terça-feira, 12 de julho de 2011

Rock, um cadáver insepulto

O rock acabou, mas esqueceram de sepultar. Aos poucos, este gênero, conhecido pela expressividade no cenário cultural, torna-se cada vez menos relevante. Há muitos anos ele não produz nada significativo; nenhuma banda nova de destaque surgiu, nenhum álbum importante foi lançado, nenhum modismo impactou a sociedade. Atualmente, o rock é apenas a reciclagem capitalista de umas poucas bandas conhecidas à exaustão que não produzem novidade alguma em muito tempo, seja na música ou no comportamento. Ainda que haja bandas underground em farto número e em praticamente todos os lugares, elas apenas se limitam a reproduzir mecanicamente estilos e canções fartamente conhecidos. Mas a decadência do rock não se resume à agonizante e progressiva inexpressividade. Aos poucos, o gênero está sendo completamente descaracterizado. Cite-se, como exemplo, que o festival de rock mais conhecido do mundo inteiro, o Rock in Rio, permitiu que a Niely Gold, marca de cosméticos populares, utilizasse seu nome em uma promoção que sorteia visitas ao camarim da Cláudia Leite, cantora de axé, no dia de sua apresentação no festival. Não se pode imaginar uma situação de maior descaracterização do gênero, de sua atitude e de seu estilo. Se o rock estivesse vivo e influente, como foi por toda a segunda metade do séc. XX, seria impensável uma utilização tão rasteira de seu nome. Como pode um gênero tão notável estar em completa necessidade de novos símbolos? Tudo o que sobra mundo afora são bandas jovens como Restart e Cine, criticadas por reformularem o gênero, apresentando-o às novas gerações. Argumenta-se que elas descaracterizam o rock ao ponto de mais se poder chamá-lo assim. Enfim, o gênero está em decadência, envelheceu mal, acompanhando os velhacos debilóides que o criaram e que, aos poucos, estão morrendo; um a um.

De fato, o rock nunca foi muito original musicalmente; seu charme estava todo na atitude de rebeldia e inconformismo, típicas da pré-adolescência. Talvez o rock tenha ficado um tanto ridículo quando roqueiros já idosos continuaram exibindo comportamentos infantis nos palcos e na vida pessoal. Ao contrário de Pelé, não souberam se aposentar na hora certa. Mick Jagger, por exemplo, que se veste como prostituta de bordel de rio amazônico, com calcinhas coloridas coladas e umbiguinho de fora; como levá-lo minimamente a sério? Se também os Beatles usaram calças coloridas diversas vezes, quem são os fãs tradicionais de rock para criticar o Restart? No processo de divórcio aberto pela ex-mulher de Paul McCartney, consta que, apesar dela usar pernas mecânicas, o roqueiro não permitia que ela mantivesse um penico próximo à cama; então, se precisasse usar o banheiro à noite, ela descia ao chão e se arrastava com os braços até o recinto. Não surpreende que tenha querido se divorciar. O agir deste roqueiro semi-divinizado por milhares de pessoas revela uma personalidade mesquinha, um caráter horrivelmente egocêntrico, um ser sem qualquer virtude. No entanto, atitudes assim não são exceção no cenário do rock. É típico dos roqueiros entregarem-se aos desregramentos de uma vida norteada pelos excessos, por uma busca de prazer desenfreada e ensandecida, como tristemente fazem as pessoas de caráter infantil e egoísta, incapazes da generosidade e do altruísmo. Consequentemente, o fim do rock é um acontecimento auspicioso; ajudará na reformulação dos valores e no desenvolvimento de uma sociedade mais íntegra, respeitosa e humana. Aos que gostam do gênero, recomenda-se guardar com cuidado o telefone do serviço de entrega da farmácia mais próxima, para o caso da fralda geriátrica acabar. Cadáver insepulto e putrefeito, ele vai tarde.

11 comentários:

@RafaelofCaponga disse...

Rock'n Rio Estava nos meus planos esse ano, porem ao saber que a primeira atração confirmada era Cláudia Leite esqueci de vez o festival. O dinheiro fala mais alto hoje e as pessoas ficaram com preguiça de pensar. Apenas seguem a maré. O fluxo de pensamento massificado. Eu sinceramente e talvez utopicamente ache que um dia as coisas melhorem. Mas tá difícil!

Belo tópico vc escreve muito bem!

Henrique Rossi disse...

Muito obrigado por seu comentário, Rafael.

Aos demais leitores que submeteram comentários para este post: podem criticar minha opinião à vontade. Se visitarem outros posts, verão que publico todos os comentários com opiniões diferentes das minhas. Veto apenas os comentários com ofensas que não contribuem para a discussão.

@RafaelofCaponga disse...

