Certas histórias são naturalmente engraçadas. Outras não têm graça nenhuma. A história de hoje é engraçada, mas não deveria ser. De volta a Taubaté, minha cidade natal, para as férias do meu curso de medicina, eu havia tomado o dia para organizar meu quarto e comprar umas coisas no centro; nada demais. Precisava parar próximo a uma loja de eletrônicos para comprar um adaptador wireless, mas o centro de Taubaté está cada vez mais apertado; suas vagas de rua estão praticamente todas demarcadas em um destes planos de tarifação, a fim de gerar mais receita para a prefeitura. Queria ir a uma loja especificamente, cujos preços pareceram bem em conta pelo telefone. Assim que a localizei, fiquei atento às vagas de rua fora da zona de tarifação. Não havia nenhuma delas próxima à loja. Eis que viro à direita em uma rua e encontro uma vaga razoavelmente grande, onde meu pobre Palio 2002 caberia com facilidade. Passei um pouco a vaga, engatei a marcha fé e comecei a fazer a baliza. Até ali, tudo certo.
Subitamente, começo a ouvir uma voz enlouquecida pela fresta do vidro: "Aqui não! Aqui não! Você não vai parar seu carro na frente da minha casa!" Parei com a ré, olhei para o lado e vi uma senhora à frente de um pequeno portão, a única abertura em uma grande parede branca. Meu primeiro instinto foi o de tentar falar com ela, mas não houve meios: "Retire agora o seu carro da minha vaga. Aqui você não vai estacionar. Saia imediatamente." Diante de tamanho espetáculo de insanidade, não pude evitar certa ironia. Apesar de louca, aquela senhora não era burra; ela percebeu o meu olhar, mas foi logo concluindo absurdos: "Pare de me ameaçar. Saia agora!" E, sacando uma vassoura, fez que seria capaz de sair para cima de mim. Ri discretamente, fechei o vidro e continuei buscando uma vaga. Virei a próxima à direita e felizmente achei uma vaga. Mal sai do carro, perguntei-me como o agente de saúde local fora indiferente a grave situação de saúde mental daquela senhora.
Nós, os brasileiros, além de votarmos mal, também desconhecemos nossos direitos. É prerrogativa do SUS que um agente de saúde passe pelo menos uma vez por mês em todos os domicílios do país e se informe sobre a saúde de seus moradores. Para uma estratégia mais econômica, costumam-se ignorar os locais mais ricos, onde geralmente há acesso a planos de saúde, mas não era este o caso da moradia daquela senhora. Talvez o posto do Programa de Saúde da Família responsável por aquela área desconheça a situação dela, não sei. De fato, ela parece morar na única casa mais simples de uma vizinhança de classe média. Ora, ainda que não sejam necessárias visitas constantes a casas ricas, os agentes do programa devem conhecer minimamente os habitantes de sua região de atendimento. Por ignorarem a região onde pretendi estacionar meu carro, ficou de fora uma senhora em necessidade urgente de atendimento em saúde mental. Quanto sofrimento não seria evitado se ela recebesse o auxílio médico necessário!

4 comentários:
Meu caríssimo Henrique.
Fique tranquilo. Essa foi somente a primeira de algumas semanas que você ficará desfrutando de suas férias em Taubaté. Aguarde!
No redivivo do slogan da cidade:
"Isso é Taubaté"
Os "malucos" do centro de Taubaté são mesmo comédia, mas dá pena por saber que sofrem à toa..
Se a mesma vassoura pudesse expulsar o conluio político dessa cidade, ah... aí sim seria tudo diferente.
rs.. coincidência, não?
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