A favela é uma indignidade. Surge quando humanos são tratados (e se tratam) como gado. Ela é um lugar físico, o local onde moram as pessoas mais desamparadas economicamente, mas é também uma ocorrência moral, o espaço ideológico de todos aqueles que não se preocupam em saber o que é certo ou errado, e vivem conforme as próprias conveniências, conforme as necessidades diárias imediatas, como animais errantes, ignorantes de si e do futuro. Nestes dois tipos de favela está descaracterizado o ser humano, que, vocacionado à luz, em ambas entreva-se na ignorância. Na primeira, desprovido da formação educacional adequada, desconhece completamente suas responsabilidades sociais: porque não sabe conviver com o meio ambiente em harmonia, polui e degrada quaisquer recursos naturais; mal informado sobre bons hábitos sanitários, desenvolve as piores doenças, várias delas incapacitantes; desprovido de saudáveis perspectivas quanto ao futuro, entrega-se frequentemente a uma vida dominada pelo álcool, pela cachaça e pela violência pública e doméstica. No fundo, sofre as consequências de que mal sabe assinar o próprio nome, uma vergonha inominável, dado que, apesar dos serviços educacionais insuficientes, o Estado brasileiro disponibiliza educação universal. O favelado que mora em um barraco é também, de certa forma, um favelado no espírito; um ser humano esmagado pelo peso de uma vida cercada de indignidade.
De fato, mais que um lugar, a favela é um estado de espírito, pois também o favelado moral (a pessoa que, aleijada de valores fundamentais, habita um barraco ideológico) vive em situação de grave indignidade. Apesar de não lhe faltar meios com que viver, vive como se não tivesse meio algum. Afinal, não sabe o que fazer, não sabe discernir e (o que é mais estranho) é ativo neste processo, porque participa conscientemente de um sombrio jogo intelectual onde vence o concorrente que se apresenta como um completo ignorante do modo mais sofisticado, assumindo, assim, aquela absurda proposição moderna de que é impossível discernir com exatidão os valores de qualquer objeto. É assim quem abraça as filosofias marxista, nietzschiana e freudiana, deixando-se guiar pelas mentes sinistras que as originaram. Apadrinhada por uma ideologia macabra, destruidora da personalidade humana, a pessoa amesquinha-se no niilismo correspondente ao sistema de sua escolha. Mora em um barraco quando, na condição de pessoa estudada, poderia morar em um palácio, como se o conhecimento e o saber só fossem capazes de criar somente casebres de papelão, como se o erudito não pudesse lançar nenhum juízo verdadeiro ou correto sobre a realidade que o circunda. Assim, estas filosofias da modernidade são a favela dos intelectuais. Difere da primeira apenas porque é buscada conscientemente, mas iguala-se a ela na miséria.
A existência dessas favelas, tanto a material quanto a intelectual, por sustentarem situações de graves desvios da reta conduta humana, ofende continuamente a sociedade onde elas se instalam. É preciso restaurar a dignidade destruindo as duas; fazer o humano aparecer - não o produto débil de ideologias ultrapassadas e totalitárias, mas o humano real, que não é construção de nenhum intelectual; este que simplesmente acontece diariamente. No fundo, destruir as favelas materiais e imateriais resume-se a fazer prevalecer a normalidade da maioria silenciosa, na qual todos deveriam estar incluídos em nome da saúde particular de cada um e da saúde de todos. Afinal, se o humano é um produto da natureza, ele há de ser natural em algum aspecto (ainda que capaz de abstrair-se indefinidamente, porque pode pensar). Mas essa capacidade de auto-construção que só os humanos têm não pode nunca ser invocada como argumento para a negação da nossa natureza primária, que nos constitui e nos define. Esta natureza humana precisa ser defendida a qualquer custo. Já os aspectos transitórios e indefinidos (como várias ocorrências sociais) precisam ser continuamente aprimoradas pela inteligência coletiva. Assim não haverá pobres em barracos miseráveis e, se formos suficientemente justos e corajosos, também não haverá mais a institucionalização de ideologias totalitárias, pelas quais os profetas do niilismo favelizam o saber.

4 comentários:
Estupendo texto. Admiro sua qualidade de dizer boas verdades com clareza (embora algumas vezes me desgostem, como é o caso da sua opinião sobre o rock - o qual adoro - tenho de reconhecer que é verdade, rsrsrsrsrs.
Aliás, seu texto lembrou-de do conceito de saúde, segundo a OMS (e que você deve conhecer também), que considera a saúde não só do ponto de vista de ausência de doença, mas uma situação de completo bem-estar físico, social e mental. E isso, nem o favelado "físico" nem o intelectual têm, infelizmente.....
Muito obrigado Régis..
Volta e meia lembro-me sim do conceito de saúde da OMS em meus textos. De fato, para que ela ocorra plenamente, necessita-se atender uma ampla série de demandas, como o acesso à informação, lazer, cultura, não se limitando ao tratamento frio e distante com um médico tecnicista ao ponto de ser um simples burocrata. Como você bem colocou, a saúde se estende ao bem-estar físico, social e mental..
Muito bom o texto. Conciso e verdadeiro. Mas você é até compassivo com esses favelados. Eu sou bem mais ríspido!
Pobres favelados... Considero os favelados intelectuais ainda mais pobres que os favelados materiais...
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