sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

A Folha de S. Paulo e os pelos pubianos

O que devemos esperar de um jornal? O simples relato dos acontecimentos mais importantes? A crítica especializada sobre situações complexas? A difusão de fofocas e banalidades televisivas? Enfim, pra que serve um jornal? Qual sua função social, seus objetivos? Não precisamos divagar muito pra perceber que a principal função de um jornal é informar a população sobre os fatos mais significativos; um serviço de grande importância. Neste sentido, como não se pode noticiar tudo, tampouco todos os pontos de vista sobre uma mesma questão, os editores dos jornais devem privilegiar os fatos mais relevantes conforme os interesses da população atendida, senão, precisaria-se de um jornal tão grande quanto o mundo. Desta forma, não faria sentido que os meios de comunicação brasileiros cobrissem os campeonatos americanos de baseball com o mesmo destaque que cobrem o nosso futebol. Tampouco importariam os festivais folclóricos dos aborígenes australianos diante do nosso carnaval. Assim, não é muito difícil perceber que, na missão de levar à sociedade os fatos mais relevantes, os jornais precisam selecionar os acontecimentos, noticiando apenas aqueles de maior importância para uma dada sociedade.

Assim sendo, qual terá sido a reação das pessoas interessadas nos fatos mais relevantes ao olhar à primeira página da Folha de S. Paulo de um mês atrás, que, dentre as notícias de sempre, continha duas chamadas para artigos sobre, acredite, a estética dos pelos pubianos? As mesmas chamadas também foram expostas na primeira página do portal Folha.com. Uma delas entitulava-se "DEPILAÇÃO RADICAL - Nova estética faz de pelos pubianos espécie em extinção", e a outra, por um articulista, chamava-se: "Mundo limpinho não tem graça; sexo sem pelo não é sexo". Fiquei cá em dúvida se a ideia era influenciar-nos na forma como cuidamos de nossos pelos pubianos. Como houve certa contradição nos títulos, não sei se, segundo a Folha, o certo é depilá-los ou cultivá-los. Mas não; a Folha não pretendeu ensinar-nos coisa alguma. Antes, sua intenção foi manipular traiçoeiramente os desejos humanos com fins comerciais, que, como já denunciava Foucault alguns anos atrás, seria a forma do poder financeiro apropriar-se da vida das pessoas; ensinando-lhes como devem agir em relação ao próprio corpo segundo padrões de saúde, higienização, e, mais recentemente, de taras.

Não penso que pessoas normalmente constituídas leram estes textos que sequer podem ser chamados de reportagens; eu pelo menos não li. É evidente que se trata mais de crônica de alcova que de notícia relevante. É certo que em uma sociedade cada vez mais sexualizada e hedonista há gente que se interesse pelo tema; para isso há as revistas de sacanagem. Espanta que um jornal que se pretende "a serviço do Brasil" considere este assunto de interesse. Este exemplo ressalta mais uma vez como os estranhos hábitos comportamentais da minoria vanguardista são usados, por meios de comunicação de esquerda, para combater a posição da maioria, cujo conservadorismo natural é considerado entrave para os projetos de revolução dos costumes sociais e das relações econômicas. Deste modo, por seu posicionamento ideológico, a Folha aproveita-se da intensidade do impulso sexual e do potencial de controvérsia dos temas desta natureza para deslegitimar a decência e o pudor na sociedade. Assim, procura-se rotular de retrógradas as pessoas que refutam a desmoralização do debate sobre os costumes, fazendo parecer que só aqueles sem vergonha de debater esquisitices sexuais são pessoas bem-humoradas e resolvidas.

Porém, há um aspecto ainda mais sombrio na discussão da estética dos pelos pubianos pela Folha de S. Paulo: ao privilegiar este tipo de conteúdo, diminuiu-se o espaço para discussão de outros assuntos, como política, saúde e educação. Deste modo, enquanto publicação de grande circulação e destaque, a Folha de S. Paulo contribuiu para a alienação da sociedade ao mesmo tempo em que evidenciou as discussões dos alienados. Em ambos os casos, rebaixou-se ao nível das publicações de caráter sensual. Afinal, ao tentar criar um evento midiático dando destaque a dois textos sobre um assunto absolutamente desnecessário, a Folha pretendeu influenciar os formadores de opinião, fazendo parecer que há pertinência na discussão pública de tal assunto. Ora, apesar destes contínuos ataques à normalidade, ainda podemos tentar viver normalmente. O que acontece com os pelos pubianos de cada um continuará sendo assunto privado até chegar o dia de involuirmos à nudez coletiva obrigatória. Imaginem os músicos da filarmônica de Berlim realizando seus concertos pelados, ou ainda os atletas voltando ao séc IV a.C. disputando nus as competições; seria o fim do futebol. Eu pelo menos não o veria mais.

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