Acabei fugindo do tema central no meu 1º comentário. O Rock ainda esta vivo sim, porem apenas para os ouvidos dos reais apreciadores do bom e velho Rock. Agora, no "mainstream" ou como prefiro denominar, "onde está o dinheiro" sim, ai não há mais espaço para atitude e ideologias afins das verdadeiras bandas de Rock. Também é verdade que aparecem muito poucas pessoas boas no meio. O que ainda salva são os bons e velhos que ainda estão na ativa.

Henrique Rossi disse...

Muito bem notado, Rafael.

De fato, tenho algumas teorias a respeito, que evitei para não alongar o texto demais. Na verdade, há um texto que preparo há uns três meses e que não publiquei ainda por considerá-lo fora de sua forma ideal. Mas essa decadência do rock não é apenas uma ocorrência estética. É sinal de transformações sociais muito profundas, da formação de um novo entendimento de ser humano e de realidade, onde o rock não se faz mais necessário. Como se vê, o assunto não é breve, então; temos de aguardar o amadurecimento pleno da ideia. :)

Henrique Rossi disse...

André,

Talvez você esteja complicando as coisas. Veja como meu raciocínio é mais simples do que suas suposições:

1- as bandas que você me enviou fazem um som original? Florence + The Machine, sim (feliz surpresa, mas é contígua ao pop, admita, o que já reflete grande descaracterização da atitude de rebeldia do rock, adocicando-o demais). Queens of the Stone Age, não.

2- as bandas que você enviou são relevantes no cenário cultural da contemporaneidade? Não.

3- as bandas que você me enviou são conhecidas apenas entre fãs de rock? Sim.

Então, o rock não detém mais a primazia que o tornara, na segunda metade do séc. XX uma das maiores forças culturais da história, contribuindo na transformações dos costumes e da sociedade. E há um motivo muito sério para isso: o rock já transformou a sociedade completamente, que existe à sua imagem e semelhança. Então, ele não tem mais o que oferecer.

Seu comentário não está fundado na razão, mas na percepção apaixonada de um fã que nada contra a maré da história.

Simples assim.

JoY__Mayh* disse...

Levemos em conta algumas coisas que você comentou em seu texto. Você afirma que o rock não se faz mais necessário na sociedade. O rock é um estilo musical que desenvolve em muito o senso crítico, trazendo uma espécie de aprimoramento dos gostos musicais. Com certeza, alguém que ouve e aprecia o rock não irá ouvir, sequer dançar um funk. Agora falta me dizer que o funk é importante para a sociedade.

Desculpe-me se estiver lhe julgando previamente contudo, seu texto tem uma formação de interesse manipulador, e não expositivo. O que está totalmente contra as práticas jornalísticas que reportam fatos e informações. Eis seu objetivo indutivo, usando seu blog como se fosse uma propaganda mascarada.

Logo, como amante de rock que sou, e assim como julgaste o fã apaixonado acima, digo-lhe que você traz opinião demais, para poder julgar qualquer coisa.

JoY__Mayh* disse...

Concordo contigo, em questão ao mainstream. Acontece que o rock, no Brasil, nunca foi dominante ao mainstream. Agora torna-se arriscado dizer que ele irá desaparecer, principalmente com o fato de que as tecnologias da informação e transporte atingiram ao mainstream.

Henrique Rossi disse...

Mas seu tom está bem mais leve, JoY.

Além do mais, ninguém precisa concordar comigo, mesmo aqui no blog.

Agora vem o que talvez seja novidade para você: o funk traduz estados de espírito que contribuem para compreensão de mundo de camadas sociais desprivilegiadas. Por causa disso, ainda que péssimo estética e musicalmente, ele é mais relevante que o rock no cenário cultural da contemporaneidade. Portanto, não estou discutindo mérito artístico. Se tivesse de optar entre rock e funk, claro que eu ficaria com o rock. Mas o funk é mais importante para a sociedade dos nossos tempos. O rock, por sua vez, já passou.

Claro que o rock fica, de uma forma ou de outra, mas nunca mais como a vertente musical de maior relevância. Hoje, ele é um ritmo restrito aos fãs.

Julie Bastet disse...

