quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

Contra a esquerda, em favor dos funkeiros

Poucos gêneros musicais são tão execrados publicamente quanto o funk carioca. Se no Rio de Janeiro, que lhe viu nascer, ele é criticado duramente por pessoas de todas as classes sociais, que dirá no resto deste imenso Brasil que, cada vez mais, vê-se tomado por um estilo musical tão irritante, de versos tão estúpidos e pobres, facilmente encontrável em qualquer esquina onde haja mais um infeliz com um carro antigo cujo porta-malas foi transformado em balada ambulante. De fato, o funk é filho da pobreza, como o samba, que nasceu cem anos antes. Tanto um como o outro são idolatrados por intelectuais esquerdistas, tão afeitos a todas as manifestações culturais nascidas das favelas. Nenhum setor social parece tão interessado na aceitação social destes estilos quanto a esquerda; mesmo os artistas não estão lá tão preocupados em serem aceitos como propõem (ou exigem) os esquerdistas. Parece um plano lindo; a aceitação de todos os estilos musicais como demonstração de uma sociedade plural, rica e diversificada. Neste contexto, os esquerdistas sempre fazem parecer que apenas burgueses de mentalidade obtusa e atrasada rejeitariam a cultura da favela. Pra começar, é uma mentira porque mesmo na favela o funk não é unanimidade. Mas o problema do raciocínio deles é pior, pois faz parecer que apenas esquerdistas estariam interessados em defender os interesses dos favelados, como se o resto da sociedade estivesse indiferente à sorte ou à pobreza deles.

Ora, é uma tremenda hipocrisia fazer-se porta-voz da cultura da favela e, ao mesmo tempo, defender a legalização do aborto, como agem os esquerdistas. Senão, respondam-me, o que é mais importante: defender um gênero musical criado por pessoas desfavorecidas, ou defender que estas mesmas pessoas tenham direito irrestrito à vida? A implantação do aborto causará um verdadeiro genocídio entre os favelados; pessoas de classe social mais elevada, além de terem meios para criar uma criança, dispõem de maior acesso à informação, o que ajuda a evitar imprevistos. A legalização do aborto seria um dos mais duros golpes que o funk poderia levar, afinal, quanto menos pobres houver, menos criadores e consumidores para este estilo, essencialmente jovem. Na verdade, não é necessário considerar o funk um gênero musical aceitável para ser amigo dos favelados. De fato, as pessoas não precisam concordar em tudo para serem amigas. Mas é necessário que haja ao menos respeito pelo outro; em outras palavras, a aceitação integral de sua pessoa, de seus direitos e de seus deveres. Deste modo, não é amigo quem passa a mão na cabeça de alguém publicamente e, nos bastidores, arma estratégias para matar essa pessoa. Ao contrário dos esquerdistas, queremos muitos funkeiros no mundo, apesar do barulho que causam. Odiamos o gênero musical dessa gente, mas não queremos que sejam brutalmente assassinados sob quaisquer justificativas.

sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

Quem é pior que a maníaca do yorkshire?

Semana passada foi o vira-lata enterrado vivo. Salvo a tempo, o bichinho foi apelidado de Titã e, felizmente, recupera-se bem apesar de ter estado entre a vida e a morte. Agora é o yorkshire de uma enfermeira, espancado até a morte pela dona, segundo informado pelo delegado que investiga o caso. À primeira ocasião, discuti o que poderia ser pior do que enterrar um cachorro vivo. Afinal, segundo especulei, "a brutalidade humana parece não ter limites". Conclui que o aborto é muito pior que enterrar um cachorro vivo. Claro, pois uma violência contra um semelhante é naturalmente mais grave; uma agressão contra a própria espécie. Deste modo, será ainda mais grave o aborto, pois se dirige não apenas a um semelhante, mas à própria carne.

