No meu entendimento, uma das mais importantes características da pessoa inteligente é sua abertura intelectual. Uma pessoa capaz de grandes raciocínios deve estar aberta às divergências, ainda que inquietantes, às diferenças, mesmo as mais profundas, e aos matizes, apesar de infinitos. Assim, a preguiça, a indiferença, o marasmo e o preconceito nunca serão características de uma pessoa dinâmica, inteligente e perspicaz, aberta às novidades. Por estes motivos, acho razoável abrir-me até mesmo à questão do aborto. Será que, em determinadas condições, seria aceitável que uma mulher abortasse seu filho? De fato, acho que há sim um meio de legitimar o aborto em qualquer circunstância, se é o bem da humanidade que procuramos. Afinal, uma gravidez indesejada pode ser um grande fardo na vida de uma mulher. Além disso, obrigar alguém a cuidar de uma criança que nunca desejou é provavelmente um sério fator de risco para o surgimento de terríveis criminosos. Assim, não se pode negar que, havendo um meio de legitimar o aborto, tornando-o moralmente aceitável, seria muito importante a sua imediata aplicação. Então, qual é esse meio? Que argumento poderia ser infalível na defesa e justificação do aborto?
Ora, consideremos que o aborto deva ser aplicado para o bem da humanidade, evitando o prejuízo de mulheres descuidadas e a formação de futuros delinquentes, conforme pregam seus atuais defensores. É evidente que, para sua implementação ser válida, é necessário que ela não comporte graves contradições. Assim, se o fim da aplicação do aborto é fazer o bem ao ser humano, sua justificação só seria aceitável se, sob outro aspecto, ele não promovesse o mal ao mesmo ser humano. Talvez, para sua surpresa, há sim uma circunstância bastante simples na qual o aborto seria moralmente aceitável e eticamente válido: se o feto não for um ser humano; esta é a condição. Se o feto de uma mulher não puder, sob nenhum aspecto, ser considerado um ser humano, então o aborto não só pode, como deve ser implementado. Porém, se o feto é um ser humano, haveria uma contradição grave, pois, para se promover o bem a algumas pessoas, outras teriam de ser assassinadas. Assim, para tornar-me um abortista, ou para tornar qualquer pessoa um abortista, basta provar que o feto não é um ser humano, que, apesar de estar no ventre de uma mulher se preparando para nascer, não pode ser considerado gente. Provem-me isso, e eu me tornarei um abortista no instante seguinte.

4 comentários:
Parabéns pela lucidez.
é só uma questão de você ser capaz de respeitar o livre arbítrio de cada um...
não precisa de ser ou não ser nada, apenas precisa de respeitar o livre arbítrio de cada um...
Então, devemos respeitar integralmente as opiniões alheias, mesmo quando elas pregam o aniquilamento de crianças indefesas? Respeito a pessoa que defende o aborto, mas, até que me provem que essa prática não mata crianças eu serei contrário a ela.
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