quarta-feira, 17 de agosto de 2011

Enlutado e malhando

Úrsula Ximenes era uma pessoa que, enquanto esteve neste mundo, sempre desejou o melhor para todos, especialmente para seus amigos, categoria afortunada em que eu me incluía. Mas ela partiu, e deixou um vazio enorme em nossos corações. As duras circunstâncias em que Deus nos levou esse anjo exigiram de muitos uma maturidade e uma fé que a maioria certamente não possuía. Aos 21 anos de idade, Úrsula feriu-se gravemente em um acidente de carro no qual seu pai morreu na hora. A seguir, esteve em coma por três longas semanas, durante as quais não sabíamos exatamente o que pensar, porque os relatos que chegavam até nós eram muito variados. De fato, essas três semanas foram piores que a mais radical das montanhas-russas; alternaram momentos de sufoco com outros de alívio. Certas horas parecia que ela se recuperaria, outras vezes nos davam relatos nada otimistas. Maior ainda foi a angústia daqueles que tinham ouvido os terríveis prognósticos médicos da Úrsula, como eu, pois não parecia propício contá-los aos outros colegas, que expressavam continuamente o desejo de que ela se recuperasse logo e plenamente. Então, durante essas três semanas, vivemos eu e alguns outros amigos a situação extremamente insólita de saber o que a medicina tinha para dizer sobre a Úrsula e, ao mesmo tempo, conviver com colegas muito iludidos sobre o estado dela. Quinta-feira passada, dois dias antes do falecimento da nossa amiga, reverteu-se esse quadro.

Duas amigas nossas foram vistas saindo da coordenação da medicina aos prantos. Todos logo quiseram saber o que acontecera. Muitos temeram pelo pior. Mas a Úrsula não tinha falecido, ainda. Elas estavam emocionadas porque um professor nosso, que vira as ressonâncias do cérebro da nossa amiga, disse-lhes que a probabilidade maior era que ela ficasse em coma para sempre. À medida que a notícia se espalhava (estávamos aguardando o início de uma aula), as pessoas iludidas pelos próprios bons sentimentos eram cruelmente chamadas à realidade. Como representante da minha turma, solicitei ao professor que não continuasse a aula há pouco iniciada, pois todos não estavam mais em condições de prosseguir. Ali começou o nosso luto, dois dias antes da Úrsula partir. Mesmo eu, que sabia o estado real dela, senti-me muito abalado; que dirá aqueles que esperavam que, em duas semanas, ela estivesse de volta. Se ao menos quisessem saber logo o que a medicina tinha a dizer sobre o caso, o seu choque seria menos extremo, mas preferiram uma vã esperança humana, que logo se desfez brutalmente. Desde esse dia não consegui mais fazer minha corrida diária. Também não consegui mais lavar louça alguma. E comecei a comer muito mais que o necessário. Passou-se outro dia (sexta-feira). Acordei na manhã de sábado com um telefonema de um amigo informando o falecimento da Úrsula. Faltou-me o chão e, ainda hoje, faltam-me as palavras.

Faltaram também quaisquer regras. Sábado e domingo foram dias de cabeça muito bagunçada, nos quais limitei-me a homenagear minha amiga nas cerimônias previstas. Escrevi que a Úrsula não nos queria paralisados, mas era como eu me sentia. Parecia que meu estômago ia explodir a cada refeição que eu terminava, de tanta comida eu ingeria. O estresse emocional causou-me aftas em toda a boca. Colocar o tênis de corrida e sair por aí como costumo fazer parecia a mais insólita e dura das tarefas, tanto que continuei sem malhar. Chegou então a segunda-feira e o retorno das aulas. A primeira delas transcorreu bem. Antes da próxima aula, porém, uma colega que dormira muito pouco apresentou um vídeo feito por ela com fotos da Úrsula. O vídeo estava extremamente bem-feito. À medida que avançava, mais e mais pessoas soluçavam de chorar. Eu fui me contendo, certo de que precisava de fortaleza. Mas a amiga que fez o vídeo concluiu-o com as palavras finais do texto que eu lera no culto de despedida para a Úrsula. Para cada frase, uma fotografia. Desabei, porque bem sei o que pretendia dizer com cada uma delas. Iniciou-se um estado de total comoção entre meus colegas. Chegou uma professora meio durona que, após breves palavras, iniciou sua aula. Certo de que os alunos não aprenderiam nada, tentei explicar que era melhor que não houvesse aquela aula, mas ela se desculpou dizendo que precisava cumprir aquela obrigação (no que estava certa) e continuou.

A maioria dos meus colegas esforçou-se por assistir a aula toda, mas vários não se contiveram e saíram. Quando a aula acabou, fomos conversar com nossa coordenadora, para que nos liberasse das aulas àquele dia. Ela não pôde fazê-lo porque nenhuma pessoa capaz dessa decisão estava presente na instituição naquele momento. Decidimos ir embora. Fizemos todos uma oração de mãos dadas ali por perto e houvemos por bem almoçarmos juntos; para isso, fomos à casa de uma amiga. Comi um pouco menos do que nos dias anteriores, mas, mesmo assim, alguns se surpreenderam. Fizeram até piada. E ficamos ali conversando, combinando um culto em memória à Úrsula na faculdade, acertando detalhes de uma camiseta em sua homenagem e fazendo companhia uns aos outros na tribulação. Enfim, empanturrado de estrogonofe (e muito cansado por várias noites mal dormidas), fui para casa dormir um pouco. Quando acordei, senti-me bastante renovado. Toda aquela paralisia parecia ter ido embora. Pus logo o tênis e fui encontrar-me com minha amiga de todos os dias: a rua. Pensava na Úrsula a cada passada, sem exagero. Estava profundamente enlutado, mas não mais dominado pela tristeza, como certamente seria a vontade dela. Cheguei em casa e lavei a louça de quatro dias, sentindo-me muito aliviado por fazê-lo. Sabia que chegara a hora de fazer pelo menos o mínimo, para, com fé, chegar ao possível e, depois, ao ideal. Façamos isso todos nós, seus amigos; é a vontade da Úrsula para todos que a amavam!

