela ciência. Evidentemente, a ciência pode, e deve, influenciar-nos, pois, ao longo da história, ela tem continuamente colaborado com o aprimoramento da nossa qualidade de vida. Porém, não estamos onde está nossa cabeça, que é ótima para pensar e decidir, mas péssima para motivar, de modo que pouco importa o que nos move intelectualmente. A verdade é que estamos onde está nosso coração; ele sim é o timoneiro inequívoco de nossa vida.

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