Porém, não se trata de condenar grosseiramente a mulher que intenciona abortar, ou que já abortou. É evidente que, na maioria dos casos (ao menos assim me parece), a mulher que deseja abortar vive um conflito emocional terrível. Não nego que uma gravidez indesejada possa ser um imenso transtorno para uma mulher de precárias condições materiais ou, principalmente, emocionais. É evidente que, se alguém nestas situações for obrigada a criar seu filho indesejado, é grande a chance de surgir uma pessoa muito infeliz e doente, pois se sabe que a rejeição materna é um dos principais fatores de risco para as mais graves psicopatologias. Assim, a humanização da reprodução humana não pode pressupor que uma mulher seja obrigada a criar seu filho indesejado.

Então, se por um lado abortar é um ato muito pior que espancar um yorkshire à morte, e por outro uma mulher não deve ser obrigada a criar um filho pelo qual sente repulsa, qual poderia ser a solução mais humana? Felizmente, não precisamos olhar longe. A solução é colocar a criança para a adoção, que resolve ainda o problema dos casais inférteis. A adoção só apresenta um problema: não dá para a mulher esconder sua condição; só isso. Ela teria de aguentar exibir-se grávida diante dos outros para depois doar o seu filho a alguém que o deseje. Na maioria dos casos, imagino que seria uma situação humilhante; não nego que haveria um sacrifício. Mas sacrifício muito pior seria matar um inocente, alguém sem responsabilidade alguma pelos atos de sua mãe.

Ora, se o pior transtorno que a adoção pode causar é a exposição da mulher que não quer seu filho ao comentário alheio, só podemos concluir que, ainda que uma gravidez seja verdadeiramente indesejada, o principal motivo que leva uma mulher a abortar uma criança que pode ser adotada por uma casal sem filhos é o orgulho; é porque ela não quer ser vítima da maledicência alheia. Deste modo, percebe-se uma inversão de valores muito grave na cabeça de uma mulher que deseja abortar; ela coloca a sua honra acima da vida de seu próprio filho, cometendo, assim, desonra muito maior. A sociedade brasileira faz muito bem em repudiar semelhante absurdo, bem como os recentes casos de maus tratos de animais. Desumano seria se calar diante de tais brutalidades.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

A partícula de Deus e a neurose de muitos ateus

Interessante ler as notícias sobre a partícula de Deus, o bóson de Higgs. Aos que não sabem, os cientistas esperam demonstrá-la materialmente, através de experimentos físicos realizados no super acelerador de partículas do Cern, na fronteira franco-suíça. Até o presente momento, o bóson de Higgs existe apenas em teoria, como parte de um intrincado quebra-cabeça que explica a natureza de um dos mais básicos fenômenos físicos: a massa. Não por acaso, o físico autor da teoria que prevê a existência da partícula de Deus chama-se Peter Higgs. As notícias dos últimos dias informam que os cientistas estão cada vez mais próximos da demonstração material efetiva do bóson de Higgs, que, se não for encontrado, exigirá uma reviravolta na teoria das partículas. A julgar pelo campo dos comentários das notícias a respeito, todos estão felizes pela proximidade da descoberta do partícula de Deus, menos os ateus.

Talvez se sintam um pouco indignados por este apelido que o próprio Higgs deu à sua descoberta, não sei. Curiosamente, ao invés de comentarem as notícias, os ateus preferem falar de religião; sempre daquela maneira tão peculiar e carinhosa própria de quem tem muito amor no coração. Ora, é no mínimo estranho que fiquem resmungando contra as religiões em notícias científicas. É inevitável perceber mais uma vez que eles fazem da religião o centro de suas vidas; acusam as pessoas de fé a empurrar-lhes continuamente uma crença que eles não desejam (o que, em muitos casos, é verdade), porém, ao invés de esquecerem os inconvenientes e seguirem suas vidas, ficam neuroticamente reclamando de toda vez que alguém mencionou, na presença deles, a própria crença religiosa, como se isso fosse um crime irreparável, ou ainda uma manifestação de preconceito contra eles; um exagero evidente e absurdo.

