Há pessoas de todos os tipos, felizmente. Há aquelas que urram de alegria ao verem brutamontes se arrebentando no UFC (o boxe dos nossos tempos). Há aquelas que, diante de tamanha demonstração de brutalidade, choram. Foi o que testemunhei ontem, durante o primeiro evento UFC realizado no Brasil; mais precisamente no Rio de Janeiro. Eu estava em uma festa de família (um chá-bar) quando o evento começou a ser transmitido pela RedeTV!; em pouco tempo a maioria dos homens presentes estava grudada na televisão, acompanhando entusiasmada a pancadaria. Eu, que sou fã de UFC desde que frequentei uma academia que retransmitia essas lutas ao vivo, era um deles. Mas as mulheres ainda estavam distraídas com os presentes que a noiva ia abrindo aos poucos. Assim, quando minha irmã mais nova chegou para ver do que se tratava, já estava no ar a revanche entre o brasileiro Shogun e o norte-americano Forrest Griffin (Shogun perdera o combate anterior entre eles). Para alegria dos marmanjos presentes no HSBC arena (e no chá-bar da minha prima), Shogun teve uma vitória acachapante logo no primeiro round, que terminou com uma violentíssima série de socos diretos no rosto do adversário caído. O juiz logo interrompeu a luta e declarou vitória por nocaute para o brasileiro. Todos se divertiram à beça, mas, em um canto, minha irmã chorava discretamente. Não procurei saber do que se tratava, talvez porque, por insensibilidade masculina, logo me pareceu que seria alguma frescura de mulher. Assim que minha outra irmã foi falar com a que chorava, dei o assunto por resolvido, principalmente porque a luta final da noite, outra revanche, esta envolvendo o grande campeão Anderson Silva (e colocando o seu título em disputa), já era a próxima.
De fato, parece contraditório que um pacifista com eu fique entusiasmado com o UFC; mas se devemos evitar a violência e a brutalidade, e se é supostamente impossível vivermos absolutamente livre delas, então o melhor a se fazer é tentar conviver com elas da maneira mais pacífica possível, disciplinando-as, inscrevendo-as nas práticas sociais; em suma, dando-lhes sentido. Assim, penso eu, deve ser encontrado um meio termo no qual possa ser atendida a demanda da maioria que gosta destes espetáculos de sangue, sem que o exercício da violência ameace a segurança de todos. Atribuir tal risco ao UFC seria um tremendo exagero, afinal, ele já está socialmente autorizado. De fato, talvez seja inútil tentar esquecer o selvagem que cada um de nós traz em si. E, como não é possível ignorá-lo, o melhor a fazer é discipliná-lo. Aí talvez possamos abordar a questão corretamente. Em se tratando destas paixões bestiais, Platão recomendava que não as procurássemos abolir completamente, pois correríamos o risco de nos paralisarmos, dirigindo toda a nossa energia para a contenção do irrefreável. Quase dois mil anos depois, Freud disse algo muito semelhante: se tentarmos conter o id (nossa força animal) pela repressão, podemos desenvolver terríveis neuroses, de modo que o mais sensato a se fazer é realizar uma negociação entre nossas diferentes faculdades mentais; o id (a mais ancestral), o ego (das emoções) e o superego (da inteligência e do raciocínio abstrato). Assim, o humano emerge pleno da confluência destas forças imperativas. Ao se bloquear uma delas, desaparece o humano. Apesar disso, ainda é bonito ver mocinhas sensíveis horrorizadas pela brutalidade. Afinal, elas lembram aos brutamontes que o humano não se limita à violência gratuita de um orangotango, mas se faz também pela sofisticação do pensamento e das emoções.

5 comentários:
Amigo, quanto tempo não nos falamos, espero que esteja tudo bem.
Neste Artigo gostaria de fazer um comentário que faz parte de minha luta, por isso vejo esta partilha ser necessária.
A questão que quero dizer é sobre a ira. São Francisco Sales dizia em seu livro Filotéia (Introdução a Vida Devota) que a ira não deve ser encarada como algo que temos de negociar (ou disciplinar) para ordená-la e dizia também que a repressão da ira não deve ser desesperada ou irada, mas doce, suave e com muita paciência. Isto me chocou muito, pois tinha estudado a questão e sabia que existia a Ira boa, como por exemplo esta força interior contra o pecado, os vícios e a injustiça.
Porém este Conselho prático de São Francisco de Sales é determinante pois quanto mais queremos reprimir a ira com a mesma maneira que ela age de modo desordenado, mais a ira vai crescendo em nós se transformando algo que de bom passa a ser uma desordem total.
Lutei Muay-Thai por 5 anos aproximadamente fui kruang marrom, e a luta pode ser encarada como pura bestialidade e em alguns casos o é mesmo principalmente nestes torneios em que se tem apenas o dinheiro e o orgulho como objetivo principal e a estratégia e a luta como secundário.
Grande Rafael.. Vejamos se irei menos a Taubaté nos próximos meses, hehe.. Seu comentário é muito bom. Aprofunda a questão de um modo que não cabia no texto (senão ele ficaria muito alongado). De modo muito simplificado, limitei-me a louvar o desconforto da minha irmã pelos brutamontes se estourando, hehehe. Mas seria próprio de qualquer estudo mais aprofundado questionar se é correto negociar-se com esses instintos animalescos. Parece-me que, por caminhos tortuosos, quaisquer pessoas bem-intencionadas que se dedicarem a esta questão chegarão ao comentário de São Francisco de Salles, conforme você o enunciou com suas palavras: "a repressão da ira não deve ser desesperada ou irada, mas doce, suave e com muita paciência." Muito bem colocado.
Acho o judô uma luta muito mais interessante e muito mais técnica! É até linda, e muito menos violenta. A outra me fez chorar, e muito! =[[[
As vezes peco por ser um cara radical demais, mas, sinceramente, abomino este esporte...
Sem problema Fenavo.. :) O UFC é toscão mesmo hehe
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