Bom, usando a linguagem mais formal ( que eu não sei usar muito bem)eu (que vai parecer que tenho mais propriedade para falar alguma coisa aqui, já que tenho 17 e num sei de nada T.T), como uma fã do Rock, ele é surpreendente e não posso afirmar nada. Mas essa mudança de comportamento da sociede sempre vai precisar da atitude que esse já estilo de vida trás. Ooooou seja, ele é necessário para "adolescentizinhos revoltadinhos" como eu para preencher essa pressão da idade. E para os já maduros e tals, vai ser só aquela nostalgia e certa tristeza, quem sabe, no corre do dia-a-dia ouvindo os clássicos que definitivamente não voltam mais. Mas é como tudo no mundo que faz a diferença, surge de alguma opressão, explode, faz o que é preciso, e agora é só a repetição. Nada se cria, nada se perde.. bla bla bla... Enfim, o rock não tem muito a ver com seguir a razão, ao menos pra mim. Nada impactante por agora, mas quem sabe esse calor seja para uma boa chuva! Sabe, talvez tenham bandas até melhores que as já consagradas e estejam "resistindo", tocando em alguma garagem por aí! E se estourar muito, passar repetitivamente na Mtv, é sinal que ficou ruim. Podem até ter certo sucesso, mas na selvageria dos dias atuais (aliás, de sempre, né? Mas deixa aí nos dias atuais u.u), os que realmente "prestam"... Ah! Podem ser bem inteligentes tbm aproveitando o sucesso para difundir sua revolta. Só não vão dar entrevista no programa do Jô. Uma vez meu professor disse que não tem como combater algo sem conhece-lo, ficando restrito. Acho que só falta isso pra alguma coisa aparecer aí; mais esperteza e querer mesmo balançar geral sem compromisso. Não faz sentido um músico, ou qualquer outra coisa, querer mudar algo, se ele restringir-se a passar uma mensagem pra quem já pensa como o mesmo. Só se for pra ficar aquela chama acessa *-* Isso é tãaao abrangente... Daqui a pouco tô falando na fome, destruição... Mas é isso man, o rock não morreu, tá que é uma daquelas coisas que só acontecem uma vez na vida, mas pra mim ele é um instrumente de reflexo e insatisfação. Enquanto houver revolta, isso estará vivo. Não quero ter 60 anos e seguir uma vida igual a de todo mundo e achar que vou contrubuir para "o belo quadro social" fazendo o que todo mundo faz. Por mais que seja difícil REMAR CONTRA A MARÉ... Mas é bom pro Jagger, que tá cantando com roupas de prostituda de bordel da Amazônia ( se bem que ele tá mais pra puta de cabaré, que é mais chique, hein -q), o clichê do clichê do rockstar... RS! Quem sabe uma 3° guerra mundial pro rock voltar a ter relevância.. Algo maior que isso só Jesus voltando -qqqq Ah! ( hmmmmmm acharam que iria acabar, né? é ainda tem maaaaaaais coisas omg! é que é tão bom achar um texto maravilhoso assim pra fazer a gente dar a opinião)Falando nisso, vai ser muito difícil alguma banda com tamanha atitude que chame a atenção até das pessoas que não curtam o som... O restart chamou, mas para um lado negativo, claro. Abrindo tantas discussões sobre a morte e vida do rock! Eu agradeço isso a eles... Talvez não teria me importado tanto já que estava presa na linha do tempo musical, se bem que as bandas foram tão boas que o que preciso(precisamos?) não é uma banda toda nova, impossíveeeeeeel! Mas uma banda que seja reconhecida por trazer tudo aquilo de volta. NOVAS PESSOAS fazendo o que já foi estabelecido, rock n' roll e pronto... Isso não depende só do talento, se for no momento em que as pessoas estajam frágeis e com a mente mais aberta, e o mais importante, com senso crítico, novamente surgirá a vontade de agir...

Henrique Rossi disse...

Obrigado pelo comentário caprichado, Julie.

Infelizmente não pude lê-lo porque estou indo no velório de uma grande amiga agora, que morreu vítima de um acidente de carro aos 22 anos de idade.

Prometo ler com calma depois. Abraço

Diego Socrates Dias Mousine disse...

Infelizmente, devo concordar com você, Henrique. Mas não com tanto afinco. Primeiramente o sucesso do Restart se dá justamente por imitar os grandes ícones do rock. Mas, se apoiando no que diz Julie, neles falta uma coisa que marcou todas as melhores bandas de rock de todos os tempos: ousadia. Depois, antigamente as pessoas eram mais comunistas, faziam e aconteciam falando da liberdade de expressão, do poder do jovem (coisa que não acontece atualmente)... hoje em dia se consome individualismo (cada um no seu computador, comentando suas dores para o mundo através de sites de relacionamento) e canta-se as próprias dores. Contudo, a massa midiática repassa aquilo que gera mercado. E isso que mata o rock aos poucos.
A juventude brasileira precisa de alugém que cante contra o governo, contra as "carnes podres" que são vendidas, e que temos que "comer, que engolir sem vomitar"... Porém, os vendedores dessas "carnes" (a mídia) não vão vender algo que agrida o seu próprio negócio. Certamente uma banda que canta contra o CAPITALISMO, não vai crescer.
Infelizmente o rock morreu junto com Raul Seixas. Precisamos de um novo revolucionário. Difícil é encontrá-lo.