Ainda está faltando uma justificativa razoável para o estardalhaço que muitos ateus têm feito ultimamente; tanto que mesmo os meios de comunicação mais liberais não têm mais achado motivos para qualquer reportagem sobre Richard Dawkins, o líder do movimento neo-ateu, que esteve em evidência até pouco tempo atrás. Então, a estes ateus fanáticos restam somente os recantos sombrios da internet, onde se verifica como é triste a existência deles, pois se permitem pautar continuamente pelo assunto que mais detestam, mesmo quando não é ocasião de debatê-lo. Ora, qualquer pessoa normal se afasta daquilo que não gosta. Já um seguidor de Dawkins, que acha necessário combater as religiões de todos os modos e em todos os momentos, vê-se na obrigação moral de passar a vida discutindo um assunto que não gosta com pessoas que lhe são desagradáveis. Pode haver existência mais patética?

sábado, 10 de dezembro de 2011

O que pode ser pior que enterrar um cachorro vivo?

A brutalidade humana parece não ter limites. Seria ingênuo pressupor que nossa violência intrínseca não pode se tornar cada vez pior. Pelo menos é assim que concluo ao saber da história terrível de um cãozinho de quatro meses que ficou aproximadamente 12 horas enterrado vivo, mas que foi resgatado a tempo de ser salvo. Alguém da vizinhança do agressor denunciou o caso à Associação Mão Amiga, cujo vice-presidente foi averiguar a situação. O dono do animal afirmou que ele havia fugido. Mas o protetor dos animais voltou no dia seguinte e, ao reparar uma porção de terra remexida, conseguiu desenterrar o cachorro com as próprias mãos. Desde então, Titã, como foi apelidado o filhote, tem recebido contínuas manchetes na imprensa. Aparentemente, sua situação tem melhorado, apesar dele estar com uma grave infeção de pele e ter perdido uma das vistas. A gente então se pergunta: como pode alguém fazer isso?

Inocente quem não souber responder. Ora, o agressor é provavelmente um psicopata, ou talvez apresente outras graves enfermidades mentais e psicológicas. Além disso, sua situação de vida deve ser de uma tal forma desestruturada que enterrar um cachorro vivo talvez nem seja o pior que ele já fez. É duro reconhecer, mas talvez ele nem seja verdadeiramente responsável por este ato cruel; se um psiquiatra o descrever como mentalmente incapaz, nenhum juiz o condenaria à reclusão entre presos comuns, como se fosse um criminoso qualquer. No máximo, ele seria condenado à uma reclusão compulsória em instituição psiquiátrica, o que, se formos sinceros, não seria injusto. Porém, se alguém de tamanha crueldade provavelmente não receberia uma dura condenação pela Justiça, quem haveria de merecer pena pior? Em outras palavras, o que pode ser pior que enterrar um cachorro vivo?

Bem, enterrar uma pessoa viva é certamente pior, mesmo que se acredite que cães e homens tenham a mesma dignidade, afinal, uma pessoa realizar tamanha crueldade a um semelhante é mais grave do que em relação a outra espécie. E, se enterrar vivo alguém da mesma espécie é pior que enterrar um animal de outra espécie, percebe-se que o grau de parentesco maior torna ainda mais repulsiva a crueldade. Deste modo, muito pior que enterrar um cachorro vivo ou enterrar uma pessoa desconhecida viva é jogar a própria filha da janela para livrar a cara da esposa. Bem pior, não é verdade? Mas pode ser ainda pior, é claro. Lembrem-se que a brutalidade humana parece não ter limites. Uma mãe querer matar o próprio filho, por exemplo, apenas porque a gravidez veio em má hora, é ainda mais grave. O ser humano é incapaz de uma brutalidade maior; mesmo enterrar centenas de cães vivos seria inequivocamente menos grave.