16 comentários:

Dalson disse...

lindo texto, você como eu e muitos amava demais a úrsula. Pude ver nas sinceridade das palavras, tenho certeza que houve festa no céu quando ela chegou lá e fico aliviado por saber que ela esta bem!Como você disse, ela não gostaria de nos ver triste... então sigo em frente sempre com o sorriso e a espontaniedade de nossa amiga em minha mente e com ela em meu coração.

Dalson disse...

você como eu e muitos, amava demais a Úrsula. Pude ver na sinseridade de suas palavras... Tenho certeza que houve festa no céu quando ela chegou lá e fico feliz de saber que esta bem. sigo em frente com o sorriso e a espontaniedade de nossa amiga na memória ( quem a conheceu sabe bem como ela era ) e com ela em meu coração.

Henrique Rossi disse...

Obrigado, Dalson. Agora é seguir em frente. Mas nunca esqueceremos nossa amiga..

Anônimo disse...

Não conheci a Ursula, mas pelo carinho dos colegas da faculdade,percebo que era uma criatura abençoada.
Sei o que é dar adeus a amigos entendo a sua dor, que voce descreve de forma comovida.
Mas os mistérios de Deus nos abala todos os dias e so entenderemos um dia se tivermos bagagem para encontra-Lo frente a frente.
Tenho toda confiança de que ela está bem, considero o carinho que conquistamos como uma pena que irão formar asas mais ou menos leves que nos levam ao alto dos céus. Percebi que a Ursula tinha uma asa muito leve, tantos eram os seus queridos.
Um abraço, força sempre!
Angela

Henrique Rossi disse...

Oi Angela. Obrigado pelas belas palavras.

João Marcos disse...

Olá Henrique, mais um belo texto...
Esse video feito por uma amiga de vocês, está no youtube? Mande-nos o link, por favor.
Abraços!

Henrique Rossi disse...

Oi João. Quem fez o vídeo foi a Thaísa, e ficou realmente muito bom. Mas ela ainda não o postou no youtube porque deseja exibi-lo em primeira mão no culto semana que vem. Não sei se você está sabendo, mas já encomendamos também camisetas para todas as pessoas da turma em homenagem à Úrsula. Porém, tenho certeza que para você ela faz a exceção de exibir o vídeo antes. Acho que o meio mais fácil de contactá-la para o envio do vídeo seria o facebook. O nome completo dela é Thaísa Dantas e a Úrsula está com ela em sua foto de perfil. Forte abraço!

Thay disse...

Lindo texto

Débora disse...

Sem palavras aqui... Deus continue te abençoando!! Henrique eu gostaria de saber sobre este culto... se possível claro! obrigada!

Lívia Reis disse...

Oi Henrique, conversei com você hoje saindo da FOA, depois de me apresentar como a amiga da Úrsula, do Direito. Parabéns pelo texto, mais uma vez reflete bem o que sentimos... Depois de 3 noites sem dormir, esta eu finalmente descansei melhor... Com a correria de todos os dias, a hora de descansar é quando todos os pensamentos (bons e ruins), vêm a tona, e aí acontece o que você deve saber bem.. vira pra um lado, vira pro outro, reza, chora, reza mais, e finalmente quando o cansaço fica insuportável, adormece.
Tenho certeza que com o tempo e na medida que nos aproximarmos cada vez mais de Deus, confiando no seu propósito e que tudo isso tenha sido sua vontade, nossos corações vão ficar mais confortáveis.
Espero pelo culto! Sejamos fortes e insistentes, assim como a Ursinha era! E não deixe de correr mesmo, acho que poucas coisas ajudam tanto a esquecer dos problemas! Abraço!

Marina disse...

Como sempre chorei, ao lembrar da doce menina,

Henrique Rossi disse...

Obrigado meninas pelos belos comentários.

Débora, o culto será no campus da FOA em três poços, provavelmente na próxima quinta-feira. Peço que você me contacte novamente semana que vem para que eu possa te informar corretamente, ok? Abraço

Fernanda disse...

Belo texto Henrique. Vc conseguiu colocar em palavras o que todos nós sentimos durante esses longos dias.

Green Eyes disse...

Henrique, é muito comovente essa situação, acho que se estivesse no seu lugar nao teria forças pra fazer nada ou tomar qualquer tipo de decisão.

Henrique Rossi disse...

Estou malhando, lavando a louça, indo às aulas, mas está sendo bem difícil..

Elenice disse...

Penso que cada um de nós vive as mesmas sensações que você, Henrique.
O sentimento de todos é esse, o de que é preciso continuar apesar de, e principalmente pelo exemplo que a Úrsula nos deixou. Essa menina linda e batalhadora não vai ser esquecida por nenhum de nós.
E sigamos malhando e lavando louça...