quinta-feira, 12 de janeiro de 2012

Aceitar o mundo

O mundo, coitado, deve ser adolescente; ninguém o compreende, ninguém o aceita como ele é. Todos pensam ter o melhor dos planos para ele, como provavelmente acontece com os jovens de famílias muito exigentes; o pai quer seu filho engenheiro como ele, para a mãe, melhor seria que ele fosse médico, o avô desembargador quer vê-lo advogado, a madrinha espera que o afilhado não desperdice o talento artístico, e assim por diante. Nestes casos onde costuma haver muita pressão por desempenho excepcional, quase sempre se ignora a vontade do maior interessado no assunto: o próprio adolescente. Assim também acontece com este mundo em que vivemos: para todos os lados encontram-se entendidos nas mais diversas áreas com as mais fabulosas receitas de progresso e de melhorias. É tanta influência neste sentido, tanta pressão para que o mundo seja reformulado (ou mesmo recriado) segundo as mais variadas ideologias, que parece não haver espaço para a  hipótese de que não haja nada de errado com o mundo; que ele talvez seja assim mesmo e que, ao invés de transformá-lo por completo, talvez o ideal seria aprendermos a lidar com ele do jeito que ele é, e, deste modo, propormos alternativas de melhora mais assertivas e menos radicais.

Não ignoro que, diante da inteligência humana, o mundo pode (e deve) ser melhorado. Afinal, há muitos espaços para melhoras significativas, como bem o demonstra a história. De fato, o problema não está em querer melhorar o mundo. Estranho seria ignorar os vários problemas. Somente uma pessoa muito indiferente ao sofrimento dos outros agiria assim. Porém, há muitos equívocos em achar que o mundo está completamente perdido e, deste modo, necessitaria de uma reforma completa, segundo as leis invencíveis de alguma doutrina luminosa. O imaginário de quem sustenta semelhante atitude está dominado pelo fundamentalismo ideológico. Esta visão está errada por vários motivos; não apenas porque pressupõe que a vontade de um grupo deva ser imposta à maioria, mas, sobretudo, porque faz parecer que nenhum bem intermediário é possível enquanto o bem idealizado não for concretizado. Em outras palavras, porque acredita em um bem único que precisa sem implementado por completo, o visionário abre mão de fazer o bem possível, o bem pequeno de cada dia; aquele que se pode alcançar individualmente. Assim, ele troca o bem real que está ao seu alcance pela utopia infrutífera de uma idealização qualquer, que jamais se tornará real.

Para evitar esta distorção devemos aceitar o mundo; este mundo imperfeito, inexato e tantas vezes paradoxal. Apesar de todos os problemas, mesmo os mais graves, não é verdade que este seja apenas um lugar de sofrimento e injustiças. Curiosamente, na maioria das vezes, os pobres parecem ser mais felizes e alegres que os idealistas revoltados que pedem ajuda em seu nome. Talvez os pobres possam dar-lhes umas aulinhas de bom humor e jogo de cintura. Também poderão ensinar-lhes a ater-se ao que é importante; a resolver os problemas reais. Quem vive de vento, perde-se em devaneios; no fim, não terá produzido nada. Por outro lado, quem reconhece os próprios limites, não se guia por planos mirabolantes, pode realizar alguma coisa concreta, real, que faça a diferença para alguém com problemas reais. O mundo melhor, para existir, precisa começar dentro de nós. Somente assim serão verdadeiras quaisquer iniciativas externas. A pessoa que pretende reformar a realidade a partir de princípios ideológicos, como se o mundo todo fosse ruim menos ela, esquece que, se o mundo precisa ser melhor, é para que as pessoas sejam melhores; então, é ilógico que uma sociedade mais igualitária e fraterna não comece pelo coração dos homens.

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