Várias diferenças profundas separam o rock e suas variantes do meu gênero musical favorito: o samba. Para mim, destaca-se uma: como cada um deles trabalha o sofrimento. O roqueiro olha para o sofrimento e não sabe o que fazer; declara sua completa impotência, sente que a vida perdeu o sentido, entrega-se à profunda lamentação de quem é incapaz de lutar. Por sua vez, o sambista é também um sofredor, mas em sua obra percebe-se um processamento do sofrimento, que não é colocado no centro da atenção; pelo contrário, reparem como o centro de um samba que discute a vida é o meio pelo qual o sambista superou as dificuldades. Assim, ao contrário do rock, gênero naturalmente melancólico, tão afeito a esclerosados arroubos juvenis, o samba revela um amadurecimento da personalidade humana, uma superação ativa das dificuldades; e não a lamentação passiva, inútil e contínua de praticamente todos os roqueiros. Reparem, então, que o samba é alegre não porque a vida pode ser levada sem sofrimentos, mas porque se luta para superá-los; porque se tem fé em si mesmo e nas próprias capacidades.
Já o rock sustenta infantilmente a atitude pequeno burguesa de lamentar de tudo e não fazer nada para se tornar uma nova pessoa, mais madura e corajosa, preparada para os desafios de existir. De fato, o rock é emo desde o seu surgimento. Assim, samba e rock mantém rumos diametralmente opostos. Reparem como seus mundos não passam da materialização artística da mente de seus criadores, representativas de uma cultura. O samba acredita naturalmente no ser humano, professa-o sem dificuldades porque tem esperança, enquanto o rock sustenta uma corrosiva atitude de ceticismo e negação porque é descrente, porque nutre ativamente um macabro vazio existencial em seu âmago. Na era da globalização, pode-se escolher em qual mundo viver; a qual gênero associar-se. Só não se poderá alegar posteriormente que não houve essa liberdade, que não houve essa associação indeterminada, porque estas escolhas que influenciam nossa visão de mundo compõem o nosso entendimento da realidade, se feliz ou sombrio, se esperançoso ou melancólico. Cada escolha traz consigo suas consequências; portanto, escolha bem.

3 comentários:
Minimizar o rock à bandas modinhas ou a um conceito predominante é estereotipar ao excesso. Chega a ser irresponsável.
A MPB, também trás letras sobre tristeza, solidão, amores não correspondidos.
Grandes nomes da literatura, foram, em essência, melancólicos. Essa classificação não tirou-lhes a genialidade, pelo contrário, afirmou ainda mais o talento e originalidade em expressar suas visões da vida e do mundo a partir de suas experiências.
"A vida, tal qual a encontramos, é dura demais para ser vivida" (Kant). Porque não cantar sobre isso?
Você não está errado. Mas há um conceito predominante, senão rock, samba, jongo, jazz e bossa nova seriam uma coisa só, quando, na verdade, são coisas diferentes.
Me lembrou as palavras de Bebel Gilberto em Samba de Benção. Coincidiu de eu estar ouvindo ela.
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