O conhecido Boni, mago da grade de programação da TV Globo, estabeleceu o notável formato dessa emissora, colocando-a em destaque nacional. Seu núcleo permanece inalterado até hoje: consiste de duas telenovelas, a das 6 horas e a das 7 horas, um telejornal, o Jornal Nacional, e uma terceira novela, a das 8 horas, que atualmente vai ao ar às 9 horas. Há ainda um telejornal local que hoje está entre as primeiras novelas, mas que, no passado, ficava antes do Jornal Nacional. Mas pequenas alterações foram feitas. Antes da novela das 6, a Globo sempre tentou emplacar um programa para o público jovem, mas nunca obtinha o sucesso esperado, que veio quando "Malhação" foi ao ar. Desde então, a Globo mantém um quarta telenovela em sua grade diária de programação. Se contarmos o repeteco do "Vale a Pena Ver de Novo", que exibe novelas de sucesso depois do almoço, teremos 5 novelas diárias. Assim Boni deixou a Globo: 5 telenovelas diárias recheadas por 2 telejornais. Com esta fórmula a Rede Globo conquistou os lares dos brasileiros, mas nunca conquistou o coração de seus críticos, que sempre lhe criticaram a futilidade e a inutilidade de tantas novelas, para não falar na alienação. De fato, as novelas são apenas crônicas de costumes, entretêm, mas não informam. Muitas vezes, na luta pela audiência, deixam-se levar por caminhos muito questionáveis, de gosto muito duvidoso. Outras vezes, promovem excelentes campanhas de conscientização, como nas vezes em que exibiram o drama dos usuários de drogas, das mães com filhos desaparecidos, dos doentes mentais, dos portadores de Síndrome de Down, dentre tantos outros. De qualquer forma, úteis ou não, é certo que a Globo exibe muito mais novelas que os brasileiros necessitam. Mas talvez não exiba tantas novelas quanto os brasileiros querem.
Tanto é assim que programou mais uma pequena revolução em sua grade de programação: com a estréia de "O Astro", terá uma novela das 11 horas, a ser exibida após os programas de variedades de cada dia da semana, que vão ao ar após a novela das 8. Do ponto de vista do mercado, talvez faça sentido. Os executivos da Globo estão, certamente, entre os mais experientes e sagazes do país, mas é lamentável que a principal emissora do país esteja retirando horas de variedades de sua programação para a exibição de mais novelas. Isso em pleno século XXI. É um retrocesso. Mas, provavelmente, é interessante para certos segmentos de mercado. Por exemplo o povão que, com bolsa-família, acaba de subir para a classe C, porém, àquelas camadas sociais que já têm acesso à internet há muitos anos, mais uma novela pode ser muito desinteressante. Talvez essas classes já não sejam mais tão importantes para a Rede Globo, pois assistem cada vez menos TV. Ou talvez "O Astro" seja uma tentativa de recuperar este público elitizado, pois esta novela parece ser um pouco mais sofisticada que as demais; além do mais, trata-se da reedição de uma novela que fez muito sucesso no passado, em um tempo onde poucos brasileiros tinham televisão. Diga-se também que o horário é mais favorável aos mais ricos, que não precisam acordar tão cedo; não sei. De qualquer forma, é uma pena que um veículo tão nobre, administrado por uma empresa tão competente, esteja sendo cada vez mais destinado a satisfazer os gostos rasteiros da população, veiculando as típicas futricas e mexericos das novelas, enquanto poderia estar sendo utilizado para levar mais cultura e informação a todas as camadas da população. "O Astro" é, assim, somente o veneno que os brasileiros querem para si, e quem é a Globo para recusar-se a dá-lo?

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