Semana passada foi o vira-lata enterrado vivo. Salvo a tempo, o bichinho foi apelidado de Titã e, felizmente, recupera-se bem apesar de ter estado entre a vida e a morte. Agora é o yorkshire de uma enfermeira, espancado até a morte pela dona, segundo informado pelo delegado que investiga o caso. À primeira ocasião, discuti o que poderia ser pior do que enterrar um cachorro vivo. Afinal, segundo especulei, "a brutalidade humana parece não ter limites". Conclui que o aborto é muito pior que enterrar um cachorro vivo. Claro, pois uma violência contra um semelhante é naturalmente mais grave; uma agressão contra a própria espécie. Deste modo, será ainda mais grave o aborto, pois se dirige não apenas a um semelhante, mas à própria carne.
Porém, não se trata de condenar grosseiramente a mulher que intenciona abortar, ou que já abortou. É evidente que, na maioria dos casos (ao menos assim me parece), a mulher que deseja abortar vive um conflito emocional terrível. Não nego que uma gravidez indesejada possa ser um imenso transtorno para uma mulher de precárias condições materiais ou, principalmente, emocionais. É evidente que, se alguém nestas situações for obrigada a criar seu filho indesejado, é grande a chance de surgir uma pessoa muito infeliz e doente, pois se sabe que a rejeição materna é um dos principais fatores de risco para as mais graves psicopatologias. Assim, a humanização da reprodução humana não pode pressupor que uma mulher seja obrigada a criar seu filho indesejado.
Então, se por um lado abortar é um ato muito pior que espancar um yorkshire à morte, e por outro uma mulher não deve ser obrigada a criar um filho pelo qual sente repulsa, qual poderia ser a solução mais humana? Felizmente, não precisamos olhar longe. A solução é colocar a criança para a adoção, que resolve ainda o problema dos casais inférteis. A adoção só apresenta um problema: não dá para a mulher esconder sua condição; só isso. Ela teria de aguentar exibir-se grávida diante dos outros para depois doar o seu filho a alguém que o deseje. Na maioria dos casos, imagino que seria uma situação humilhante; não nego que haveria um sacrifício. Mas sacrifício muito pior seria matar um inocente, alguém sem responsabilidade alguma pelos atos de sua mãe.
Ora, se o pior transtorno que a adoção pode causar é a exposição da mulher que não quer seu filho ao comentário alheio, só podemos concluir que, ainda que uma gravidez seja verdadeiramente indesejada, o principal motivo que leva uma mulher a abortar uma criança que pode ser adotada por uma casal sem filhos é o orgulho; é porque ela não quer ser vítima da maledicência alheia. Deste modo, percebe-se uma inversão de valores muito grave na cabeça de uma mulher que deseja abortar; ela coloca a sua honra acima da vida de seu próprio filho, cometendo, assim, desonra muito maior. A sociedade brasileira faz muito bem em repudiar semelhante absurdo, bem como os recentes casos de maus tratos de animais. Desumano seria se calar diante de tais brutalidades.
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