O que nos faz pensar no grau de distorção moral e ética de certos setores da sociedade. Se matar o próprio filho é muito mais grave que enterrar um cachorro vivo, por que está havendo grande revolta pela situação do cãozinho e uma sórdida e monstruosa indiferença às crianças assassinadas pelas próprias mães continuamente? Ora, trata-se, no mínimo, de um sintoma revelador de uma brutal desumanização dos valores, pois o aborto causa cada vez menos repulsa porque se valoriza cada vez mais o dinheiro; afinal, permite-se que uma moça mate o seu filho para que sua situação financeira não sofra uma reviravolta do dia para a noite. Ou seja, a vida humana vale cada vez menos diante das conveniências financeiras. Portanto, não é de estranhar que, em um mundo cada vez mais brutal, os bons sentimentos humanos sejam cada vez mais dirigidos aos animais e cada vez menos às pessoas.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Uma história (nada) engraçada

Certas histórias são naturalmente engraçadas. Outras não têm graça nenhuma. A história de hoje é engraçada, mas não deveria ser. De volta a Taubaté, minha cidade natal, para as férias do meu curso de medicina, eu havia tomado o dia para organizar meu quarto e comprar umas coisas no centro; nada demais. Precisava parar próximo a uma loja de eletrônicos para comprar um adaptador wireless, mas o centro de Taubaté está cada vez mais apertado; suas vagas de rua estão praticamente todas demarcadas em um destes planos de tarifação, a fim de gerar mais receita para a prefeitura. Queria ir a uma loja especificamente, cujos preços pareceram bem em conta pelo telefone. Assim que a localizei, fiquei atento às vagas de rua fora da zona de tarifação. Não havia nenhuma delas próxima à loja. Eis que viro à direita em uma rua e encontro uma vaga razoavelmente grande, onde meu pobre Palio 2002 caberia com facilidade. Passei um pouco a vaga, engatei a marcha fé e comecei a fazer a baliza. Até ali, tudo certo.

Subitamente, começo a ouvir uma voz enlouquecida pela fresta do vidro: "Aqui não! Aqui não! Você não vai parar seu carro na frente da minha casa!" Parei com a ré, olhei para o lado e vi uma senhora à frente de um pequeno portão, a única abertura em uma grande parede branca. Meu primeiro instinto foi o de tentar falar com ela, mas não houve meios: "Retire agora o seu carro da minha vaga. Aqui você não vai estacionar. Saia imediatamente." Diante de tamanho espetáculo de insanidade, não pude evitar certa ironia. Apesar de louca, aquela senhora não era burra; ela percebeu o meu olhar, mas foi logo concluindo absurdos: "Pare de me ameaçar. Saia agora!" E, sacando uma vassoura, fez que seria capaz de sair para cima de mim. Ri discretamente, fechei o vidro e continuei buscando uma vaga. Virei a próxima à direita e felizmente achei uma vaga. Mal sai do carro, perguntei-me como o agente de saúde local fora indiferente a grave situação de saúde mental daquela senhora.

Nós, os brasileiros, além de votarmos mal, também desconhecemos nossos direitos. É prerrogativa do SUS que um agente de saúde passe pelo menos uma vez por mês em todos os domicílios do país e se informe sobre a saúde de seus moradores. Para uma estratégia mais econômica, costumam-se ignorar os locais mais ricos, onde geralmente há acesso a planos de saúde, mas não era este o caso da moradia daquela senhora. Talvez o posto do Programa de Saúde da Família responsável por aquela área desconheça a situação dela, não sei. De fato, ela parece morar na única casa mais simples de uma vizinhança de classe média. Ora, ainda que não sejam necessárias visitas constantes a casas ricas, os agentes do programa devem conhecer minimamente os habitantes de sua região de atendimento. Por ignorarem a região onde pretendi estacionar meu carro, ficou de fora uma senhora em necessidade urgente de atendimento em saúde mental. Quanto sofrimento não seria evitado se ela recebesse o auxílio médico necessário!